COBERTURA ESPECIAL - Expansão Chinesa

06 de Abril, 2022 - 15:00 ( Brasília )

Declínio da Rússia significa ascensão da China, diz especialista que previu invasão da Crimeia


A invasão russa à Ucrânia continua avançando diante dos olhos perplexos do mundo. As tropas russas destruíram cidades inteiras, enquanto milhões de pessoas tentam escapar de um país devastado.

O dramático conflito bélico ameaça ser o evento mais transformador e perigoso na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

O que vai decidir esta guerra e como ela pode terminar? A invasão russa era realmente previsível? Putin pode recuar diante das sanções econômicas ocidentais? E quanta esperança devemos depositar nas negociações de paz?

Em entrevista à BBC News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC, o acadêmico britânico Taras Kuzio, especialista em política, economia e segurança ucraniana, tenta responder a estas e outras perguntas.

Em 2010, Kuzio previu a anexação russa da Crimeia, que ocorreu em 2014 e desencadeou uma das piores crises entre Moscou e o Ocidente desde a Guerra Fria.

E apenas algumas semanas antes da invasão da Ucrânia pela Rússia, ele publicou um livro chamado Russian Nationalism and the Russian-Ukrainian War ("Nacionalismo russo e a guerra russo-ucraniana", em tradução literal), em que explica em profundidade a crise entre os dois países e discute a suposta obsessão do presidente russo, Vladimir Putin, por Kiev.

Destruição na Ucrânia após invasão russa

BBC News Mundo - Quão surpreendente foi a invasão russa da Ucrânia para você?

Taras Kuzio - Tenho sido muito crítico em relação a acadêmicos ocidentais e especialistas em Rússia porque eles têm minimizado e negado a existência do nacionalismo na Rússia de Putin. E isso não é verdade. Putin tem uma forte obsessão com a Ucrânia desde pelo menos meados dos anos 2000.

Quando se tornou presidente em 2012, o fez acreditando que entraria para a história como o agregador das terras russas, incluindo as da Ucrânia e Belarus. O nacionalismo na Rússia se reflete no nacionalismo czarista pré-soviético, que nega a existência de ucranianos.

Putin há muito tempo argumenta que o sul e o leste da Ucrânia foram erroneamente incluídos por Lênin na Ucrânia soviética, quando fazia parte da URSS. Na verdade, ele é bastante crítico em relação a Lênin por ter feito isso.

BBC News Mundo - Será, então, que este foi o principal motivo que levou Putin a invadir a Ucrânia?

Kuzio - A invasão é produto tanto da evolução de Putin como um nacionalista russo e negacionista dos ucranianos, quanto uma evolução em sua percepção do que está acontecendo na Ucrânia.

Para ele, e para o Kremlin, um nazista hoje é basicamente qualquer ucraniano que apoie uma orientação ocidental. Não é a extrema direita. É qualquer ucraniano.

BBC News Mundo - O que Putin quer dizer quando fala em desnazificar a Ucrânia?

Kuzio - Ele está falando de uma identidade que surgiu na Ucrânia nos últimos 30 anos que é pró-ocidente. E ele quer substituí-la por uma identidade russa liberal, semelhante à de Belarus, um país que é governado por um ditador pró-Rússia, que apoia o mesmo tipo de mito histórico que a Rússia de Putin e também é antiocidente.

Putin pensou que o povo da Ucrânia o acolheria porque, para ele, eles estavam reprimidos por estes nazistas que, por sua vez, são apoiados pelos americanos. Putin achava que chegaria para libertar estes pequenos russos dos colonialistas americanos e dos nazistas. É estranho, mas era isso que ele realmente acreditava.

BBC News Mundo - Isso foi, na sua opinião, um erro de Putin?

Kuzio - É um dos três erros de cálculo que ele cometeu. Acho que outro grande erro foi sobre o Ocidente. Ele acreditava que o Ocidente estava estagnado, que estava dividido. E calculou mal sua resposta. No Kremlin, eles acreditavam que as sanções que seriam impostas contra a Rússia seriam tão fracas quanto as de 2014 (quando anexou a Crimeia).

O terceiro erro de cálculo foi sua percepção equivocada sobre os ucranianos, que realmente não são "russos liberais". São ucranianos.

BBC News Mundo - Você acha que as sanções ocidentais vão levar Putin a retroceder?

Kuzio - Acho que vão ter um efeito tremendo na economia russa. O Kremlin ficou atônito com o amplo acordo de todos os países ocidentais e com a dureza das sanções. Nunca esperaram que a Alemanha, por exemplo, fizesse isso.

A grande sanção que destruiria a economia do governo russo seria a proibição total do petróleo e gás russos, o que países como a Alemanha já disseram que não podem fazer de imediato. Precisam de tempo para encontrar outros fornecedores.

Mas estas sanções não têm um impacto imediato. Demora alguns meses para realmente ver o resultado.

BBC News Mundo - E o que poderia acontecer?

