FAB: o sonho de voar está deixando a Força Aérea

A FAB está frente a um desafio que tem várias frentes

Nelson During
Editor-Chefe — DefesaNet

Quem ingressa na Força Aérea Brasileira (FAB) e conquista o brevê de piloto realiza um sonho que, para muitos, nasceu ainda na infância. Tornar-se piloto militar, vestir a farda azul e servir à Pátria é uma escolha de vida, a concretização de uma vocação. O problema é que, para um número cada vez maior desses profissionais, o sonho termina pouco depois da formatura.

Mais de 72 pilotos teriam deixado a Força Aérea no último ano. Em 2026, o número já supera 40. Enquanto isso, a FAB forma aproximadamente 12 pilotos de caça por ano e dispõe de pouco mais de uma centena para operar sua aviação de combate. Para um país com dimensões continentais, é uma situação que deveria provocar uma reação imediata.

Mas a crise não está apenas nos números de pilotos. A Força Aérea Brasileira atravessa um dos momentos mais delicados de sua história.

  • A aviação de caça perdeu massa e disponibilidade.
  • A aviação de patrulha encontra-se fragilizada.
  • A capacidade de transporte tático e regional enfrenta limitações de operacionalidade.
  • Faltam helicópteros.
  • Bases tradicionais, como Santa Maria e Santa Cruz, passaram a conviver com incertezas sobre seu futuro.
  • E, talvez mais grave que tudo isso, existe uma crise de motivação.

O piloto militar não ingressa na FAB para passar a maior parte de sua carreira longe da atividade operacional. Ele quer voar. Quer treinar. Quer participar de missões. Quer dominar sua aeronave. Quer estar preparado para o dia em que sua competência poderá fazer a diferença entre a vida e a morte.

É justamente essa vocação que está sendo perdida.

O mercado civil oferece salários melhores, perspectivas de carreira e, muitas vezes, uma quantidade de horas de voo muito superior àquela que o piloto consegue acumular na carreira militar. Quando a Força Aérea deixa de oferecer ao seu principal recurso humano aquilo que o motivou a ingressar nela, a saída torna-se uma consequência previsível.

O Brasil está formando pilotos para depois perdê-los. Isso não é apenas desperdício de dinheiro público. É perda de capacidade estratégica.

Cada piloto militar exige anos de formação, treinamento, horas de voo, instrutores, aeronaves, combustível e uma complexa estrutura de apoio. Quando esse profissional deixa a FAB, não se perde apenas um militar. Perde-se uma parcela da capacidade de combate construída ao longo de anos.

Mas há algo ainda mais preocupante. A FAB parece ter perdido, em determinados momentos, a capacidade de distinguir aquilo que é essencial daquilo que é desejável.

O desenvolvimento tecnológico e a busca por autonomia são importantes. O Brasil precisa dominar tecnologias críticas e manter uma indústria de defesa capaz de sustentar suas Forças Armadas. Mas não dá para continuar a perder tempo com projetos de desenvolvimento que nunca decolam, siglas que consomem tempo precioso e milhões em recursos que poderiam ser melhor aproveitados na construção de capacidades concretas.

A estranha insistência em desenvolver aquilo que ainda não se domina, enquanto países desenvolvidos compram, operam e dominam operacionalmente tecnologias existentes para, posteriormente, buscar seu desenvolvimento ou nacionalização, precisa ser discutida.

A FAB perde foco, tempo e dinheiro quando transforma a busca pela independência tecnológica em um objetivo que, em determinadas situações, passa a se sobrepor à necessidade de possuir capacidade operacional. Se não se consegue ser independente do básico, jamais será independente do complexo.

A pergunta precisa ser feita: quantas centenas de milhões de reais já foram retiradas do orçamento da Força Aérea para financiar projetos de desenvolvimento que nunca se transformaram em produtos? Quantos projetos consumiram anos de trabalho, equipes, estruturas e recursos e não chegaram às pontas das asas? Quantos chegaram tarde demais, quando a tecnologia originalmente pretendida já havia sido superada?

Não se trata de defender o abandono da pesquisa, da inovação ou da indústria nacional. Trata-se de exigir prioridade, foco e resultados.

A razão de existir da Força Aérea Brasileira é cumprir sua missão constitucional. A tecnologia deve estar a serviço dessa missão, e não a missão subordinada à busca permanente por tecnologia.

Não existe soberania em uma Força Aérea que não consegue colocar aeronaves suficientes no ar. Não existe independência estratégica quando faltam pilotos treinados. Não existe capacidade de dissuasão quando esquadrões não conseguem manter níveis adequados de prontidão. E não existe futuro para uma Força Aérea que sacrifica sua capacidade operacional presente em nome de projetos que talvez produzam resultados somente muitos anos depois.

O excesso de burocracia, atividades administrativas, compromissos protocolares e missões que não contribuem diretamente para a preparação operacional também precisa ser enfrentado.

A FAB não pode transformar seus pilotos em funcionários administrativos com brevê.

Piloto precisa voar.

Caça precisa voar. Transporte precisa voar. Patrulha precisa voar. Helicóptero precisa voar.

É para isso que existe uma Força Aérea.

Durante décadas, a FAB foi referência. Foi pioneira na América Latina, esteve na vanguarda tecnológica e ajudou a construir uma das mais importantes indústrias aeronáuticas do mundo. Foi uma instituição respeitada por sua capacidade profissional e operacional.

Hoje, corre o risco de se tornar exatamente o oposto daquilo que sempre representou: uma Força Aérea com:

  • menos aeronaves disponíveis;
  • menos pilotos;
  • menos horas de voo
  • menos capacidade de combate. e.
  • menor motivação.

Enquanto isso, nossos vizinhos avançam. O Chile moderniza sua aviação de combate. A Argentina e o Peru estão reconstruindo rapidamente sua capacidade de caça. Outros países da região investem em novas aeronaves, sistemas de defesa aérea, radares e capacidades de vigilância.

O Brasil, que deveria naturalmente liderar esse processo no continente, corre o risco de ficar para trás.

A situação exige mais do que discursos sobre soberania. Exige decisões.

É necessário recuperar a disponibilidade das aeronaves existentes, acelerar a renovação da aviação de combate, ampliar a formação e retenção de pilotos, garantir horas de voo suficientes, recuperar a aviação de patrulha, recompor a frota de helicópteros e de vigilância e reconhecimento, além de preservar as bases necessárias à defesa do território.

Também é necessário rever prioridades.

A Força Aérea precisa voltar a ser uma organização voltada essencialmente para sua atividade-fim: preparar-se para combater e estar pronta para defender o espaço aéreo brasileiro.

O Brasil não pode se dar ao luxo de perder seus pilotos. Não pode permitir que o jovem que passou a infância sonhando em pilotar um caça descubra, poucos anos depois de conquistar seu brevê, que sua melhor opção profissional está fora da Força Aérea.

O amor pela aviação continua existindo. A paixão por voar continua existindo. A vontade de servir à Pátria também.

O que está desaparecendo é a capacidade da FAB de transformar esses sonhos em uma carreira que valha a pena.

E quando uma Força Aérea começa a perder justamente aqueles que escolheram voar para defendê-la, o problema deixa de ser apenas militar.

Torna-se um problema de Estado.

Algo precisa mudar. E precisa mudar agora.

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