Argélia e o Su-57E: implicações estratégicas da possível primeira exportação do caça russo de quinta geração

Relatos recentes indicam que a Argélia pode ter recebido as primeiras unidades do Su-57E, versão de exportação do caça furtivo russo Sukhoi Su-57. Embora Moscou não tenha oficialmente identificado o cliente, a confirmação de entrega a um comprador estrangeiro e evidências visuais associadas ao teatro norte-africano reforçam a avaliação de que Argel seja o destinatário.

Se confirmada de forma definitiva, trata-se de um movimento estratégico com repercussões diretas no equilíbrio militar do Norte da África, no Mediterrâneo Ocidental e na própria posição industrial da Rússia no mercado global de defesa.

O que representa o Su-57E

O Su-57 foi concebido como o principal vetor de superioridade aérea da Rússia na era pós-Su-27/35. Seus atributos centrais incluem:

  • Arquitetura stealth com redução de assinatura radar (ainda debatida em termos comparativos com o F-35);
  • Supercruise e alta manobrabilidade (vetoração de empuxo);
  • Radar AESA e suíte de guerra eletrônica integrada;
  • Compartimentos internos de armamento.

A variante “E” (export) tende a apresentar ajustes sensíveis — particularmente em sistemas classificados — mas mantém o núcleo tecnológico da plataforma.

Para a Rússia, essa exportação é altamente simbólica: seria a primeira venda internacional de um caça russo de quinta geração, um feito que Moscou buscava há anos.

A Argélia como cliente estratégico

A Força Aérea da Argélia já opera um inventário predominantemente russo, incluindo Su-30MKA e MiG-29 modernizados. Historicamente, Argel é um dos maiores clientes de Moscou no continente africano.

Implicações regionais:

  1. Supremacia aérea qualitativa no Magrebe
    O Marrocos opera F-16 modernizados e busca integração com sistemas ocidentais avançados. A introdução do Su-57 eleva o patamar tecnológico argelino, criando assimetria qualitativa.
  2. Projeção de poder no Mediterrâneo
    A Argélia passa a dispor de um vetor com maior alcance, consciência situacional ampliada e potencial de penetração em ambientes contestados.
  3. Autonomia estratégica
    A aquisição reforça a tradicional postura argelina de não alinhamento pleno ao Ocidente, mantendo forte cooperação com Moscou.

Implicações para a Rússia

Para a Rússia, o movimento é relevante em três níveis:

1. Industrial e comercial

A exportação valida o programa perante clientes potenciais. Após anos de produção limitada e questionamentos sobre maturidade tecnológica, a venda externa sinaliza confiança operacional.

2. Geopolítico

Em meio ao isolamento ocidental e sanções, a Rússia demonstra que ainda mantém:

  • Capacidade de exportação militar sofisticada;
  • Redes estratégicas no Norte da África;
  • Influência em regiões-chave próximas à OTAN.

3. Narrativa estratégica

O Su-57E em operação estrangeira sustenta o discurso de Moscou como potência militar tecnologicamente competitiva frente ao F-35 e outras plataformas ocidentais.

Reação dos Estados Unidos e do Ocidente

Os Estados Unidos, historicamente atentos à expansão de sistemas russos de alta tecnologia, podem considerar medidas sob o escopo do CAATSA¹ (sanções a compradores de material militar russo).

A aquisição pela Argélia:

  • Amplia a presença de sistemas russos avançados no entorno do flanco sul da OTAN;
  • Complica o ambiente estratégico no Mediterrâneo Ocidental;
  • Reduz o espaço de influência militar ocidental no Magrebe.

Impacto no equilíbrio norte-africano

O Magrebe é caracterizado por rivalidade estrutural entre Argélia e Marrocos. A introdução de um caça de quinta geração:

  • Eleva o nível de dissuasão convencional;
  • Pode acelerar corrida tecnológica regional;
  • Força Rabat a aprofundar vínculos com fornecedores ocidentais.

Contudo, o impacto real dependerá de:

  • Quantidade de unidades entregues;
  • Grau de integração com sistemas C4ISR;
  • Nível de treinamento e prontidão operacional.

Avaliação estratégica

Se confirmada plenamente, a aquisição do Su-57E pela Argélia representa:

  • Para Argel: salto qualitativo em poder aéreo e reforço de autonomia estratégica;
  • Para Moscou: validação internacional de seu caça de quinta geração e manutenção de influência no Norte da África;
  • Para o equilíbrio regional: aumento da complexidade estratégica e potencial intensificação da competição armamentista.

Não se trata apenas da venda de aeronaves — mas de um movimento inserido em uma disputa mais ampla por influência tecnológica, militar e política no eixo Mediterrâneo–África–Eurásia.

¹CAATSA (Countering America’s Adversaries Through Sanctions Act) — Lei dos Estados Unidos aprovada em 2017 que autoriza a aplicação de sanções contra países, empresas ou indivíduos que realizem “transações significativas” com os setores de defesa e inteligência da Rússia, além de Irã e Coreia do Norte. No campo militar, pode afetar nações que adquiram equipamentos estratégicos russos, restringindo acesso ao sistema financeiro e a tecnologias americanas.

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