COBERTURA ESPECIAL - Base Industrial Defesa - Armas

12 de Junho, 2020 - 11:20 ( Brasília )

Salésio Nuhs (TAURUS): "importações generalizadas podem se constituir em avassaladora ameaça para a sobrevivência da BID e para a garantia da soberania do Brasil"

Salésio Nuhs, CEO da TAURUS, comenta as declarações do presidente Jair Bolsonaro no último dia 05JUN2020.


Leonardo Araujo
LRCA Defense Consulting
Matéria Gentilmente Cedida a DefesaNet
 

 Em virtude das declarações do Presidente Bolsonaro feitas na sexta-feira (05JUN2020), em discurso na cidade de Águas Lindas de Goiás, durante a inauguração de hospital de campanha, onde prometeu acabar, "em breve", com os impostos para a importação de armas de fogo de uso individual no Brasil, acrescentando que a medida "já está em estágio avançado em seu governo", a LRCA Defense Consulting entrevistou Salesio Nuhs, Presidente e CEO global da empresa Taurus Armas S.A..

LRCA:  Presidente, como a Taurus - uma das maiores e mais conceituadas empresas de armas leves do mundo - vê essas declarações do Presidente da República?

Nuhs
: Decisões em políticas públicas que favoreçam importações generalizadas, sem isonomia tributária e regulatória, sem a correspondente contrapartida de aquisições de produtos brasileiros por estes países ou que em encomendas tecnológicas não garantam transferência de tecnologias, podem se constituir em avassaladora ameaça para a sobrevivência da nossa Base Industrial de Defesa, com consequências negativas para a economia e para garantia da soberania do Brasil.

Coloca-se em risco a Base Industrial de Defesa e Segurança brasileira que gera 60 mil empregos diretos, 240 mil empregos indiretos e é responsável por 3,7% do PIB nacional, uma indústria geradora de empregos altamente qualificados, que gera altos valores em tributos e que promove o desenvolvimento tecnológico, pesquisa e inovação em nosso país.

De imediato, será mais um estímulo ao fechamento, no Brasil, das indústrias nacionais que já possuem fábricas no exterior, bastando aumentarem a produção em outros países e exportarem para o Brasil, com condições muito mais favoráveis do que se continuassem instaladas aqui. Assim, reduziremos a produção interna e aumentaremos progressivamente a dependência externa de produtos estratégicos de defesa, perdendo competitividade da Base Industrial de Defesa brasileira não só no mercado interno, mas também nas exportações. Ainda mais, neste momento, em que retomar a atividade econômica, preservar e gerar empregos é tão fundamental para nosso país.

LRCA: Para a Taurus, o que significa ter isonomia em relação às empresas estrangeiras que apenas exportam para o Brasil?

Nuhs :
Os importados são isentos de tributos quando comercializados paras os órgãos de segurança pública ou terão impostos reduzidos para caçadores, atiradores e colecionadores (CACs), contra uma pesada carga tributária do produto nacional, no qual incidem impostos (IPI, ICMS, PIS e COFINS) que representam até 70% do preço. Ou seja, se é para viabilizar melhores condições para aquisição, que seja tanto para os produtos nacionais quanto para os importados. É preciso isonomia para uma concorrência leal. Atualmente, a carga tributária para produtos fabricados no Brasil é proibitiva e desleal, e quem perde com isso é o Brasil, com perda de arrecadação e geração de empregos.

Além disso, os produtos importados não precisam ser homologados em território nacional e são comercializados com a não observância das mesmas regras exigidas das empresas brasileiras. Nos últimos anos a Taurus focou muito no desenvolvimento de novos produtos e novas tecnologias, isso gerou uma demanda maior. Hoje temos na fila cerca de 180 novos produtos. Pela média dos últimos anos, se nada acontecer, vai demorar aproximadamente 14 anos até que o último produto da fila de hoje seja avaliado. Essa situação precisa ser imediatamente resolvida, sob pena de perder tecnologia sob domínio nacional, o que nessa área de defesa é fundamental para qualquer país desenvolvido.

Acreditamos que o mais correto seria uma redução dos impostos e burocracia, de maneira isonômica, para os policiais e os CACs, já que estes profissionais são específicos e necessitam destes produtos para as atividades.

LRCA: Em 2019, durante uma audiência na Câmara dos Deputados, e depois, em diversos momentos, o senhor defendeu essa isonomia, pois a Taurus gera milhares de empregos diretos e indiretos, bem como milhões de dólares em divisas para o Brasil. Houve algum progresso?

Nuhs:
Infelizmente, até o momento não houve progresso. A questão da carga tributária no Brasil é um problema não só no nosso segmento. Entendo que só com a reforma tributária isso seria resolvido.

LRCA: Nos Estados Unidos, o governo da Geórgia ofereceu pesados incentivos para que a fábrica da Taurus fosse realocada para lá, o que possibilitou a recente duplicação da produção nesse país que é o maior mercado da empresa. Até o meio do ano, duas linhas de produção de pistolas serão transferidas para os EUA. Haveria possibilidade de expandir a fábrica da Geórgia ou construir mais unidades em outros estados americanos?

Nuhs:
A nova planta da Geórgia já foi concebida para acomodar nova expansão industrial, caso necessário. Mesmo assim, não excluímos quaisquer outras alternativas que podem ser levadas em conta para aumento de produção nos EUA.

