COBERTURA ESPECIAL - Dossiê EMBRAER - Aviação

02 de Junho, 2020 - 10:10 ( Brasília )

Embraer após a parceria fracassada com a Boeing – e os desafios de curto prazo da companhia


A sessão da última sexta-feira (29), último dia do mês de maio, foi emblemática para as ações da Embraer (EMBR3), que chegaram a saltar 18,62%. O movimento ocorreu após a notícia da agência Reuters da última sexta-feira de que a fabricante de aeronaves estaria atraindo interesse da chinesa Comac e da russa Irkut estariam interessadas na companhia após o fracasso da fusão com a Boeing.

A Índia, outra potência aeroespacial em ascensão focada principalmente na defesa, mas com um enorme mercado civil, também sinalizou interesse ao estudar o assunto, através da Hindustan Aeronautics.

Naquela sessão, os papéis fecharam com alta bem mais modesta, de 2,44%, enquanto a Embraer não se pronunciou. Já nesta segunda-feira, em comunicado à CVM, a empresa afirmou que avalia potenciais parcerias, mas que no momento não há nenhuma em negociação.

Contudo, apesar da negativa no curto prazo, em teleconferência após o resultado do primeiro trimestre de 2020, a companhia apontou o que seriam as potenciais parcerias.

Francisco Gomes Neto, presidente da Embraer, afirmou que as parcerias podem abranger desenvolvimento, comercialização e produção de aviões. “Estamos revisando neste momento nossa estratégia para os próximos cinco anos e, sem dúvida alguma, dentro dessa estratégia há iniciativas para potenciais parcerias para desenvolvimento e, eventualmente, até para produção”, apontou.

Gomes Neto ainda ressaltou que uma turboélice regional poderia ser o novo alvo de parceria com outra fabricante. Em meio ao noticiário intenso sobre a companhia, o Bradesco BBI apontou na última sexta-feira os possíveis cenários destacados pela reportagem da Reuters.

Conforme avaliam Victor Mizusaki e Gabriel Rezende, analistas do Bradesco BBI, a novidade desta vez é a inclusão da Irkut e da Hindustan como possíveis interessadas.

Caso houvesse a confirmação do interesse por parte das empresas estrangeiras, a estrutura de negócio poderia ser parecida com a estabelecida pelo fracassado acordo com a Boeing e aprovado pelo governo federal e acionistas.

Contudo, reforçam, se um potencial acordo avançar, o investimento potencial deve ser materialmente inferior à oferta de US$ 4,2 bilhões da Boeing, porque:

1) no acordo anterior com a americana, a Embraer iria complementar o portfolio da Boeing para competir com a Airbus (o que implicaria um valor maior de negociação),

2) a pandemia do Covid-19 desencadeou uma crise global nos setores aéreo e aeroespacial e

3) a Embraer terá que lutar com adiamentos recentes de pedidos de aeronaves e cancelamentos. “Portanto, o momento é mais favorável para o potencial comprador do que para o vendedor”, apontam os analistas.

Ainda na visão deles, dentre as três companhias estrangeiras destacadas, a chinesa Comac seria a que “naturalmente” faria o negócio com a Embraer. Isso porque, com uma possível aquisição da divisão de aviação comercial da Embraer, a Comac ganharia força para desenvolver novos produtos e ameaçar o duopólio da Boeing-Airbus.

O portfólio da Comac inclui um jato regional ARJ21 (78-90 assentos), com 25 entregas de aeronaves até o momento e um modelo de longas distâncias C919 (158-168 assentos) com entregas de seus 815 pedidos com início previsto para 2021.

A companhia chinesa também está desenvolvendo o CR929 (280 assentos) através de uma parceria com a Russian United Aircraft Corporation (UAC).

O Bradesco BBI ainda destaca algumas informações sobre a russa Irkut e a indiana Hindustan. Sobre a primeira companhia, em fevereiro de 2020, a Sukhoi Aircraft Company foi renomeada como Irkut Corporation.

Desde 2000, Sukhoi tem desenvolvido e promovido a aeronave Superjet 100. No entanto, o Superjet 100 teve número limitado de clientes e, nas Américas, a Interjet no México era a única companhia aérea que usava em sua frota. Já sobre a Hindustan Aeronautics, os analistas ressaltam que ela é uma fabricante de aeronaves estatal indiana focada no segmento de defesa.

