COBERTURA ESPECIAL - Dossiê EMBRAER - Aviação

30 de Outubro, 2020 - 13:20 ( Brasília )

Presidente da Embraer pede paciência a investidores e não descarta novas demissões

Francisco Gomes Neto diz que reestruturação e o plano estratégico para cinco anos tornarão empresa maior do que antes da crise da covid-19 e do revés no acordo com a Boeing

 

Luciana Dyniewicz,
Portal Estadão
O Estado de São Paulo
30 Outubro 2020


A duas semanas de divulgar os resultados financeiros do terceiro trimestre, o presidente da Embraer, Francisco Gomes Neto, pede calma aos investidores. “A mensagem para nossos acionistas é: acreditem na Embraer e tenham um pouquinho de paciência porque vamos chegar lá”, diz, em entrevista exclusiva ao Estadão.

Segundo ele, a reestruturação feita na companhia e o planejamento estratégico para os próximos cinco anos tornarão a Embraer maior do que era antes da crise da covid-19 e de sofrer o revés da Boeing. Em abril, a americana anunciou que não concluiria a compra da divisão de aviação comercial da brasileira, um acordo de US$ 4,2 bilhões.

No projeto para os próximos anos, a Embraer prevê corte de custos e diversificação, além de apostar em uma recuperação do setor a partir de 2022.
No mercado, porém, há certa desconfiança, dado que aviões usados ociosos podem dominar as vendas nos próximos anos. Entre os cortes de custos promovidos até agora, está a demissão de 2,5 mil funcionários (12,5% do total). Gomes Neto, no entanto, diz não ser possível descartar novos cortes enquanto a crise não acabar.

A Embraer atravessa a crise da covid precisando também se recuperar do acordo fracassado com a Boeing. Foi um erro tentar a parceria com a Boeing?

Não. A parceria foi um movimento estratégico importante para as duas companhias. Infelizmente não deu certo. Então vamos continuar a nossa vida, reintegrando a área de aviação comercial.

A empresa perdeu dinheiro para separar a unidade comercial para entregá-la para a Boeing. Foram R$ 485,5 milhões em 2019.

É verdade. O processo da separação da aviação comercial foi complicado. Envolveu custos enormes. Isso está na arbitragem nos Estados Unidos. Enquanto isso, vamos fazer a lição de casa para superar a crise e preparar a companhia para crescer.

A Embraer dizia que o acordo com a Boeing era essencial porque o setor estava se consolidando e a empresa ficaria fraca para competir com gigantes como a Airbus. Se o acordo era tão importante, como sobreviver sem ele?

Como disse, acho que na época foi um movimento estratégico correto. Infelizmente não deu certo. Agora também tivemos uma mudança grande no panorama, com a covid. O que posso dizer é que temos avançado rapidamente na reintegração da aviação comercial e fizemos um plano estratégico para 2021-2025. Ele é robusto e traz uma perspectiva boa de crescimento e de melhora de rentabilidade.

Soube que estão sendo mantidos dois sistemas de gestão, que vão 'conversar' entre si. Seria como um ‘zíper’, cujos lados podem ser separados caso haja uma venda para outra empresa. Novos acordos estão no radar?

Estamos fazendo essa integração de forma inteligente. Onde faz sentido voltar ao que era antes, estamos voltando. Onde não faz sentido, estamos mantendo, mas trabalhando para simplificar os processos e torná-los mais ágeis, recuperando sinergias. Isso não tem a ver com a estratégia da companhia. Não temos plano de vender a aviação comercial ou nenhuma outra unidade de negócios neste momento. Mas estamos abertos a parcerias que nos permitam abrir novos negócios para a companhia, desenvolver produtos e crescer.

Quando a venda para a Boeing estava para ser concluída, falava-se que a Embraer viraria uma espécie de holding com diferentes negócios de tecnologia e de venda de serviços. Sem o acordo, a estratégia muda?

Vim para a Embraer no ano passado para trabalhar a conclusão do acordo com a Boeing e também para criar uma estratégia para a Embraer continuar. Fizemos um trabalho bacana. Recriamos o espírito de equipe, trouxemos foco no resultado e em simplificar processos. Com a notícia em abril do cancelamento do acordo, trouxemos a aviação comercial para dentro desse espírito. Revisamos esse plano estratégico, já levando em conta os impactos da covid.

A ideia então é ser o que a Embraer era antes do fracasso do acordo com a Boeing? O foco volta a ser aviação comercial?

Vamos focar na aviação e na defesa, mas também diversificar. Temos negócios com a Marinha e com o Exército. Estamos ampliando os serviços de manutenção e reforma de aeronaves não somente da Embraer, mas de fabricação de terceiros. Devemos lançar uma família de nano satélites. Então, a Embraer não vai voltar a ser igual, vai ser maior do que foi no passado, porque agora, além da diversificação, temos produtos novos, como o C-390 Millenium (cargueiro militar), que é um produto que vai ajudar a gente a crescer. Imaginamos a Embraer, nos próximos cinco anos, atingindo níveis de receita superiores aos do passado e com rentabilidade melhor.

Como fazer isso quando uma pandemia paralisa o setor?

A gente fez esse plano 2021-2025 com o pé no chão. Imaginamos que 2021 ainda vai ser desafiador, sem grande crescimento de vendas. Mas estamos preparando a companhia para, mesmo nesse cenário, ter uma performance financeira muito melhor do que a deste ano. Imaginamos que, a partir de 2022, o mercado volta a crescer. Os segmentos de aviação executiva e de defesa têm sido mais resilientes. Na aviação comercial, a gente imagina que os voos regionais e domésticos terão uma retomada antes dos demais. Isso abre oportunidade para nós (os aviões da Embraer são menores e mais adequados para esses segmentos).

