O destino de parte da frota australiana evidencia como materiais incorporados à construção de aeronaves podem condicionar seu descarte décadas depois — e por que o encerramento do serviço precisa integrar o planejamento dos sistemas de armas.
Ricardo Fan – DefesaNet
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(RDN) Em novembro de 2011, a Austrália destinou ao aterro de Swanbank, próximo a Ipswich, em Queensland, 23 estruturas de aeronaves F-111. O enterramento, após a retirada de equipamentos e a desmontagem de componentes, respondeu à presença disseminada de amianto nos painéis colados, que tornava inadequada a recuperação convencional de metais. A imagem de fuselagens militares cobertas por terra sintetizou um problema menos visível nos programas de defesa: o custo e a complexidade de encerrar a vida de um equipamento. www.qldairmuseum.au
O episódio reúne três dimensões de uma mesma decisão pública: segurança no descarte, gestão dos recursos e preservação da memória. Avaliá-lo exige distinguir o encerramento da atividade operacional da destinação das estruturas remanescentes.
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O fim de uma capacidade de ataque de longo alcance
A Força Aérea Real Australiana encerrou as operações do F-111 em 3 de dezembro de 2010, após 37 anos como principal componente de sua capacidade de ataque de longo alcance. A cerimônia de despedida incluiu o sobrevoo de uma formação de seis aeronaves sobre Brisbane e a Gold Coast, seguido de uma apresentação aérea sobre a base de Amberley. www.airforce.gov.au
Essa trajetória ajuda a compreender a repercussão do posterior descarte. Além de suas capacidades operacionais, o F-111 representava décadas de experiência acumulada por tripulações, equipes de manutenção e organizações de apoio. Sua retirada marcou o encerramento de um ciclo tecnológico e operacional na aviação militar australiana.
Fabricados nos Estados Unidos, os exemplares descartados pertenciam à Austrália e haviam sido operados por sua força aérea. Sua identificação como F-111 australianos distingue a origem industrial da vinculação operacional.
É necessário, ainda, diferenciar a retirada de serviço da destinação final das aeronaves. A presença de amianto¹ foi determinante para a escolha do método de descarte de parte da frota, mas não deve ser apresentada como explicação isolada para sua aposentadoria. A decisão de encerrar a operação de um sistema de armas envolve uma avaliação mais ampla de sua sustentação, dos requisitos militares e das capacidades disponíveis para substituí-lo.

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O problema estava incorporado à estrutura
A auditoria do Australian National Audit Office (ANAO), publicada em 2015, documentou que testes realizados em 2010 identificaram amianto branco¹, do tipo crisotila, em adesivos utilizados na estrutura e nos painéis colados do F-111. O material aparecia em componentes removíveis e fixos. A avaliação técnica indicou que a preservação prática da aeronave exigia manter amianto em seu interior. Australian National Audit Office (ANAO)
O desafio, portanto, ultrapassava a substituição de peças isoladas. Desmontar estruturas coladas envolve intervenções sobre os próprios materiais que se pretende controlar. Como interpretação de engenharia, o caso demonstra que a facilidade de reciclar um equipamento depende também de como seus componentes foram unidos e de quais substâncias integram sua construção.
A distinção entre conservar e desmontar é central. Um objeto mantido sob condições controladas pode exigir medidas diferentes das necessárias para cortar, fragmentar e processar seus componentes. A existência de exemplares preservados não elimina automaticamente as dificuldades de descarte dos demais.

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Desmilitarização e destinação final
O Queensland Air Museum descreve uma operação de preparação que incluiu a retirada de equipamentos classificados e reutilizáveis, motores, asas e superfícies de cauda dos aviões destinados à destruição. As fuselagens foram transportadas para Swanbank a partir de 21 de novembro de 2011. Componentes também foram colocados no local, posteriormente coberto com solo. www.qldairmuseum.au
Esse registro impede interpretar as imagens como o enterramento de uma força de combate pronta para emprego. Tratava-se de estruturas submetidas a um processo de retirada de serviço e descarte.
Desmilitarizar, entretanto, não resolve toda a destinação de um bem. A retirada de elementos sensíveis atende a uma necessidade de segurança; a gestão dos materiais remanescentes responde a outro problema. O planejamento precisa articular ambos, com responsabilidades definidas e documentação suficiente para acompanhar o destino dos componentes.

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Segurança e patrimônio
O argumento favorável à destruição encontrava fundamento na dificuldade técnica de remover o amianto. O ANAO registrou a preferência da Defesa por destruir a maior parte dos aviões e preservar poucos exemplares em seus próprios museus. Decisões ministeriais ampliaram a preservação fora desse circuito, com acompanhamento de riscos pela instituição. Australian National Audit Office (ANAO)
O contraponto está na possibilidade de conservar uma parcela representativa da frota. O mesmo relatório descreve exigências para exposição, incluindo instalações completamente fechadas, restrições de acesso e auditorias. A preservação, assim, dependia de uma estrutura de gestão continuada. Australian National Audit Office (ANAO)
A questão não se encerra na escolha entre destruir e conservar. O julgamento público precisa considerar quantos exemplares podem ser mantidos, onde serão expostos, quem financiará sua conservação e qual instituição responderá pelos controles ao longo do tempo.
Preservar todas as estruturas e preservar nenhuma são decisões com consequências distintas. A seleção de exemplares permite conservar referências materiais de uma capacidade militar sem transformar cada unidade retirada em uma obrigação museológica permanente. A qualidade dessa solução depende da transparência dos critérios e da continuidade dos recursos.

