COBERTURA ESPECIAL - Brasil - Alemanha - Geopolítica

01 de Setembro, 2020 - 14:00 ( Brasília )

Embaixador Heiko Thoms –“Acordo UE-Mercosul e Fundo Amazônia dependem do Brasil”

País precisa conseguir reverter perda de área florestada, defende novo embaixador alemão

Nota DefesaNet

Recomendamos ler o comentário DefesaNet no fim da página.

O Editor


Daniela Chiaretti e Fabio Murakawa
De São Paulo e de Brasília
Valor impresso 01 Setembro 2020  

 
Tanto o futuro do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul quanto a ressuscitação do Fundo Amazônia dependem de resultados concretos que o governo brasileiro consiga entregar em relação à alta do desmatamento da Amazônia e à contenção dos focos de queimadas. Essas questões escalaram a agenda europeia com líderes e parlamentares pressionados pela opinião pública.

Em ambos os casos, o governo alemão reafirma seu desejo de avançar. “Fizemos grandes esforços para chegar onde chegamos e conseguir um acordo político, que, na nossa visão, foi um grande sucesso”, diz Heiko Thoms, o novo embaixador da Alemanha, referindo-se ao acordo UE-Mercosul. “Por outro lado, isso não acontece no vácuo. As notícias do Brasil e de outros países da região não passam despercebidas na Europa.”

Thoms, que entregou suas credenciais ao presidente Jair Bolsonaro há dez dias, diz que notícias sobre o desmatamento na Amazônia são cotidianas na imprensa na Alemanha. “Isso influencia as posições de parlamentares de todo o espectro político alemão.”

O futuro do Fundo Amazônia, paralisado pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, há um ano e meio, segue rota similar. A estrutura de governança do fundo está em negociação com os países doadores, Noruega e Alemanha, que suspenderam repasses em 2019. Criado em 2008, o Fundo Amazônia premia os esforços de redução do desmatamento. Os doadores aguardam ações concretas, números efetivos e um plano de longo prazo para conter o desmatamento. “Temos que ver boa vontade e compromisso” segue o embaixador alemão.

Antes de assumir o posto no Brasil, Thoms serviu como representante permanente adjunto da Alemanha na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), em Bruxelas. Advogado, foi embaixador da Alemanha nas Nações Unidas e vice-presidente do conselho do UNICEF e UN Women. Ele reforça a aposta do governo alemão - e também do bloco europeu- na retomada verde da economia com forte foco na proteção climática.

Preservar e desenvolver é viável, acredita. “Mas é preciso encontrar respostas do século XXI, e isso recai sobre educação e digitalização”, diz. “Vejo claramente a preocupação da comunidade de negócios com questões ambientais.”

Em uma hora de entrevista ao Valor, Thoms só não quis comentar se enxerga a democracia ameaçada no Brasil. Disse, contudo, que o Brasil continua comprometido com o multilateralismo e elogiou a diplomacia do país.

Ele lembra que a relação entre Brasil e Alemanha é intensa tanto pela tradição nos negócios como pelos 200 anos de imigração alemã. “O Brasil, para mim, sempre foi uma terra de sonhos”, diz. O tio foi executivo da Volkswagen há 40 anos e contava ao sobrinho sobre a vida no Brasil. “Sempre quis viver aqui”, diz o embaixador.

A seguir trechos da entrevista:

Valor: A premiê Angela Merkel é uma cientista. O sr. acredita que este fato ajudou a Alemanha a lidar melhor com a pandemia?

Heiko Thoms: É verdade que a Alemanha passou melhor pela pandemia do que alguns dos nossos vizinhos e outros países no mundo. Mas acredito que seja resultado de um esforço conjunto. Também temos um sistema federativo. A tomada de decisões é um processo entre o nível estadual e federal.

Valor: Há alguns dias Steffen Seibert, porta-voz do governo alemão, disse que Angela Merkel tem “sérias dúvidas” sobre o acordo UE-Mercosul. Pode esclarecer quais?

Thoms: Esta não foi a única coisa que o porta-voz disse. Antes de tudo ele reafirmou o compromisso alemão com o texto e o espírito do Acordo EU-Mercosul. Fizemos grandes esforços para chegar onde chegamos e conseguir um acordo político foi um grande sucesso, na nossa visão. Por outro lado, contudo, isso não acontece no vácuo. É um processo e temos que levar em conta a realidade política na Europa e nos países do Mercosul. As notícias do Brasil e de outros países da região não passam despercebidas na Europa. É preciso ver que na Alemanha e em outros países da União Europeia que temas como mudança climática e desmatamento estão sendo monitorados muito de perto. Crianças na Europa falam em casa sobre a floresta tropical. Há notícias sobre fogo na floresta todos os dias na imprensa alemã. Isso influencia as posições de parlamentares de todo o espectro político na Alemanha.

