COBERTURA ESPECIAL - Cyberwar - Geopolítica

12 de Janeiro, 2021 - 11:11 ( Brasília )

Quem vai herdar o legado dos simpatizantes de Donald Trump depois de seu banimento das gigantes digitais ?


Luciana Gurgel | MediaTalks, Londres | @lcnqgur


A retirada da Parler do ar pela Amazon, que na manhã desta segunda-feira (11/1) encerrou a hospedagem da rede social em seu serviço de nuvem AWS por causa de conteúdo ofensivo e violento, foi um baque para os simpatizantes de Donald Trump e de uma vasta rede de conspiracionistas e extremistas.

Eles haviam acorrido à rede sobretudo depois que o presidente americano fora banido das demais plataformas globais, em parte atraídos pela ausência de moderação e também em protesto contra o que consideram censura das gigantes digitais.

No mesmo dia, o CEO da Parler, John Matze, deu entrada em um processo judicial nos Estados Unidos acusando a Amazon de quebra de contrato e motivação política. Para a revista especializada Techcrunch, as alegações são “fantasiosas” e desmentidas com evidências dentro do próprio processo. Veja aqui a íntegra da petição inicial.


Em curva ascendente

Os números da Parler não se comparam aos do Twitter. Mas ela foi abatida em voo ascendente. Segundo a empresa de monitoramento Sensor Tower, menos de 24 horas depois de o presidente americano perder seu palanque virtual no Twitter, a rede fundada em 2018 havia alcançado a liderança em downloads na Apple Store nos Estados Unidos no sábado (9/1).

Até sair do ar, tinha registrado 10,8 milhões de downloads, a maioria de usuários americanos, dos quais 9,6 milhões ingressaram em 2020. Nos primeiros dias de 2021 o aplicativo foi baixado 864 mil vezes, sendo 696 mil nos Estados Unidos. Enquanto debate-se a respeito da autoridade de empresas privadas para remover conteúdo por decisão própria, diversas redes alternativas avançam disputando o legado de Donald Trump e seus simpatizantes.

Não é pouca coisa: 88 milhões de seguidores no Twitter, variando de indivíduos alinhados ao pensamento conservador a extremistas e teóricos da conspiração de movimentos como o QAnon. Uma das favoritas é a própria Parler, caso consiga voltar ao ar. O CEO John Matze postou no domingo (10/1) uma mensagem dizendo acreditar que se houvesse o banimento da Amazon a rede estaria de volta em uma semana.

Uma hora antes de perder a hospedagem, no entanto, foi mais pessimista, dizendo que ela provavelmente ficaria inacessível por mais tempo, já que outros serviços de nuvem não queriam aceitá-la devido ao discurso de Amazon, Google e Apple na imprensa.


Trumpnet?

Há a possibilidade de o próprio Trump criar a sua rede. Ele chegou a revelar tal plano depois de banido ou suspenso da maioria das plataformas pela conta oficial do Governo americano @POTUS, em uma postagem removida em seguida pelo Twitter:

“Temos negociado com vários outros sites, e teremos um grande anúncio em breve, enquanto também olhamos para as possibilidades de construir nossa própria plataforma em um futuro próximo. Nós não seremos silenciados!”

Curiosamente, o nome Trumpnet chegou a ser registrado pelo então empresário Trump em 1990, como aparece no portal Justia. Em uma internet incipiente, restrita e lenta, não era uma rede social o objetivo do registro – abandonado por inatividade – e sim serviços de telecomunicações.

Os passos do homem em vias de deixar a Presidência americana pela porta dos fundos são difíceis de prever. Mas ele não precisa de uma rede própria, pois há outras além da Parler fazendo o serviço para ele e para outros líderes alinhados a Trump.


Gab, com servidores próprios, garante acesso



A Gab foi fundada em 2016 por Andrew Torba, que também é o CEO. Virou uma das queridinhas de extremistas de direita. Apresenta-se como um canal para a liberdade de expressão, e por isso reúne grupos que falam livremente de violência a discurso de ódio. A aparência lembra a do Twitter.

Torba alardeou em uma postagem de 6/1 que o tráfego no site havia aumentado 40%. Três dias depois ele celebrou a conquista de mais de 10 mil usuários por hora, com 12 milhões de visitas. Na manhã desta segunda-feira, quando a Parler era despejada dos servidores da Amazon, ele comemorava 600 mil novos “gabbers”. Chegou a tripudiar sobre o sufoco enfrentado pela Parler, lembrando que utiliza servidores próprios e por isso não corria o risco de sair do ar.

