AMX – A lacuna perigosa: a urgente substituição e o equívoco de tratar o Gripen como solução

Imagem gerada por IA representa um AMX A-1 lançando uma Bomba Guiada por Laser (GBU) desde um Designador de Alvos Litening

Fiel Observador
Fevereiro 2026

Nota DefesaNet

Abaixo nesta página há vários links para matérias com vários testes recentes de armas no F-39E Gripen pela FAB.
Também uma Thread publicada com intuito de mostrar composição de armamentos.

O Editor

A Força Aérea Brasileira vive um momento de transição delicado. A retirada do AMX — designado na FAB como A-1M— encerra um capítulo fundamental da aviação de combate nacional, mas também abre uma lacuna operacional que ainda não foi devidamente preenchida.

O problema não é apenas substituir uma aeronave. É substituir uma capacidade.

O legado do AMX para a FAB e para a indústria nacional

O AMX foi resultado de um projeto binacional entre Brasil e Itália, envolvendo as empresas italianas: Aeritalia, Aermacchi e Alenia. Hoje estas empresas integram a Leonardo S.p.A. A brasileira Embraer completava o consórcio. Para o Brasil, o programa representou muito mais do que a aquisição de um vetor de ataque leve.

Ele foi:

  • Plataforma de consolidação tecnológica;
  • Escola de engenharia aeronáutica de combate;
  • Base para o amadurecimento da cadeia industrial nacional, e,
  • Laboratório real de integração de armamentos e sistemas.

A análise do impacto do Programa AMX na indústria nacional é sempre focada no resultado da aeronave militar. O resultado foi profundamente afetado pela queda do Muro de Berlin. No Salão de Le Bourget, junho de 1989, foi lançado pelo consórcio AMX International o primeiro tour internacional para potenciais clientes. No fim daquele ano o Muro de Berlin caia e o império Soviético começa a se desintegrar. O mercado internacional militar encolhe e ao mesmo tempo a Embraer e o Brasil sofrem grave crise econômica.

Assim o AMX no Brasil sofreu com estes impactos. Um dos maiores ganhos foi na área civil com a os sistemas de controle de voo introduzidos nos ERJ-145 e especialmente nos EMB-170-190.


NA FAB

Na FAB, o A-1 foi a espinha dorsal da aviação de ataque por décadas. Atuou em missões de interdição, apoio aéreo aproximado, reconhecimento armado e ataque de precisão. Sua modernização para o padrão A-1M trouxe radar multimodo, novos aviônicos e capacidade de emprego de armamentos guiados, elevando significativamente sua relevância operacional.

A retirada do AMX não elimina apenas uma aeronave antiga — elimina uma função específica: ataque dedicado e custo operacional intermediário.

Gripen: caça multirole (multimissão) não é substituto de ataque dedicado

O SAAB JAS 39 Gripen E é, sem dúvida, um caça moderno, tecnologicamente avançado e essencial para a renovação da defesa aérea brasileira. Porém tratá-lo como substituto natural do AMX pode ser um erro conceitual e estratégico.

Há três fatores centrais:

1. Custo por hora de voo e racionalidade de emprego

Empregar um caça de superioridade aérea de última geração para missões de apoio aproximado ou interdição tática de baixa ameaça é financeiramente ineficiente. O Gripen foi concebido para:

  • Defesa aérea;
  • Superioridade aérea, e,
  • Ataque de precisão em ambientes contestados.

Ele pode cumprir missões de ataque tático? Sim.

Mas isso não significa que seja o vetor economicamente ideal para substituir uma plataforma de ataque leve.

2. Cadência de entrega

A incorporação do Gripen ocorre em ritmo gradual, condicionado a cronogramas industriais complexos e limitações orçamentárias. A frota prevista não é numericamente suficiente para absorver, sem impacto, todas as missões antes atribuídas ao AMX.

Criar uma sobrecarga operacional em uma frota ainda em consolidação é um risco estratégico.

3. Estrutura de força equilibrada

Forças aéreas modernas operam com camadas de capacidade:

  • Caças de superioridade;
  • Vetores multirole;
  • Plataformas dedicadas de ataque leve ou intermediário, e,
  • Aeronaves de treinamento avançado com capacidade de combate.

Eliminar uma dessas camadas compromete a elasticidade operacional.

Na foto um teste de Gripen C da Força Aérea da Hungria armado com duas Bombas Guiadas por Laser GBU-12, dois mísseis AGM-65G-2 Mavericks e o designador de alvo laser Litening III. Foto web Força Aérea Hungria

O vácuo operacional

A desativação do AMX criou uma lacuna entre o turboélice de ataque leve e o caça supersônico de ponta. Essa lacuna impacta:

  • Treinamento de transição operacional;
  • Doutrina de ataque;
  • Disponibilidade para missões de baixa e média intensidade, e,
  • Capacidade de resposta prolongada em cenários assimétricos.

Num país com dimensões continentais e desafios na Amazônia, fronteiras extensas e áreas marítimas estratégicas, a ausência de um vetor dedicado de ataque intermediário não é trivial.

A importância industrial da reposição

A história do AMX mostra que programas bem estruturados geram externalidades positivas para a indústria nacional. O aprendizado adquirido pela Embraer no projeto contribuiu para o salto tecnológico que consolidou o Brasil como ator relevante no setor aeroespacial mundial e colocou a Embraer ao lado da Boeing e Airbus no mercado internacional de jatos civis.

A substituição do AMX pode — e deveria — ser vista como oportunidade estratégica:

  • Desenvolvimento ou coprodução de novo vetor;
  • Integração de armamentos nacionais;
  • Ampliação de competências industriais, e,
  • Fortalecimento da Base Industrial de Defesa.

Aeronave AMX A-1 com Bomba Guiada a Laser, bomba série Mk-80 e Pod Designador de Alvo Laser Litening Foto CECOMSAER

O que está em jogo?

Não se trata de questionar o Gripen. Ele é essencial e deve continuar sendo prioridade na defesa aérea brasileira.

A questão é outra: ele não foi concebido para ser o substituto natural das missões do AMX.

Persistir nessa lógica pode levar a redução da disponibilidade; aumento de custos operacionais; perda de especialização doutrinária e de capacidade operacional. Além disso, hoje todos os AMX da FAB, menos de cinco voando, estão sediados na Base Aérea de Santa Maria (BASM), um dos mais estratégicos aeródromos da FAB. A necessidade de substituição da frota de AMX garante que a base aérea não seja fechada após sua desativação, já que lá só restariam um esquadrão de ARPs e outros de helicópteros.

A FAB precisa urgentemente definir qual será o vetor que preencherá essa lacuna — seja por meio de uma solução de prateleira, seja por desenvolvimento próprio ou através de uma parceria estratégica.

O que não pode acontecer é permitir que a lacuna se consolide por inércia dos decisores, já que quando falamos em defesa, capacidade perdida raramente é recuperada com rapidez — e quase nunca sem custo elevado.

Imagem gerada por IA com o objetivo meramente de representar a função de ataque do AMX A-1

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