LRCA: Os EUA vivem o maior boom de vendas de armas de sua história, motivado pela insegurança causada por três fatores: pandemia, eleições presidenciais e distúrbios civis. O senhor poderia adiantar qual o impacto desse boom nas vendas da Taurus para esse mercado?

Nuhs:
Por sermos uma empresa de capital aberto, não podemos revelar ainda os números que serão divulgados no balanço do primeiro trimestre, previsto para o final deste mês. Porém, é possível afirmar que detectamos uma procura maior nos Estados Unidos. O mercado está aquecido e a fábrica da Taurus na Geórgia, inaugurada no ano passado, está preparada para mais do que dobrar a capacidade de produção.

Em 2019, a Taurus produziu cerca de 1,2 milhão de armas de fogo, sendo 889 mil em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, e 310 mil na unidade americana, o que corresponde a mais de 5 mil unidades diariamente. Do 1,3 milhão de armas da Taurus vendidas no ano passado, 1,1 milhão foi para os Estados Unidos. A empresa tem obtido sucesso na sua estratégia de se firmar como marca que incorpora inovação, qualidade e confiabilidade, ao mesmo tempo que oferece ao consumidor uma opção com preço atrativo. Esse posicionamento tem permitido à Companhia ampliar sua participação no mercado norte-americano.

A Taurus também vem empreendendo esforços comerciais no sentido de ampliar sua atuação em outros mercados internacionais (além dos EUA) e vem obtendo sucesso, com destaque para a assinatura de uma joint venture na Índia e vendas realizadas em países da Ásia e África em 2019.

LRCA: Há comentários de que o sucesso da Taurus nos EUA, onde é maior vendedora de revólveres e a quarta marca mais vendida, aliado à visibilidade trazida pela joint venture na Índia, firmada em janeiro com o maior grupo siderúrgico indiano para produzir armas leves no país, estaria despertando o interesse de grandes empresas de armamento mundiais pela companhia que o senhor preside. O senhor poderia comentar esse assunto?

Nuhs: 
A celebração desse acordo na Índia é um passo importante na estratégia global da Taurus e coloca a empresa em uma posição de destaque no mercado mundial de armas. É um passo muito importante para o futuro da Taurus. Temos 80 anos no Brasil e uma fábrica nos Estados Unidos há 40 anos. Porém, pela primeira vez, estamos num programa de transferência de tecnologia na área de Defesa, de uma grande economia mundial, segundo maior comprador de armas do mundo, a Índia. Brasil e Índia, duas potências econômicas mundiais. Taurus e Jindal Group, dois grupos econômicos que são referência no mundo em suas áreas de atuação. É evidente que haverá o interesse por parte de outras grandes empresas do setor em outros países pela Taurus.

O mercado indiano é hoje o maior potencial no mundo para os nossos produtos.

LRCA: A Taurus se orgulha de ser uma empresa brasileira e de ser considerada como "empresa estratégica de defesa". No entanto, como companhia de capital aberto, tem que proteger também o interesse de seus acionistas. Assim, vem a pergunta: caso essa isonomia não ocorra, há a possibilidade de a Taurus deixar o País, transferindo sua produção para os EUA, onde já fabrica, ou para a Índia?

Nuhs:
Somos uma empresa brasileira, temos orgulho do nosso país e iremos continuar gerando empregos e arrecadando impostos. A Taurus continuará fabricando no Brasil, 5.000 armas por dia, e atendendo a demanda no mercado brasileiro com agilidade, qualidade e compromisso com a excelência. Essa política estratégica só mudará em último caso, se não conseguirmos mais superar essa discriminação tributaria e regulatória.

LRCA: Tem sido divulgado pela mídia que alguns governos estaduais vêm promovendo a compra de armas importadas sem a devida licitação prevista na Lei 8666/93. Como a Taurus está tratando a situação?

Nuhs:
A Taurus tem recebido com surpresa as notícias de compras diretas junto a fornecedores estrangeiros de armas, pois não estão presentes os requisitos legais para que as licitações não ocorram, a exemplo da inviabilidade de competição e da exclusividade do produto importado.
 
Desde 2018, a Taurus possui uma nova linha de pistolas, inclusive, com reconhecimento internacional de sua qualidade, gerando estranheza as recentes compras terem ocorrido com a exclusão da fabricante nacional, sem possibilidade de competição e sem a abertura de licitação, já que a Taurus produz produto similar para o uso policial.

A Taurus entende que as compras das instituições deveriam ter a mesma lisura de concorrências internacionais, onde o processo avalia todos os fabricantes que possuem interesse no fornecimento e a decisão é para quem tem qualidade e preço competitivo. É assim que a Taurus atua no mercado mundial e tem ganhado espaço a cada dia. Esse deveria ser o mesmo processo aqui no Brasil.

LRCA: Para os milhares de investidores e clientes brasileiros da Taurus, qual seria a mensagem da empresa neste momento?

Nuhs: 
A Taurus hoje tem um modelo de gestão agressivo e eficiente que tem garantido resultados consistentes e crescentes.

LRCA: Há algo mais que gostaria de colocar ou informar aos brasileiros, Presidente?

Nuhs:
Gostaria de ressaltar que temos orgulho de ser uma empresa brasileira, de empregar brasileiros, recolher impostos no nosso Brasil e ter uma participação global, em mais de 100 países, além de ser a quarta marca mais desejada no importante e competitivo mercado de armas americano
.



Outras coberturas especiais


Prosub

Prosub

Última atualização 20 OUT, 13:40

MAIS LIDAS

Base Industrial Defesa