 

Hoje em dia apenas negócios ambientalmente sustentáveis são sustentáveis também no sentido econômico”


Valor: Os empresários europeus são a favor do acordo mesmo com a pressão da opinião pública em relação às questões ambientais. Como isso afeta a posição do governo?

Thoms: Não tenho certeza de que essa premissa esteja correta - que os líderes empresariais queiram fechar o acordo mais do que outras partes da sociedade. Falei com vários empresários antes de vir ao Brasil e desde que cheguei, e sinto que há muita preocupação também do lado deles. Se você faz parte de uma empresa europeia, tem que levar em conta as visões de seus investidores e clientes. Isso é cada vez mais forte. Vejo claramente a preocupação da comunidade de negócios com questões ambientais. Acredito que seja uma visão equivocada pensar que se pode lucrar apenas às custas do ambiente. Hoje em dia apenas negócios ambientalmente sustentáveis são sustentáveis também no sentido econômico.

Valor: O Acordo UE-Mercosul está ameaçado pela questão ambiental e pela maneira que o governo brasileiro está lidando com este tópico aqui ou pela percepção que se tem sobre isso na Europa?

Thoms: As questões ambientais são um obstáculo para avançar e, como disse, estamos comprometidos em avançar com o acordo. Mas para tanto temos que ver progresso no lado ambiental e de sustentabilidade. Não é suficiente explicar que a percepção está errada. Temos que ver ação real, nos números, e não apenas no curto prazo.

Valor: O governo brasileiro costuma dizer que a pressão estrangeira sobre o desmatamento da Amazônia é também resultado do lobby de produtores europeus que não conseguem competir com produtos brasileiros. O que pensa sobre isso?

Thoms: Acho que [usar esta linha de pensamento] é deixar as coisas fáceis para si próprio. Nunca ouvi isso nas minhas conversas. É preciso ver em perspectiva. Se se olhar para o acordo de perto, é possível ver que, em muitas áreas em que isso [queda de tarifas] poderia ser um problema [para os europeus], há um prazo muito longo para que o acordo se torne efetivo.

Valor: Qual o andamento da negociação em torno ao Fundo Amazônia neste momento?

Thoms: O importante é que queremos que o fundo esteja funcionando. Sem entrar em detalhes nas negociações, posso dizer que temos interesse que sejam concluídas com êxito. Há grande interesse em reativar o fundo. Mas isso exigirá que o governo brasileiro venha com um plano de ação para implementar a estratégia de controle do desmatamento e também irá demandar que os números do desmatamento caiam por um longo período. Sei que os nossos parceiros noruegueses ainda estão a bordo. Eles contribuem com a maior parte, nós somos a parte menor nesta iniciativa, mas ainda estamos comprometidos com o instrumento. Acreditamos que pode ter um impacto positivo.

Valor: Irão aguardar o resultado deste ano do desmatamento?

Thoms: Não quero falar em linha do tempo ou números concretos. Temos que ver boa vontade e compromisso. Mas não estou tão negativo.

Valor: O vice-presidente Hamilton Mourão disse que espera usar parte dos recursos do Fundo Amazônia para fazer regularização fundiária. O que o sr. acha disso?

Thoms: Não tenho conhecimento sobre isso ainda.

Valor: Bolsonaro retirou a política de comando, controle e desenvolvimento da Amazônia do ministro do Meio Ambiente e transferiu a tarefa ao vice-presidente.

Que mensagem esta decisão passa a vocês?


Thoms: Não posso comentar sobre decisões internas do governo de se organizar. Mas temos confiança no vice-presidente.

Valor: O Brasil ainda é um bom lugar para investidores?

Thoms: Segundo o G-20, a economia brasileira é ainda uma das menos abertas do grupo. É por isso que pensamos que, à parte as questões ambientais, o acordo EU-Mercosul é uma boa ideia. Há boas oportunidades de superar barreiras tarifárias e não tarifárias que ainda existem para se fazer negócios entre a União Europeia e os países do Mercosul. A Alemanha tem enormes investimentos no Brasil, a oitava ou nona economia do mundo. Empresas alemãs empregam aqui mais de 20 mil pessoas. Mas há uma lacuna enorme se considerar o tamanho do país e onde estamos nas trocas comerciais entre Brasil e Alemanha e Brasil e União Europeia.

