COBERTURA ESPECIAL - Crise - Geopolítica

31 de Agosto, 2021 - 08:50 ( Brasília )

Helicópteros Black Hawk, Humvees e Tucanos, o arsenal que caiu nas mãos do Talibã


Um vídeo postado recentemente nas redes sociais mostra combatentes do Talibã observando como um icônico equipamento militar americano — um helicóptero Black Hawk — era pilotado no aeroporto de Kandahar.

A aeronave multifuncional de quatro lâminas estava apenas taxiando na pista, mas a manobra enviou uma mensagem ao mundo: o Talibã não é mais um grupo de soldados desorganizados empunhando rifles de assalto Kalashnikov em picapes surradas.

Desde a tomada de Cabul em 15 de agosto, combatentes do Talibã foram fotografados exibindo uma série de armas e veículos de fabricação americana. Alguns deles foram fotografados em equipamentos de combate idênticos aos de outras forças especiais em todo o mundo.

Eles não ostentavam as tradicionais barbas compridas ou roupas típicas, e certamente não havia nenhuma arma enferrujada. As armas foram conquistadas pelos militantes islâmicos ao derrotarem as Forças de Defesa e Segurança Nacional Afegãs (Ands) em diversas cidades. Algumas pessoas nas redes sociais dizem que isso faz do Talibã o único grupo extremista do mundo a possuir uma força aérea.

Quantas aeronaves o Talibã possui?


A Força Aérea Afegã operava 167 aeronaves, incluindo helicópteros de ataque e aviões, no final de junho, de acordo com um relatório do Inspetor Geral Especial para Reconstrução do Afeganistão (Sigar, na sigla em inglês), um órgão do governo americano. Entre as aeronaves estão aviões de caça-leve A-29 Super Tucano fabricados pela brasileira Embraer.

Mas não está claro quantas aeronaves o Talibã realmente capturou. Imagens de satélite do aeroporto da cidade de Kandahar, fornecidas à BBC pela empresa americana Planet Labs, mostram uma série de aeronaves militares afegãs estacionadas na pista.

Uma imagem feita seis dias depois que a cidade foi tomada pelo Talibã mostra cinco aeronaves — pelo menos dois helicópteros MI-17, dois Black Hawks (UH-60) e um terceiro helicóptero que também poderia ser um UH-60, de acordo com Angad Singh, um especialista em aviação militar da Observer Research Foundation, com sede em Nova Déli, na Índia.

Outra imagem de satélite feita bem antes, em 16 de julho, mostrava 16 aeronaves — nove Black Hawks e dois helicópteros MI-17 e cinco aviões de asa fixa. Isso significa que algumas dessas aeronaves foram transportadas para fora do país ou transferidas para outras bases aéreas.

O Talibã também capturou as nove bases aéreas afegãs restantes, incluindo as de Herat, Khost, Kunduz e Mazar-i-Sharif — mas não está claro quantas aeronaves eles apreenderam, pois não há imagens de satélite desses aeroportos disponíveis.

Os combatentes do Talibã e a imprensa local têm postado imagens de aeronaves e drones confiscados nesses aeroportos.

Mas também existe a possibilidade de que algumas aeronaves foram retiradas do Afeganistão antes que pudessem cair nas mãos de insurgentes. A análise de imagens de satélite tiradas em 16 de agosto do aeroporto Termez do Uzbequistão mostra mais de duas dúzias de helicópteros, incluindo MI-17, MI-25, Black Hawks e também várias aeronaves A-29 de ataque leve e C-208, de acordo com um especialista em aviação baseado em Nova Déli que não quis ser identificado.

Especialistas da consultoria de segurança CSIS dizem que esses aviões e helicópteros provavelmente são da Força Aérea Afegã.

Quais outros equipamentos militares o Talibã capturou?


Embora haja dúvidas sobre o poder aéreo do Talibã, especialistas concordam que eles têm experiência para manusear armas, rifles e veículos sofisticados. E há muitos desses equipamentos no Afeganistão.