Outra vantagem competitiva da Gab é que ela não exige uma conta para ver o que se fala por lá. Apenas pelo navegador qualquer um pode ter acesso ao conteúdo postado pelos membros, o que a torna mais difícil ainda de ser bloqueada. E mais bem posicionada para difundir conteúdo sem demandar identificação do quem a visita.

O curioso é que a Gab usa o Twitter para conclamar seguidores, em @getongab. Apresenta-se como uma rede que valoriza a liberdade de expressão, a liberdade individual e o fluxo livre de informações online. E lembra que é feita na América por americanos. Mais nacionalista impossível.


MeWe, um negócio de verdade



Correndo por fora vem aMeWe,outra rede americana apoiada no discurso de liberdade e privacidade, posicionando-se como antiFacebook. Em novembro, quando os downloads da Parler explodiram nos Estados Unidos, ela ficou em segundo lugar na Apple Store, atraindo os descontentes com a moderação nas outras redes, entre os quais muitos extremistas.

Há grupos de apoio a Trump, postagens em suporte aos eventos de Washignton classificados com desobediência civil e também de movimentos como o Qanon. No fim de semana subsequente aos conflitos na capital americana, o CEO Mark Weinstein disse estar com quase 15 milhões de membros. O lema da MeWe é “Sua vida pessoal não está à venda”.

A performance aponta para um negócio sério. Foi nomeada a Empresa de Mídia Social Mais Inovadora em 2020 pela Fast Company, a Melhor Empresa Empreendedora da América em 2019 pela Revista Entrepreneur e Finalista de Startup do Ano na SXSW. Em outubro passado, contava com 9 milhões de usuários.

Um dos membros do conselho é o cientista da computação britânico  Sir Tim Berners-Lee  (um dos inventores da World Wide Web). Para ele, a “MeWe devolve o poder da internet às pessoas com uma plataforma construída para colaboração e privacidade”. 

No Fórum de Governança da Internet em Berlim, em 2019, Berners-Lee foi um dos que lançaram o Contrato para a Web, uma iniciativa para persuadir governos, empresas e cidadãos a se comprometerem com nove princípios para impedir o “uso indevido”, com o aviso de que “se não agirem agora e ajam juntos para evitar que a web seja mal utilizada por aqueles que querem explorar, dividir e minar, corremos o risco de desperdiçar seu potencial para o bem”. 

Em uma entrevista à Revista Rolling Stone em 2019, quando a rede começou a se destacar como destino de extremistas excluídos de outras redes, o fundador e CEO Mark Weinstein disse: “Eu sou um dos caras que inventou a mídia social”. Com um diploma da UCLA School of Management, Weinstein criou em 1998 o que a revista classificou como um precursor dos grupos de Facebook, chamado SuperGroups, que permitia criar comunidades.

O CEO da MeWe afirmou em palestra na TedX que estamos vivendo o “maior evento socioeconômico da história da humanidade, o ‘capitalismo de vigilância'”, criticando abertamente o modelo de negócios do Facebook e de outros gigantes da mídia social atual, que a seu ver é o de rastrear, analisar e monetizar dados de usuários.

A MeWe diz estar liderando a revolução da privacidade nas mídias sociais. A rede social possui uma Declaração de Direitosapresentada como “destinada a dar a seus usuários total controle de seus dados e privacidade”. Sem anúncios, tem um modelo de receita freemium que oferece aos usuários a experiência de mídia social básica gratuita e pacotes opcionais como armazenamento extra (US$ 3,99 por mês), chamadas de voz e vídeo ao vivo (US$ 1,99 por mês) e jornais MeWe (US$ 1,99 por mês). Chegou a enfrentar dificuldades com o excesso de inscrições, mas comemorou o sucesso e pode ganhar mais diante da ausência da Parler.

Rumble, alternativa para o YouTube

Os insatisfeitos com a moderação das plataformas globais também fizeram inflar os números de audiência do site de compartilhamento de vídeos Rumble desde que Joe Biden foi anunciado vencedor das eleições americanas.

Na home há em destaque um vídeo mostrando um adorável momento com um filhote de leopardo. Mas uma busca rápida por QAnon traz uma enorme lista de vídeos sobre o grupo extremista. E vídeos em apoio ao atual presidente americano depois dos conflitos registrados em Washington na semana passada indicam que seus seguidores estão por lá.