O sr. falou que até 2025 a companhia vai ser maior do que era antes da crise. Quando o sr. entrou na Embraer, as informações no mercado eram de que sua meta era dobrar o faturamento da companhia em cinco anos. Isso ainda é possível?

No ano passado, quando a gente estava trabalhando na nova Embraer, sem a área comercial, a gente tinha uma expectativa muito otimista. As unidades que ficavam - de defesa, executiva e serviços - tinham boas oportunidades para crescer. Não era dobrar, mas era uma expectativa de crescimento muito importante. Agora, com a aviação comercial dentro, considerando que ela é a mais afetada pela covid, dobrar seria demais. A gente imagina chegar ao fim desses cinco anos com nível de receita maior do que a Embraer já teve e a nossa expectativa é que a rentabilidade melhore substancialmente, porque estamos fazendo esse trabalho de ganho de eficiência. A mensagem para nossos acionistas é: acreditem na Embraer e tenham um pouquinho de paciência porque vamos chegar lá.

Quanto maior poderá ser esse faturamento em 2025?

Vamos passar um pouco dos níveis maiores do passado, não é um crescimento exagerado.

A Embraer demitiu 2,5 mil funcionários neste ano e há rumores de que novos desligamentos podem ocorrer antes de dezembro. Isso está no planejamento?

Não posso dizer nem que sim nem que não. Estamos fazendo o possível para preservar empregos, mas a crise não acabou e não a controlamos.
    

Novo avião da Embraer só será desenvolvido se houver parceria
 

Projeto de turboélice que competiria com ATR, da Airbus, foi desacelerado; presidente da companhia diz que investimentos necessários para plano estratégico estão garantidos

 

Luciana Dyniewicz
O Estado de São Paulo
30 de outubro de 2020

Foi-se o tempo em que, sozinha, a Embraer bancava grandes projetos. Pelo menos enquanto a companhia não tiver uma situação financeira melhor ou a crise causada pela pandemia da covid-19 não se arrefecer, isso não deve voltar a acontecer, diz o presidente da companhia, Francisco Gomes Neto.

O desenvolvimento de uma aeronave turboélice que disputaria mercado com o ATR, da Airbus, não se concretizará enquanto a Embraer não conseguir um parceiro, seja um financiador ou outra fabricante. Inicialmente, a ideia era que esse projeto fosse tocado pela Boeing Brasil Commercial, joint venture que seria formada após a venda de 80% da divisão de aviação comercial da Embraer para a Boeing.
 
“Sem parceria, não vamos dar andamento, neste momento, ao projeto. Pelo menos até a gente enxergar uma melhoria no cenário e na nossa situação financeira. Mas achamos que vamos encontrar parceiros interessados. Estamos fazendo alguns contatos”, afirmou o executivo.
 
Segundo Gomes Neto, enquanto uma parceria não é firmada, o projeto está sendo tocado em ritmo lento. A nova velocidade de desenvolvimento contrasta com a que a Embraer estava acostumada. Em pouco mais de dez anos, a empresa desenvolveu simultaneamente uma nova família de aviões comerciais, os E2, ao custo de US$ 1,7 bilhão, e um cargueiro militar, o C-390 Millenium, a US$ 4,6 bilhões (este financiado pelo governo federal). 

Nesse período de grandes desenvolvimentos, a Embraer investia, anualmente, de 5% a 5,5% do seu faturamento - porcentual que deve recuar nos próximos anos. “Nessa altura não faz sentido (mantê-lo), mas estamos garantindo os investimentos para não comprometer o plano de retomada de crescimento”, acrescenta o presidente da empresa.

Segundo fontes, porém, há uma preocupação no setor aéreo de que o corte de custos que a companhia vem promovendo para atravessar a crise e aumentar a rentabilidade afete os investimentos em tecnologia. Gomes Neto diz que a redução de gastos não ocorre de maneira “ditatorial”.

“Criamos um processo que se chama torre de controle de gastos. As despesas passam por lá e vimos que várias delas, como estacionamento muito elevado, não precisávamos. Isso está permitindo milhões de dólares de economia. Nos investimentos, a mesma coisa. Não paramos investimentos em inovação nem em melhoria de produtos.”

Dinheiro novo

Questionado se o aporte do BNDES e de bancos privados, que pode chegar a US$ 600 milhões e foi aprovado em junho, é insuficiente para novos investimentos, o executivo afirmou que os projetos que serão desenvolvidos até 2025 têm recursos garantidos.

“Estão equacionados os investimentos que precisamos para executar o plano Embraer 2021-2025. Esse plano não inclui essas parcerias estratégicas. Isso tudo são ‘upsides’ que estamos buscando conseguir e que só vão melhorar a performance da companhia.”

Gomes Neto ainda destacou que a empresa conseguiu equilibrar sua situação financeira após receber o dinheiro do BNDES e emitir títulos de dívida, o que permitiu alongar o perfil do endividamento. “Estamos em uma situação boa de liquidez para os próximos dois ou três anos, que nos dá tranquilidade para concluir essa gestão de crise neste ano, preparar a companhia para crescer a partir de 2021 e dar andamento ao plano estratégico 2021-2025.”


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