Valor: Em 2019, o Brasil importou US$ 10 bilhões da Alemanha e exportou US$ 5 bilhões. É possível reduzir este déficit do lado brasileiro, mesmo sem o acordo entre os dois blocos?

Thoms: Sou advogado e aqui seria melhor ouvir a opinião dos economistas. Mas acredito que, se comparar os dados per capita com outros países da América Latina, não há razão para que esses números não cresçam a uma taxa de dois dígitos ou até mesmo dobrem.

Valor: A pandemia pode mudar o tipo de investimento que a Alemanha faz no Brasil?

Thoms: A pandemia mudou quase tudo. Mas a história não terminou ainda, como se pode ver tanto na Europa como na América do Sul. É desafiador, mas há oportunidades aí também. Algumas das tendências de antes da pandemia foram catalisadas, como a retomada verde depois da crise. Esta é a nossa abordagem na Alemanha e estamos mais do que dispostos a trabalhar com o Brasil neste rumo.

No nosso pacote de estímulo temos forte ênfase na ação climática, em incentivos orientados para o futuro, na construção de infraestrutura sustentável, no setor de mobilidade. Na nossa estratégia de hidrogênio, vamos abrir perspectivas para a produção de aço, indústria química e de cimento, áreas críticas no consumo de energia e que podem ficar mais verdes. Quando sairmos da crise, queremos fazer mais do que fizemos antes, na Europa e na Alemanha.

 

“As notícias do Brasil e de outros países da região não passam despercebidas na Europa”


Valor: A Alemanha investirá € 9 bilhões para estimular o hidrogênio em sua matriz energética. Há oportunidades para o Brasil nesta nova estratégia?

Thoms: É cedo para dizer. Pessoalmente vejo enorme potencial para mais cooperação e há muito interesse de empresas alemãs. Na nossa visão, esta é a direção a tomar em muitos setores.

Valor: O debate no Brasil é sobre manter investimentos sociais depois da pandemia ou voltar a uma abordagem mais conservadora das contas públicas. Esta discussão também ocorre na Alemanha?

Thoms: Aprovamos um pacote enorme de estímulo de mais de € 1 trilhão como reação à crise e com um grande espectro de medidas - desde reduzir a alíquota de imposto sobre valor agregado até um forte foco na proteção do clima. É um programa substancial de medidas de recuperação e a Europa também tem um. De algum modo estamos em uma situação afortunada porque temos relativa boa ordem na nossa situação financeira.

Valor: O que não é a realidade de vários países europeus.

Thoms: Sim, por isso temos este grande programa da União Europeia também, para ajudar as regiões que estão sofrendo mais.

Valor: O governo alemão decidiu colocar dinheiro público apenas em carros elétricos e híbridos e não mais nos altamente poluentes. Há risco de países em desenvolvimento ficarem com os carros velhos movidos a combustíveis fósseis?

Thoms: Este é um debate em andamento e é uma preocupação de grupos ambientalistas europeus. É parte do problema. Algo que não está acontecendo agora, mas que devemos manter em mente.

Valor: Em dois meses haverá eleições nos EUA e se o democrata Joe Biden vencer será interessante ver como o país se entenderá com a China e a UE. Na Alemanha também haverá eleições em 2021. No outro cenário, os EUA sairão do Acordo de Paris. Como o sr. analisa esta movimentação geopolítica?

Thoms: É complicado para um diplomata comentar as eleições de outro país ou de seu próprio. Posso dizer que seria um erro pensar que tudo muda em um país depois de uma eleição. Na Alemanha há consenso entre os partidos políticos em relação a questões de sustentabilidade, proteção climática e ambiente. Não esperaria grandes mudanças nestas abordagens.

Valor: A aposta na economia verde é forte o suficiente? Como o Brasil deveria se posicionar para voltar a ser um ator importante?

Thoms: Não cabe a mim dizer aos brasileiros o que fazer. Tenho absoluta certeza de que a grande fonte de recursos do Brasil não está no chão ou na floresta, mas nos cérebros. Vocês têm uma população talentosa. O futuro do país não está em cortar a floresta. O futuro está nas tecnologias do século XXI e o Brasil tem potencial para ser um grande ator neste campo.

Valor: Antes da pandemia e do fogo na Amazônia, investidores diziam que esperavam ver reformas no Brasil. A pandemia mudou esta expectativa?

Thoms: É verdade que a pandemia mudou o discurso. Todos estão focados nela e vai continuar assim, acredito, por algum tempo. Também é verdade sobre as questões ambientais, infelizmente. Vou falar com a comunidade de negócios nas próximas semanas, então é cedo comentar o que é prioritário na agenda. Mas o que já escutei é uma real preocupação de investidores em relação ao ambiente.