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O ciclo de vida como questão estratégica
A lição para os programas de defesa é que a destinação final precisa entrar no cálculo desde a aquisição. Comparar plataformas apenas pelo preço de compra e pelos custos operacionais deixa incompleta a avaliação econômica. Desmilitarização, transporte, tratamento de resíduos e conservação de exemplares também consomem recursos.
Como implicação de planejamento, os contratos podem exigir documentação sobre materiais perigosos, procedimentos de desmontagem e responsabilidades pela destinação. Esses requisitos precisam acompanhar modificações e reparos, pois a configuração entregue pelo fabricante pode mudar durante décadas de serviço.
Para o Brasil, o caso oferece uma referência aplicável à gestão de aeronaves, navios e viaturas: antes de transferir um equipamento a um museu ou destiná-lo à reciclagem, é necessário conhecer sua composição e as condições de conservação. A aparência externa preservada informa pouco sobre a complexidade dos materiais internos.

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Planejar a retirada antes que ela se torne urgente
A projeção mais relevante é de gestão: quanto mais informações sobre composição e desmontagem forem mantidas durante a operação, melhores serão as condições para decidir o destino do equipamento. A ausência desses registros tende a transferir incertezas para a etapa em que o bem já perdeu sua função operacional.
Isso também exige tratar a preservação histórica como programa, com seleção prévia de exemplares e avaliação das instituições receptoras. A entrega de uma aeronave a um museu deve vir acompanhada das condições necessárias para conservá-la e expô-la ao longo do tempo.
O enterramento dos F-111 mostra que a retirada de serviço não encerra as responsabilidades de uma força armada. A capacidade militar deixa estruturas, materiais e memória. Administrar esse legado faz parte do planejamento de defesa e da prestação de contas sobre os recursos empregados.
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Notas:

¹ — No Brasil, o descarte do ex-porta-aviões São Paulo também envolveu a presença de amianto, empregado em placas de isolamento térmico, além de outros materiais perigosos. Após o cancelamento da autorização para reciclagem na Turquia e o retorno do casco ao país, a Defesa optou pelo afundamento controlado, alegando deterioração da flutuabilidade e risco de naufrágio não controlado. O Ibama defendia a reciclagem em instalação especializada e alertava para os impactos ambientais do afundamento. O episódio evidencia a necessidade de incorporar a destinação final ao planejamento do ciclo de vida dos meios militares.
O principal problema do amianto é a liberação de fibras microscópicas que podem ser inaladas. Essas fibras podem causar doenças graves, como câncer de pulmão, mesotelioma e asbestose, uma forma de cicatrização dos pulmões. Todas as variedades de amianto são cancerígenas, inclusive o amianto branco encontrado nos F-111 (who.int). Quando o material permanece íntegro e sem intervenções, o risco de exposição é baixo. Cortar, triturar, lixar ou desmontar componentes que contêm amianto pode liberar fibras no ar, colocando principalmente os trabalhadores em risco.
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Nota técnica — A chama do F-111: o “dump and burn”

A extensa chama observada atrás de alguns F-111 em apresentações aéreas resulta da manobra conhecida como dump and burn: a liberação intencional de combustível pelo sistema de alijamento, seguida de sua ignição pelos pós-combustores. No F-111, a saída de combustível está localizada entre os dois motores, configuração que permite produzir esse efeito visual. A demonstração tornou-se uma marca dos aviões australianos em eventos públicos. www.codeonemagazine.net
É necessário distinguir as funções dos sistemas envolvidos. O alijamento permite descartar combustível para reduzir o peso da aeronave quando as condições operacionais exigem. Os pós-combustores aumentam o empuxo ao injetar e queimar combustível no fluxo de gases dos motores. Já a longa chama externa do dump and burn tem finalidade demonstrativa: sua queima ocorre atrás da aeronave, sem proporcionar aumento útil de empuxo.
A manobra integrou inclusive a despedida oficial do F-111 da Força Aérea Real Australiana, em 3 de dezembro de 2010, tornando-se um dos símbolos visuais do encerramento de sua carreira operacional. www.airforce.gov.au
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Nota histórica — Do F-111B ao F-14 Tomcat

A versão naval F-111B, desenvolvida pela General Dynamics com participação da Grumman, buscava atender à defesa aérea dos grupos de porta-aviões dos Estados Unidos. O peso excessivo e as dificuldades para cumprir os requisitos da aviação embarcada comprometeram o programa, cujo cancelamento abriu caminho para o F-14 Tomcat. A Grumman desenvolveu uma nova aeronave, combinando interceptação de longo alcance e capacidade de combate aéreo manobrado. www.history.navy.mil
O principal legado tecnológico do F-111B foi o conjunto formado pelo radar Hughes AN/AWG-9 e pelos mísseis AIM-54 Phoenix, posteriormente integrado ao Tomcat. Assim, o F-14 representou uma nova solução para a necessidade operacional que o F-111B não conseguiu atender, aproveitando investimentos já realizados em seu sistema de armas. www.navair.navy.mil
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