Entre 2003 e 2016, os EUA passaram uma enorme quantidade de equipamento militar para as forças afegãs que lutaram a seu lado: 358.530 rifles de diferentes marcas, mais de 64 mil metralhadoras, 25.327 lançadores de granadas e 22.174 Humvees, de acordo com um relatório do governo americano.

Depois que as forças da aliança militar Otan encerraram seu papel de combate em 2014, a proteção do país ficou a cargo do Exército afegão. Enquanto este lutava para conter o Talibã, os EUA forneciam mais equipamentos militares e substituíam as armas mais antigas.

Os americanos forneceram cerca de 20 mil rifles M16 somente em 2017. Nos anos seguintes, os EUA contribuíram com pelo menos 3.598 rifles M4 e 3.012 Humvees, entre outros equipamentos, para as forças de segurança afegãs entre 2017 e 2021, de acordo com o Sigar.

O Exército afegão também tinha veículos blindados MSFV, que usava para operações de emergência. Esses veículos 4x4 podem ser usados para transportar pessoas ou equipamentos.

O que o Talibã pode fazer com seu novo arsenal?

Isso depende.

Capturar aeronaves pode ter sido fácil para o Talibã, mas operá-las e mantê-las será difícil, diz Jonathan Schroden, diretor do grupo de consultoria CNA e ex-conselheiro das forças americanas no Afeganistão. As peças precisam de constante manutenção e substituição, e uma força aérea depende de uma equipe de técnicos trabalhando para manter cada aeronave funcionando.

A maior parte das aeronaves recebia manutenção de empreiteiras privadas dos EUA, que começaram a deixar o país antes mesmo do ataque do Talibã às cidades e províncias em agosto.

Jodi Vittori, professora de política global e segurança da Universidade de Georgetown e veterana da Força Aérea dos EUA que serviu no Afeganistão, concorda que o Talibã não tem experiência para tornar essas aeronaves operacionais.

"Portanto, não há perigo imediato de o Talibã usar essas aeronaves", diz ela, sugerindo que as aeronaves podem ter sido parcialmente desmontadas antes da rendição das forças afegãs.

No entanto, o Talibã tentará coagir ex-pilotos afegãos a pilotar esses aviões, diz Jason Campbell, pesquisador da Rand Corporation e ex-diretor para o Afeganistão no Gabinete do Secretário de Defesa dos EUA.

"Eles vão ameaçar os pilotos e suas famílias. Então, eles podem ser capazes de colocar alguns desses aviões no ar, mas suas perspectivas de longo prazo parecem sombrias."

Mas é provável que o Talibã seja capaz de operar os MI-17 de fabricação russa, da mesma forma que tem feito no país há décadas. Quanto ao resto do arsenal aéreo, eles podem procurar países solidários para manutenção e treinamento.

Outros armamentos serão muito mais fáceis de serem usados pelos insurgentes. Até mesmo soldados de infantaria do Talibã parecem estar confortáveis com o equipamento terrestre que apreenderam.

O fato de o grupo ter acesso a tais armas modernas é um "fracasso colossal", diz Michael Kugelman, vice-diretor do Wilson Center em Washington.

Mas os efeitos não se limitarão ao Afeganistão. Há temores de que as armas pequenas possam começar a aparecer no mercado negro e alimentar outras insurgências ao redor do mundo.

Isso não é um risco imediato, diz Vittori, mas uma cadeia de suprimentos pode aparecer nos próximos meses. A responsabilidade de impedir isso recai sobre países vizinhos como Paquistão, China e Rússia.

Campbell diz que o Talibã parece interessado em projetar um lado mais responsável, embora seja difícil acreditar que eles não venham a apoiar grupos ideologicamente semelhantes em todo o mundo.

A unidade dentro do Talibã é outro fator que terá um papel importante no modo como essas armas são usadas.

Vittori diz que existe a possibilidade de que grupos dissidentes de dentro da aliança do Talibã decidam romper, levando as armas com eles. Portanto, muito dependerá de como a liderança manterá o grupo unido quando a euforia inicial de assumir o controle do Afeganistão passar.

 


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