Valor: Qual é a imagem do Brasil na Europa neste momento?

Thoms: Todos estão muito focados na pandemia. Há muitas notícias sobre os números da covid-19, e, como o Brasil é um país tão grande, às vezes o foco é nos números absolutos. Todos os dias há notícias sobre incêndios na floresta e isso vem formando o “mindset”. Alguns podem argumentar que é injusto, mas esta é a realidade política e é um tema importante.

Valor: Tendo trabalhado na ONU, acredita que a proteção climática global pode se fortalecer?

Thoms: Há tendências conflitantes quando se olha pela perspectiva das Nações Unidas. Existem alguns avanços, mas as conferências de clima não estão acontecendo e isso tira o foco da opinião pública. Mas não vamos nos enganar: isso vai voltar e com mais foco.

Valor: A UE tem o mais antigo e estruturado mercado de carbono do mundo. A Alemanha está colocando preço no carbono. O Brasil ainda não fez nada neste sentido, mas o setor privado está colocando pressão. O que o sr. acha?

Thoms: Pensamos, na Europa, que este é o caminho a seguir, para nós. Há diferentes modelos de como fazer isso, desde a taxação ao carbono ao comércio de licenças de emissão. Estamos debatendo dentro dos países e dentro da Europa porque há impactos diversos. É preciso pensar sobre o problema do carbono e é bom saber que este debate ocorre aqui também. Empresas alemãs estão engajadas em reduzir emissões no Brasil porque estão comprometidas com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, que levam muito a sério.

Valor: O sr. acha que a democracia está ameaçada no Brasil?

Thoms: Não quero comentar isso. Vejo, contudo, que a democracia está sob pressão no mundo. Tenho duas coisas a dizer. Temos feito uma série de eventos abertos com especialistas do Brasil e de outros países onde discutimos tópicos como democracia e a boa governança. O outro ponto é que o Brasil continua comprometido com o multilateralismo, acredito. Vi na ONU um grande trabalho de colegas brasileiros e muita cooperação em diferentes fóruns.

Valor: Alguns grupos entendem que a proteção climática é um tema ideológico. O que acha disso?

Thoms: Lembro do embaixador de uma ilha no Pacífico Sul. Quando eu estava em Nova York ele me disse que as pessoas ainda debatiam se mudança do clima ocorria ou não, e quando voltava para casa via a mudança climática em sua sala de estar, porque inundava.

Valor: A Alemanha poderia ter um papel mais ativo na liderança mundial?
Thoms: Provavelmente se está superestimando as possibilidades da Alemanha. Queremos ser parte da solução, não do problema e isso quer dizer trabalhar junto aos outros. Vejo a Alemanha atuando fortemente na busca de soluções multilaterais para problemas globais.

Valor: Até agora os países se desenvolveram cortando florestas. O Brasil tem o desafio de achar outro rumo: manter a floresta, desenvolver e lidar com a desigualdade. É viável desenvolver e preservar?

Thoms: Certamente. O Brasil tem enormes ativos, e o maior é uma população jovem com enorme talento que, se for desenvolvido, irá assegurar o papel do país no mundo por gerações. Mas é preciso encontrar respostas do século XXI e isso recai sobre educação e digitalização. As 25 milhões de pessoas na Amazônia têm que encontrar uma boa maneira de viver também. O Fundo Amazônia é um instrumento muito ativo em estimular soluções de renda e boas condições de vida na região.


 

Comentário DefesaNet

Veja o que publicamos em 2018.

"Santa Maria (RS) – Nos dias 29 e 30 de outubro de 2018, o Embaixador da República Federal da Alemanha no Brasil, Georg Witschel, esteve em visita oficial à Guarnição de Santa Maria, com vistas a conhecer a estrutura do Exército Brasileiro em relação às tropas blindadas, atendendo convite do Comandante do Exército, General-de-Exército Eduardo Dias da Costa Villas Bôas."


As ações e desprendimento do Embaixador Witschel foram fundamentais para aparar as arestas entre os Governos Brasil (Michel Temer) e Alemanha (Angela Merkel), para que o estaleiro alemão TKMS vencesse a concorrência do então Programa Corveta Tamandaré.

Que papel terá novo embaixador alemão? Um agente golpista, como quando Merkel, em tabelinha com a presidente do FMI, a francesa Christine Lagarde, derrubaram o primeiro-ministro Italiano Berlusconi, em 2011.


 



Embaixador Georg Witschel com membros da guarnição de Santa Maria.

Leia a matéria
BR-DE - Embaixador da Alemanha visita 3ª Divisão Exército Link


 


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