COBERTURA ESPECIAL - Crise - Geopolítica

30 de Setembro, 2020 - 12:45 ( Brasília )

O jogo de interesses no conflito entre Armênia e Azerbaijão

O caminho para a paz em Nagorno-Karabakh passa por Rússia e a Turquia, principais influências na região. Disputa em torno de área de população cristã já dura décadas e voltou a escalar nos últimos dias.

O que fez com que o conflito na região de Nagorno-Karabakh, latente há décadas, explodisse desta vez? Especialistas suspeitam que ele possa ter algo a ver com a deterioração da situação econômica no Azerbaijão, cuja maioria de população é de muçulmanos xiitas.

Segundo o direito internacional, a região pertence ao Azerbaijão, mesmo que a área seja povoada predominantemente por armênios. Nem mesmo a própria Armênia ou a Rússia reconhecem a região como um Estado independente.

O conflito na região existe desde a fase final da União Soviética, em 1988, tendo provocado vários confrontos militares entre armênios e azerbaijanos.

O Grupo de Minsk da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), da qual a Alemanha também faz parte, atua como mediador desde 1992. Desde 1997, é dirigido por três copresidentes, dos EUA, Rússia e França. Em 1994, foi acertado um cessar-fogo.

No entanto, um estado de paz sustentável não foi alcançado pelo acordo. As partes em conflito avançam de um armistício ao outro.

Dependência do petróleo

O Azerbaijão é o terceiro maior exportador de petróleo das ex-repúblicas soviéticas, depois da Rússia e do Cazaquistão. A expansão da indústria do petróleo tem impulsionado o crescimento nos últimos 20 anos, contribuindo para que a renda per capita do país disparasse de 652 dólares para pouco menos de 4 mil dólares entre 2000 e 2016.

Mas o preço do petróleo caiu devido à retração econômica causada pela pandemia de coronavírus, derrubando a receita das exportações petrolíferas, que enchia os cofres estatais.

Em contraste com a Armênia ortodoxa cristã, que tem na Rússia sua potência protetora, o Azerbaijão é maciçamente apoiado pelo presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. Ancara tem vendido há anos armas ao governo em Baku, a capital azerbaijana, e está apoiando a expansão da infraestrutura, como, por exemplo, a da rede ferroviária.

Erdogan também está diplomaticamente do lado de Baku. Ele regularmente exorta o governo armênio a se retirar de Nagorno-Karabakh. Na área vivem 150 mil armênios cristãos, que resistem a ser governados pelos azerbaijanos, de tendência islâmica. Erdogan criticou a Armênia várias vezes nos últimos meses.


"Retórica agressiva"

"O presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev, deve ter se sentido encorajado por este apoio para tomar medidas contra a Armênia", avalia a escritora e jornalista Silivia Stöber, que desde 2007 escreve reportagens regularmente sobre o sul do Cáucaso. "Além disso, Aliyev tinha que, em algum momento, transformar em fatos sua retórica agressiva contra a Armênia."

"Sem Moscou, a Armênia não será capaz de se defender", ressalta Stöber. A Rússia posicionou milhares de soldados na fronteira sul da Armênia. Os dois países também são membros da Organização do Tratado de Segurança Coletiva, uma aliança militar iniciada por Moscou.

Mas também o Azerbaijão recebe armas da Rússia. Em uma reunião entre Aliyev e Putin em Sochi em setembro de 2018, Aliyev anunciou a compra de tecnologia militar russa no valor de 5 bilhões de dólares.

Na opinião do especialista russo e escritor Alexander Rahr, para a Rússia, o que está em jogo no conflito em torno de Nagorno-Karabakh é a preservação do status quo. "O Kremlin não quer agravar a situação, mas quer defender o Cáucaso como sua área de influência", diz Rahr.

"Nos últimos 30 anos, o Kremlin conseguiu limitar a influência dos Estados Unidos na região", sublinha Rahr. Além disso, os governos de Rússia e Azerbaijão se coordenam quando se trata de negócios envolvendo commodities, já que dependem da receita das exportações, aponta.

"A Rússia não tem interesse em uma escalada do conflito de Nagorno-Karabakh. Quando o presidente Putin pede que ambas as partes façam as pazes, isso é mais do que apenas retórica política. Ele quer mostrar ao mundo até que ponto sua influência se estende", explica Rahr. Ele acredita que o Kremlin fará todo o possível para garantir que as armas no Cáucaso sejam silenciadas o mais rápido possível.