No entanto, o projeto UDAN, que foi lançado pelo governo indiano em 2017 para desenvolver aeroportos regionais, pode sugerir que o país poderia ter interesse em uma parceria com a Embraer – o que não necessariamente envolveria uma participação acionária.


Resultado bom, mas desafios pela frente…

Os analistas do BBI mantêm recomendação underperform (desempenho abaixo da média do mercado) para as ações da companhia, apesar do resultado do primeiro trimestre de 2020 considerado melhor do que o esperado.

Como destaque, eles apontaram o lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações (Ebitda) ajustado acima do esperado, totalizando US$ 65 milhões, versus a estimativa de Ebitda ajustado do BBI negativo de US$ 50 milhões e do mercado positivo em US$ 12 milhões.

Por outro lado, a receita líquida ficou 10% abaixo do esperado pelos analistas e 20% abaixo do consenso de mercado. A recomendação segue equivalente à venda, com preço-alvo de US$ 4 para os ADRs da companhia, o que levaria a um downside de 27% frente o fechamento da última sexta-feira, em meio ao adiamento das entregas de aeronaves e novos cancelamentos em potencial e uma concorrência acirrada vinda da Airbus.

O UBS, por sua vez, possui recomendação neutra para os ADRs, com preço-alvo de US$ 9 (ou potencial de valorização de 63%). Os analistas do banco destacaram também um resultado melhor do que o esperado, com atenção para margem Ebitda de 10,2% e para o Ebitda, muito acima do que o esperado pelo banco de US$ 31 milhões e margem de 3,5%.

O principal ponto, segundo os analistas, fica para as projeções de queima de caixa para o ano.

Durante a teleconferência, Antonio Carlos Garcia, vice-presidente financeiro e de relações com investidores da empresa, apontou que a “liquidez da Embraer permanece sólida, com uma contínua disciplina de caixa. A companhia fechou o trimestre com caixa total de US$ 2,5 bilhões, sem grandes vencimentos antes de 2022”, disse.

Contudo, para o Bradesco BBI, a queima esperada de caixa deve aumentar a dívida líquida. Segundo Garcia, a meta é chegar ao fim deste ano com cerca de US$ 2 bilhões em caixa. Dentre as medidas para preservar o caixa, o executivo apontou que a Embraer tem monitorado os recebíveis e negocia diretamente com os fornecedores a postergação de pagamentos. Além disso, 50% da força de trabalho no país está sob regime de redução salarial.

Enquanto isso, algumas notícias apontam que a Embraer estaria em negociações para conseguir financiamento. Segundo o Valor Econômico, o BNDES e bancos privados um financiamento de US$ 600 milhões.

Os recursos, que poderiam ser liberados ainda em junho, seriam usados para atender demanda de jatos executivos e comerciais da empresa para os próximos meses.

Durante a teleconferência, Garcia apontou que a empresa continua em tratativas com bancos, tanto nacionais quanto estrangeiros, para ter acesso a linhas adicionais de financiamento para ultrapassar a crise em curso e espera ter novidades sobre esse tema nas próximas semanas, mas não detalhou os termos que estão sendo negociados com os bancos.

Em meio ao cenário complicado para o setor aéreo em geral, a companhia ainda terá que reintegrar a sua unidade de aviação comercial, que foi transformada em empresa independente como parte do acordo com a Boeing.

Francisco Gomes Neto afirmou que a companhia está trabalhando na reintegração da unidade, apontando que a Embraer buscará “recuperar as sinergias e eliminar duplicações”.

A separação da unidade, que já havia custado à Embraer cerca de R$ 490 milhões no ano passado, gerou custo adicional de R$ 97 milhões no primeiro trimestre de 2020; a brasileira buscará reparação através da arbitragem aberta contra a Boeing.

Com um ambiente desafiador para a companhia no curto e no longo prazo, tanto em termos macro quanto microeconômicos, os analistas de mercado estão bastante cautelosos com o papel. De 9 casas que cobrem os ADRs da empresa, apenas 1 recomenda compra, 6 recomendam manutenção e 2 recomendam venda.

Boeing move arbitragem contra Embraer após fim de acordo comercial¹

A Boeing levou a Embraer à arbitragem sobre um acordo fracassado de 4,2 bilhões de dólares, informou a fabricante brasileira em um documento nesta segunda-feira.

Até agora, só se sabia publicamente que a Embraer havia levado a Boeing à arbitragem, irritada com a forma como a fabricante de aviões dos EUA interrompeu abruptamente o acordo em abril, depois de anos trabalhando juntas.

A Boeing não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.

¹com agência Reuters



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