O emprego de meios avançados permite operações 24 horas e em todas as condições meteorológicas Foto US DVIDS
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DefesaNet
09 Abril 2026
Um mundo em rápida deterioração estratégica
A ordem internacional atravessa um período de instabilidade crescente, marcado por conflitos simultâneos, disputas entre grandes potências e uma acelerada corrida por novas tecnologias militares. Da guerra na Ucrânia às tensões no Oriente Médio envolvendo Irã e Israel, passando pela rivalidade estratégica entre Estados Unidos e China e a instabilidade na América Latina, o cenário global aponta para um ambiente cada vez mais imprevisível. Embora ainda não se possa afirmar que uma terceira guerra mundial seja inevitável, é inegável que os elementos estruturais de um conflito de grande escala estão se acumulando com velocidade.
A nova corrida armamentista
Nesse contexto, observa-se um fenômeno claro: as principais potências estão se rearmando. Investimentos em defesa crescem de forma consistente, com foco em capacidades emergentes como drones, blindados, guerra eletrônica, inteligência artificial, mísseis hipersônicos e sistemas de defesa antiárea. A guerra contemporânea deixou de ser apenas uma disputa de plataformas tradicionais e passou a ser um confronto de sistemas, dados, velocidade de adaptação e uso intensivo de munição.
O Brasil na contramão
Enquanto isso, o Brasil parece seguir em uma trajetória distinta, exatamente na contramão. A classe política, em grande medida, mantém a defesa como tema secundário na agenda nacional, frequentemente subordinado a disputas internas e restrições orçamentárias. Nem sequer nos programas eleitorais o tema aparece com relevância — é amplamente ignorado por governos e candidatos. O resultado é uma sensação de distanciamento estratégico, como se o país estivesse imune às transformações do ambiente internacional.
Modernização lenta e dependente do passado
As Forças Armadas brasileiras, por sua vez, enfrentam limitações orçamentárias crônicas que impactam diretamente sua capacidade de modernização. Embora existam programas estruturantes iniciados há duas décadas — como o caça Gripen, os submarinos e o cargueiro KC-390 — observa-se dificuldade significativa em avançar na incorporação de novas tecnologias no ritmo exigido pelo cenário atual.
O problema estrutural: a paralisia do CPF
No entanto, o problema não é apenas orçamentário — é também estrutural. Mesmo quando há recursos disponíveis, processos de aquisição frequentemente travam em camadas de burocracia e aversão ao risco. Oficiais responsáveis por decisões críticas, inclusive no mais alto nível, hesitam em avançar com contratos de sistemas de defesa por receio de responsabilização pessoal por órgãos de controle como o Tribunal de Contas da União. Esse temor de vincular decisões ao próprio CPF cria um ambiente de paralisia decisória.
O efeito cascata dentro das Forças
Esse fenômeno gera um efeito em cadeia dentro da instituição. Se no topo da hierarquia há hesitação, os níveis inferiores tendem a adotar postura ainda mais conservadora. O resultado é um sistema que, mesmo quando dispõe de vontade política, orçamento, oportunidade e necessidade, não consegue transformar intenção em ação por falta de decisão.
O paradoxo da reserva
Há ainda um contraste relevante: não são raros os casos em que, já na reserva, ex-integrantes do alto comando passam a defender publicamente a necessidade urgente de reequipamento das Forças Armadas. No entanto, quando estavam na ativa — com autoridade e responsabilidade para agir — essas decisões não foram tomadas. Isso evidencia que o desafio vai além de recursos: trata-se de governança, cultura institucional e incentivos.
O risco de perda de protagonismo e centralização das compras nas mãos de civis do MD
Se esse quadro não for revertido, uma consequência previsível tende a emergir: o deslocamento do protagonismo das aquisições militares para o âmbito civil. Caberá ao Ministério da Defesa e a quadros técnicos civis assumir, de forma crescente, a condução dos processos de aquisição e modernização, reduzindo o papel direto dos militares nessas decisões — como já ocorre em diversos países.
Um campo de batalha que mudou
Essa realidade contrasta com a velocidade das mudanças no campo de batalha moderno. Sistemas não tripulados, integração em rede, guerra cibernética e domínio do espectro eletromagnético deixaram de ser capacidades complementares e passaram a ser centrais. Países que não acompanham essa evolução correm o risco de perder relevância estratégica ou comprometer sua capacidade de dissuasão.
O mito do isolamento brasileiro
A percepção de que o Brasil vive em um “berço esplêndido” — protegido por sua geografia e por uma tradição de não envolvimento em grandes conflitos — pode ser confortável, mas é cada vez mais questionável. O mundo tornou-se interconectado demais para permitir isolamento completo, e crises internacionais já impactam cadeias de suprimento, fluxos energéticos, estabilidade econômica e segurança regional.
Soberania exige preparo
Nesse contexto, a ausência de investimentos consistentes em defesa não representa neutralidade, mas sim vulnerabilidade. A capacidade de proteger interesses nacionais — territoriais, econômicos e políticos — depende diretamente do preparo e da modernização das forças armadas. Isso não implica defender uma corrida armamentista indiscriminada, mas reconhecer que a defesa é parte integrante da soberania, exigindo planejamento de longo prazo, investimento em tecnologia, fortalecimento da base industrial e integração entre forças.
O risco da inércia
O momento atual exige reflexão. O mundo não está necessariamente à beira de uma guerra global iminente, mas caminha para um cenário de maior instabilidade e competição — e ignorar esse movimento não o fará desaparecer. A questão central não é se o Brasil deseja participar de conflitos globais, mas se está preparado para um mundo em que eles se tornem cada vez mais prováveis. Em um cenário de incerteza crescente, permanecer imóvel pode ser, paradoxalmente, a decisão mais arriscada de todas.

Disparo de missil iraniano Foto Agência FARS


















