A decisão do Canadá de reavaliar a aquisição de 72 caças Gripen E/F, da Saab, como alternativa parcial ou complementar aos F-35A Lightning II já contratados, sinaliza uma inflexão relevante na política de defesa do país.
Mais do que uma simples disputa entre plataformas aéreas, o debate reflete tensões entre capacidade militar, soberania industrial, custos de ciclo de vida e alinhamento geopolítico, especialmente no contexto das relações com os Estados Unidos e das demandas crescentes de defesa do Ártico.
A iniciativa, revelada após a contratação inicial de 16 F-35A (de um total previsto de 88), indica que Ottawa passou a considerar seriamente opções que preservem flexibilidade estratégica, mesmo após anos de um processo de seleção considerado encerrado.
O Programa F-35 no Canadá: decisão técnica, controvérsia política
O Canadá é parceiro industrial do programa F-35 Joint Strike Fighter desde os anos 1990, tendo garantido acesso à cadeia global de fornecedores e contratos para empresas nacionais.
Em 2022, o governo canadense confirmou oficialmente a compra de 88 F-35A, com entregas previstas a partir de 2026, visando substituir a frota de CF-18 Hornet da Real Força Aérea Canadense.
Do ponto de vista estritamente operacional, o F-35A oferece vantagens claras:
- Tecnologia stealth de quinta geração
- Fusão avançada de sensores
- Elevada interoperabilidade com forças da OTAN e dos EUA
- Capacidade superior em ambientes de alta ameaça
Contudo, o programa também carrega custos elevados de aquisição, manutenção e dependência logística, fortemente centralizada nos Estados Unidos. Em um cenário de restrições orçamentárias e crescente sensibilidade política quanto à soberania decisória, essas características tornaram-se pontos de questionamento interno.
A proposta Sueca: Gripen, GlobalEye e Soberania Industrial
A Saab reapresentou ao Canadá uma proposta ampliada:
- 72 caças Gripen E/F
- 6 aeronaves de alerta antecipado GlobalEye
- Transferência de tecnologia
- Produção, manutenção e suporte industrial no Canadá
O ponto central da oferta sueca não é apenas o avião, mas o modelo de parceria. O Gripen foi concebido desde sua origem como um caça de baixo custo operacional, alta disponibilidade e fácil manutenção — inclusive a partir de bases dispersas, estradas e regiões remotas, um fator particularmente relevante para o teatro ártico canadense.
Além disso, a Saab enfatiza que a adoção do Gripen permitiria ao Canadá:
- Maior controle sobre códigos-fonte e atualizações
- Autonomia logística em tempos de crise
- Geração significativa de empregos de alta tecnologia
- Fortalecimento da indústria aeronáutica nacional
Esses elementos encontram eco em setores políticos que defendem redução da dependência estrutural dos EUA em sistemas críticos de defesa.
Gripen vs F-35: capacidade militar ou sustentabilidade estratégica?
A comparação entre Gripen E e F-35A Lightning II não é simétrica.
O F-35 é um caça projetado para guerra de alta intensidade contra adversários tecnologicamente equivalentes, integrando-se a um ecossistema de sensores, satélites e plataformas aliadas. Já o Gripen E prioriza:
- Defesa aérea nacional
- Patrulha de soberania
- Interceptação
- Flexibilidade operacional
- Custos previsíveis ao longo de décadas
Para o Canadá, cuja principal missão aérea é a defesa do espaço aéreo continental em coordenação com o NORAD, surge uma questão central: é necessário empregar exclusivamente uma frota de quinta geração para todas as missões?
Uma solução híbrida — F-35 para missões expedicionárias e de alta ameaça, Gripen para defesa aérea e policiamento do espaço soberano — passa a ser discutida nos bastidores estratégicos, apesar dos desafios logísticos de uma frota mista.
Implicações geopolíticas: Washington, OTAN e o Ártico
A reavaliação canadense ocorre em um momento de sensibilidade política nas relações com os Estados Unidos. O F-35 é mais do que um sistema de armas: é um instrumento de integração estratégica norte-americana, e qualquer redução de escala tende a gerar pressão diplomática.
Por outro lado, o Canadá enfrenta um ambiente de segurança em transformação:
- Crescente militarização do Ártico
- Atividade aérea russa intensificada
- Necessidade de vigilância persistente em grandes distâncias
- Demandas internas por previsibilidade orçamentária
Nesse contexto, a combinação de Gripen + GlobalEye apresenta-se como uma solução orientada à defesa territorial, mais do que à projeção de poder global.

Uma decisão além da aeronave
O debate canadense entre Gripen e F-35 não é técnico apenas — é estratégico, industrial e político. O F-35 permanece como o vetor de maior capacidade militar disponível ao país, mas o Gripen oferece algo que Ottawa passou a valorizar com mais intensidade: controle, previsibilidade e soberania operacional.
A decisão final, seja pela manutenção integral do F-35, pela adoção de uma frota mista ou por uma revisão mais profunda do programa, terá efeitos duradouros:
- Na relação Canadá–EUA
- Na estrutura do NORAD
- Na indústria de defesa canadense
- Na postura estratégica do país no Ártico
Mais do que escolher um caça, o Canadá está, na prática, redefinindo o equilíbrio entre dependência estratégica e autonomia nacional no século XXI.



