Kuzio - A Rússia foi apartada da globalização. Isso significa que a Rússia, como grande potência, entrará em um declínio mais rápido, e também significará a ascensão da China como a alternativa dominante ao Ocidente.

A imagem internacional da Rússia, que é muito importante, foi seriamente danificada. Ninguém mais quer ter nada a ver com a Rússia. Ninguém quer trabalhar ou negociar com eles, 400 empresas ocidentais deixaram o país.

Isso permitirá que a China se erga como a potência antiocidente alternativa dominante.

Para especialista, declínio da Rússia significa ascensão da China

BBC News Mundo - Por falar na China, qual é o papel deste país na guerra?

Kuzio - A China está muito feliz. O declínio da Rússia significa sua ascensão. Eles compartilham uma posição contra o Ocidente, mas a diferença entre os dois países é que a China é uma potência em ascensão, e a Rússia é uma potência em declínio. E a diferença também é que a China tem um exército realmente forte. A Rússia não.

Pensava-se que a Rússia era uma grande potência militar. E agora as pessoas estão se perguntando por que não têm sido capazes de derrotar a Ucrânia.

Então, acho que, em última análise, esta guerra definirá a China como a nova potência antiocidente dominante, porque a Rússia terá se mostrado um país em declínio.

BBC News Mundo - Mas por que a China não impôs sanções contra a Rússia?

Kuzio - Não foi só a China. Israel e Turquia também não impuseram sanções. A China continuará a culpar os EUA e a OTAN por isso, porque a China sempre será anti-EUA e anti-OTAN.

Há três anos, era uma aliança conjunta da Rússia e da China contra o Ocidente. Agora, esta guerra confirma que a Rússia é um sócio minoritário da China.

Putin calculou mal tudo a este respeito. Acreditava que a China o ajudaria, e eu não acho que vá.

BBC News Mundo - Você acha que Putin está irritado com o desenrolar dos acontecimentos?

Kuzio - Claro, porque o plano original era que seria muito fácil. Em no máximo 2 dias, eles iriam ocupar a Ucrânia e iriam expulsar estes nazistas e seus patrocinadores americanos.

Putin nunca levou Zelensky a sério porque era comediante. Não era um político de verdade. Pensou que fugiria de Kiev, e poderiam implantar um (Alexander) Lukashenko ucraniano. Este era o plano e fracassou completamente.

BBC News Mundo - Quanta esperança devemos depositar nas negociações de paz?

Kuzio - Devemos ter sempre em mente que há mentirosos em Moscou. Não podemos acreditar em nada do que dizem. Eles têm mentido nos últimos oito anos que não há militares russos na Ucrânia.

Em segundo lugar, o Ocidente só pode concordar em suspender as sanções, se a Ucrânia aceitar um acordo de paz.

E uma das grandes exigências é que a Rússia retire suas tropas para a mesma posição que estavam antes da invasão. E isso, eu acho, vai ser um grande problema para Putin.

Acho que Zelensky vai tentar chegar a algum tipo de acordo de paz porque é melhor do que civis continuarem sendo mortos. Mas acho que ninguém mais é ingênuo em relação à Rússia. E isso é um fator.

BBC News Mundo - O que vai definir esta guerra?

Kuzio - O que definirá esta guerra é um divórcio completo da Rússia e da Ucrânia; 100% da Ucrânia vai odiar a Rússia pelos próximos 20, 30 ou 40 anos. Não haverá nenhum partido pró-Rússia, nenhuma religião pró-Rússia.

E isso também vai gerar desconfiança entre todos os vizinhos em relação à Rússia, porque o que Putin fez foi longe demais: destruir cidades e matar civis, com um quarto da população ucraniana desalojada. Isso deixou soldados e políticos ucranianos extremamente irritados.

É o tipo de divórcio sangrento que não aconteceu em 1991, quando a URSS se desintegrou. De certa forma, isso é o que deveria ter acontecido então.

'Putin nunca levou Zelensky a sério porque era comediante'

BBC News Mundo - Como você acha que a guerra entre a Rússia e a Ucrânia vai terminar?

Kuzio - Zelensky não é um nacionalista maluco. Ele sempre foi alguém disposto a fazer concessões. Os russos sempre exigiram a rendição da Ucrânia, não um acordo. Mas talvez agora, devido ao estado da guerra, a Rússia esteja mais disposta a deixar de exigir a rendição da Ucrânia para aceitar algum acordo.

Os acordos seriam algo como a neutralidade da Ucrânia ou a retirada da Rússia dos territórios que ocupou durante a invasão.

Mas a Rússia não tem muito tempo. As sanções vão colapsar sua economia cada vez mais com o passar dos meses, e isso mostrará que é um país em declínio.

O impacto da guerra, a destruição do equipamento militar e a morte de soldados também terão um grande impacto.

A posição de Putin fica cada vez menos estável com o passar do tempo. Até a invasão, eu acreditava que Putin seria presidente vitalício. Mas, agora, não acho mais... a posição dele não é tão segura porque há muito descontentamento. Para os nacionalistas, é uma vergonha o que aconteceu com seu exército.

 


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