COBERTURA ESPECIAL - Crise - Geopolítica

27 de Setembro, 2020 - 11:11 ( Brasília )

Conflito armado se acirra na fronteira Armênia-Azerbaijão

Há cerca de 30 anos armênios e azerbaijanos disputam o território fronteiriço de Nagorno-Karabakh, apesar de cessar-fogo declarado. Bombardeios e acusações recíprocas desencadeiam agora confrontos mais graves desde 2016.

O Azerbaijão condenou "veementemente" neste domingo (27/09) a investida militar da Armênia na região separatista de Nagorno-Karabakh, na fronteira entre os dois países, que teria resultado em mortes na véspera. Por sua vez, o governo armênio convocou à "mobilização geral".

Em declaração divulgada no Twitter, o conselheiro do presidente do Azerbaijão, Hikmet Hajiyev, sublinhou que o país "condena veementemente o novo ato de agressão da Armênia". Acusando as Forças Armadas do país vizinho de terem violado o cessar-fogo bilateral, ele mencionou um "bombardeio que afetou áreas densamente povoadas por civis".

"Há relatos de mortos e feridos entre civis e miliares", acrescentou Hajiyev, atribuindo a responsabilidade das ofensivas ao bloco armênio, por ter "deliberadamente atacado áreas residenciais".

Já o primeiro-ministro armênio, Nikol Pashinian, fez um apelo à "mobilização militar geral" através do Facebook, exortando o pessoal ligado às Forças Armadas a se apresentar em suas comissões militares territoriais. Segundo o correspondente da DW em Ierevan, numerosos cidadãos se reuniram no centro da capital armênia, dispostos a partir para o front.

Horas antes, o premiê denunciara em tuíte uma ofensiva do Azerbaijão "com ataques aéreos e de mísseis", anunciando o abate de dois helicópteros e três drones azéris, assim como a destruição de três tanques.
 

Não há dados seguros sobre se os disparos partiram das forças governamentais armênias ou de rebeldes de Nagorno-Karabakh. Pashinian assegurou, ainda, que o Exército armênio tudo fará para "proteger a pátria da invasão".

Araik Harutyunyan, presidente da autoproclamada República de Nagorno-Karabakh também declarou "lei marcial e mobilização militar" numa sessão parlamentar de emergência. O território é um enclave de etnia armênia no Azerbaijão, fora do domínio azéri desde 1994. Ambos os lados mantêm forte presença militar ao longo de uma zona desmilitarizada que separa a região do resto do Azerbaijão.

O presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, classificou como "altamente preocupante" o retorno da violência na região, afirmando no Twitter que "a volta imediata às negociações, sem pré-condições, é o único modo de seguir adiante".
 

O conflito armênio-azerbaijano data dos tempos soviéticos: em fins dos anos 80 a população majoritariamente armênia de Nagorno-Karabakh pediu para o território ser incorporado à vizinha Armênia. A subsequente guerra durou seis anos, causando cerca de 25 mil mortes. No fim, as forças armênias assumiram o controle de Karabakh.

Apesar de o conflito entre os dois países ter se concluído oficialmente em 1994, as tensões e confrontos na região separatista se mantiveram, mesmo com a assinatura de um cessar-fogo em 2016. Os atuais choques armados são os mais pesados desde então.

O Azerbaijão defende que a solução do conflito com a Armênia envolve necessariamente a libertação dos territórios ocupados, exigência que tem sido apoiada por várias resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

A Armênia, por seu lado, apoia o direito à autodeterminação de Nagorno-Karabakh, defendendo a participação dos representantes do território separatista nas negociações para a resolução do conflito.

Ataques na fronteira¹

Mais cedo, Pashinyan acusou o Azerbaijão de bombardear alvos civis na região de Nagorno-Karabakh e publicou nas redes sociais que a Armênia derrubou 2 helicópteros, 3 veículos aéreos não-tripulados e que destruiu 3 tanques.

Em comunicado, o Ministério de Relações Exteriores armênio condenou a agressão, declarou que o país vai agir com "toda a sua capacidade para garantir a segurança da população de Artsakh" e que dará uma resposta militar e política apropriada.

Do outro lado, Hikmet Hajiyev, assistente do presidente azeri Ilham Heydar, responsabilizou os armênios pelos bombardeios na fronteira, classificando-os como um "ato de guerra", e disse que há relatos de mortos e feridos.

O Ministério da Defesa do Azerbaijão também se pronunciou e informou que um helicóptero foi, de fato, derrubado, mas que a tripulação sobreviveu, e que 12 veículos de defesa antiaérea da Armênia foram destruídos.

Repercussão internacional

Porta-voz do presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, Ibrahim Kalin foi às redes sociais para condenar o que ele classificou como um "ataque da Armênia ao Azerbaijão".

A França também se manifestou e pediu que os 2 países parem com as hostilidades e retomem imediatamente o diálogo. De acordo com Agnès von der Mühll, porta-voz do Ministério francês das Relações Exteriores, o país está "extremamente preocupado".

Conflito antigo

Armênia e Azerbaijão vivem tensões por disputas étnicas e territoriais desde o fim da União Soviética, em 1991. Eles lutam pelo controle de Nagorno-Karabakh, um enclave de maioria armênia no Azerbaijão.

Nagorno-Karabakh proclamou unilateralmente sua independência em 1991, com o apoio armênio, iniciando uma guerra com o Azerbaijão que matou cerca de 30 mil pessoas até um cessar-fogo em 1994.



¹com G1

 

 


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