COBERTURA ESPECIAL - Africa - Terrestre

30 de Junho, 2022 - 10:05 ( Brasília )

Mais de dois anos da Equipe Móvel de Treinamento de Selva na República Democrática do Congo: um caso de sucesso


Ten Cel Flávio Luiz Lopes dos Prazeres


Em junho de 2022, a JWMTT1, Equipe Móvel de Treinamento de Selva, completou três anos de criação. Ela é composta por 132 guerreiros de selva das três Forças Armadas Brasileiras, que promovem treinamentos para tropas na República Democrática do Congo (RDC). Em um inédito desdobramento, essa equipe tem fornecido treinamento especializado tanto para as tropas das Nações Unidas, mais especificamente as da FIB (Force Intervention Brigade) - a Brigada de Intervenção, composta por tropas da África do Sul, do Malawi, da Tanzânia, do Nepal e da Indonésia -, quanto para as tropas do Exército Congolês. Esses treinamentos são realizados nos níveis brigada, batalhão, companhia, pelotão e grupo de combate.

Para cumprir a sua missão, a JWMTT utiliza as selvas ao redor de Mavivi Base3 e outras áreas externas conforme a necessidade e a amplitude dos treinamentos. Cabe destacar que, por serem áreas de incidência de grupos armados, essas selvas são um bom referencial de combate para as atividades realizadas.

Salienta-se que a Equipe Móvel de Selva acompanha as tropas da ONU em missões reais de treinamento em áreas “vermelhas”, como é o caso dos exercícios de reforço de base em que as forças rápidas deslocam-se para as bases militares no interior da selva para proporcionar um reforço de apoio de fogo e material em caso de ataques inimigos ou intercorrências diversas.

As tropas recebem o treinamento de selva na modalidade de “Training in Mission”, quando já estão desdobradas em sua área de operações. Nesse sentido, há a necessidade de uma constante atualização, por parte da equipe brasileira, sobre o que está ocorrendo no combate. A JWMTT recebe, diariamente, relatórios sobre os combates na área de operações e adequa essa realidade aos treinamentos fornecidos: um gratificante e valoroso desafio!

Cada módulo de treinamento realizado é sempre precedido de um planejamento combinado entre a equipe brasileira e a tropa a ser treinada. Normalmente, os comandantes de batalhão expressam as suas necessidades em operações na selva para o chefe da equipe. Na sequência, a JWMTT monta o programa de instrução que dura de duas a quatro semanas de acordo com as necessidades daquela fração.

Sob a orientação técnica do Centro de Instrução de Guerra na Selva, a equipe extrai os seus treinamentos do programa de disciplinas desse centro de excelência, obviamente, realizando as adequações necessárias às situações de combate vividas no Congo. A avaliação tem sido bastante positiva. Ela é medida pelo crescimento dos índices técnicos alcançados pelas tropas após o nosso treinamento, pela própria resposta da tropa em destacar que o treino in mission contribui para a manutenção dos padrões operativos ou também pela performance obtida em combate.

E, nessa questão, enfatizo os desempenhos mais recentes obtidos por tropas treinadas pela equipe brasileira no Congo. O primeiro refere-se às tropas da África do Sul que, após serem treinadas em defesa e reforço de base na selva pelos guerreiros de selva brasileiros, repeliram com extrema destreza e combatividade um pesado ataque do principal grupo armado da região, causando-lhes significativas baixas no mês de maio de 2021. Outro destaque pode ser dado ao desempenho do 3206º Regimento de Infantaria do Exército Congolês, que teve notável atuação contra os rebeldes em julho do ano passado, nas selvas de Bunia, nordeste da província de Ituri, logo após ter tido um treinamento de três intensas semanas em guerra na selva com a equipe brasileira.

Neste diapasão, após quase três anos desdobrada no terreno, a Equipe Móvel de Treinamento de Selva forneceu treinamento para 2.036 militares de mais de 20 nacionalidades de 5 diferentes continentes, contribuindo não somente para difundir as principais técnicas, táticas e procedimentos da guerra na selva, como também para a projeção das forças militares brasileiras em ambiente internacional.

Além disso, essa equipe de 13 militares tem consolidado uma vasta experiência e acumulado lições aprendidas importantes com respeito à atualidade da nova Guerra na Selva e dos combates correntes por compreender que hoje o combate real necessita dos meios modernos em todos os ambientes operacionais, especialmente na selva: seja na utilização de colete e capacete de muito boa qualidade para a atuação nesse ambiente, seja no uso de meios mais tecnológicos como sistemas de aeronaves remotamente pilotadas para identificar o inimigo sob cobertura vegetal, dentre outros diversos ensinamentos colhidos.

Essas são algumas das muitas lições que a equipe tem colhido durante esses mais de dois anos desdobrada no terreno. Esses ensinamentos são ainda mais significativos se considerarmos que, com o fim da MINUSTAH4 em 2017, o maior efetivo militar desdobrado pelo Brasil, no momento, é justamente essa equipe no Congo, uma experiência que deve ser muito valorizada, replicada e até mesmo ampliada.

Como conclusão, após esses intensos trabalhos na RDC, a JWMTT tem cumprido sua missão com excelência, tanto na sólida contribuição para o esforço da MONUSCO, quanto na projeção militar do Brasil. Logo, pode-se considerar um investimento bastante vantajoso para o Estado brasileiro desdobrar 13 militares, guerreiros de selva, em um ambiente de conflito, recebendo como retorno o respeito internacional, a experiência de combate para seus militares e o fortalecimento ainda mais evidente e irrefutável de seu compromisso com a paz mundial.



1 Acrônimo em inglês que significa Jungle Warfare Mobile Training Team – Equipe Móvel de Treinamento de Selva.

2 1 Capitão-Tenente da Marinha do Brasil; 6 Oficiais (2 TC, 2 Maj, 2 Cap) e 5 (2 1º Sgt e 3 2º Sgt) do Exército Brasileiro e 1 Capitão da Força Aérea Brasileira.

3 Base Logísitica e Operacional das Nações Unidas localizada no território de Beni, na RDC. Essa Base abriga, dentre outras instalações, um Aeródromo e o Quartel-General da Brigada de Intervenção.

4 Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti. O Brasil esteve na MINUSTAH de 2004 a 2017.

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Sobre o autor
TC INF FLÁVIO LUIZ LOPES DOS PRAZERES. INF AMAN/1999. POSSUI: O CURSO BÁSICO PÁRAQUEDISTA; CURSO DE MESTRE DE SALTO; CURSO DE OPERAÇÕES NA SELVA CAT “B”; CURSO DE COMANDO E ESTADO-MAIOR – ECEME 2016; CURSO DE ESTADO-MAIOR CONJUNTO – INSTITUTO UNIVERSITÁRIO MILITAR (IUM) EM 2019 (LISBOA – PORTUGAL); MESTRADO EM CIÊNCIAS MILITARES SEGURANÇA E DEFESA – IUM EM 2020. PRINCIPAIS FUNÇÕES: INSTRUTOR DO CIGS (2010/2011), INSTRUTOR E ASSESSOR DA ESCOLA DE LANCEROS DA COLOMBIA (2012); COMANDANTE DA 2ª CIA GD 2013/2014; CHEFE DA EQUIPE MÓVEL DE TREINAMENTO DE SELVA DA MONUSCO (2021); CMT NOMEADO DO 26º BIPqdt 2022/2023.


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