Além de poucas exigências e pouca moderação, tem uma vantagem adicional para os criadores: paga melhor do que o YouTube. O Rumble conta com parcerias de sites como MTV, Xbox, Yahoo e  MSN. Segundo a Tech Times, devido às parcerias, os usuários recebem para fazer upload de seus vídeos para esses parceiros usarem. Se um vídeo for aprovado, o criador recebe US$ 50. Se o vídeo chegar à página inicial, ganha mais de US$ 100.


The Donald.win



Em 2020 a rede Reddit baniu – entre milhares de outros – o grupo The Donald, uma comunidade conservadora de quase 800.000 membros acusados ??de incitar a violência e disseminar discurso de ódio; eles migraram para o site TheDonald.win, registrado em julho.

Muito parecido com seu antecessor, apresenta-se como “não politicamente correto” e diz que é um lugar para apoiadores de Trump. Afirma desencorajar o racismo e “comentários que violam as leis em sua jurisdição ou nos Estados Unidos”. Apesar disso, há uso extensivo de linguagem chula, sexista e homofóbica.

Os usuários podem votar nas postagens, e até pedir a exclusão de quem não se alinhe às regras. Não se sabe exatamente quem o criou, mas sites especializados apontam que poderia ser um dos 30 moderadores, que atende pelo apelido Shadowman3001.

DLive, site de vídeos reunindo extremistas

O DLive é um serviço de streaming de games adotado maciçamente por supremacistas brancos e neonazistas americanos, uma alternativa ao YouTube sem moderação. O blog Hatewatch, que acompanha movimentos da extrema-direita nos Estados Unidos, registrou pelo menos cinco contas no DLive transmitindo ao vivo o protesto de quarta-feira passada em Washington, uma delas sob o nome de Murder the Media (morte à imprensa).

O serviço foi fundado por Charles Wayn em dezembro de 2017. Ele figura na lista de ex-alunos da Universidade de Berkeley, com um diploma de Economia Ambiental. O DLive está no serviço de compartilhamento de arquivos peer-to-peer BitTorrent. A atuação do DLive parecer ir além da plataforma de vídeos.

A Hatewatch afirma que a empresa pagou centenas de milhares de dólares a extremistas desde sua fundação, principalmente por meio de doações de criptomoedas incorporadas a um serviço fornecido pelo site. Em novembro passado, havia relatado que o nacionalista branco Nick Fuentes, que apareceu com destaque nos protestos no Capitólio, gerou dinheiro através do DLive em um ritmo que corresponde a um salário de seis dígitos. Depois dos conflitos da semana passada, Wayn publicou em suas redes sociais statements declarando que a rede não apoia a violência e anunciou a expulsão de membros envolvidos com o caso de Washington.

E agora?

Apesar de iniciativas isoladas, o problema do extremismo nas redes sociais, seja nas plataformas globais ou em sites menores, lembra a metáfora gasta do queijo suíço: cheio de buracos. Expoentes do trumpismo perderam por enquanto seu espaço na Parler.

O senador do Texas Ted Cruz tinha 4,9 milhões de seguidores na plataforma, enquanto Sean Hannity, apresentador da Fox News, tinha cerca de sete milhões. Mas continuam em outras redes, enquanto seguidores anônimos se reagrupam. Não é uma questão de onde de fala, e sim do que se fala. E o quanto o discurso livre é aceitável quando ele incita ódio e violência.

 

Luciana Gurgel, Coordenadora editorial do MediaTalks byJ&Cia, é jornalista brasileira radicada em Londres. Iniciou a carreira no jornal o Globo, seguindo depois para a comunicação corporativa. Em 1988 fundou a agência Publicom, junto com Aldo De Luca, que se tornou uma das maiores empresas do setor no Brasil e em 2016 foi adquirida pela WeberShandwick (IPG Group). Mudou-se para o Reino Unido e passou a colaborar com veículos brasileiros, atuando como correspondente do canal MyNews e colunista semanal do Jornalistas&Cia / Portal do Jornalistas, no qual assina uma coluna semanal sobre tendências no mundo do jornalismo e da comunicação. É membro da FPA (Foreign Press Association).

Fonte: http://www.mediatalks.com.br/pt/2021/01/11/parler-gab-mewe-rumble-dlive-e-o-legado-de-trump-nas-redes-sociais/