7 de outubro: as vítimas israelenses que o mundo não pode esquecer

Três anos após o massacre cometido pelo Hamas, sobreviventes ainda tentam recuperar a segurança perdida. A atenção à tragédia de Gaza não pode apagar os assassinatos, os sequestros e a responsabilidade de seus autores.

Ricardo Fan – DefesaNet

(RDN) Pérola Gaz permaneceu cerca de 20 horas em um abrigo no kibutz Be’eri, ao lado de duas netas, então com seis e dez anos, durante o ataque de 7 de outubro de 2023. Três anos depois, a perspectiva de retornar para casa não significa recuperar a segurança. Em entrevista à RFI, ela descreveu o temor de uma nova invasão e resumiu a ruptura: “Sinto que não vou poder voltar a ser o que eu era”.[1]

Seu relato devolve dimensão humana a uma data frequentemente reduzida a argumento geopolítico. Antes das campanhas militares, das disputas diplomáticas e das narrativas internacionais, houve pessoas atacadas em suas casas e durante um festival de música. O Hamas e outros grupos armados mataram cerca de 1.200 pessoas em Israel e levaram 251 reféns para Gaza.[2]

O 7 de outubro não terminou para todos quando cessaram os tiros daquele dia. Para os sobreviventes, a questão envolve a possibilidade de voltar a habitar um lugar sem temer a repetição do massacre. Para as famílias dos mortos, envolve também preservar a memória de pessoas cuja ausência não será reparada por qualquer resultado militar.

As pessoas por trás da data

Na homenagem realizada neste terceiro aniversário no local do festival Nova, Katia Zohar recordou as ligações de sua filha Bar, assassinada aos 23 anos. Segundo relato publicado pela AFP, a jovem primeiro pediu que a mãe fosse buscá-la por causa dos foguetes; depois, telefonou da estrada dizendo que estavam atirando nela.[3]

O episódio revela o que uma estatística não consegue expressar: a distância entre uma rotina interrompida e a violência que transforma uma família. Cada vítima tinha relações, projetos e uma trajetória que não pode ser reduzida à posição internacional de seu país.

A humanidade dessas pessoas não depende de concordância com o governo israelense. Reconhecer a vítima de um ataque terrorista exige examinar o que foi feito contra ela. Não exige adesão à política de Benjamin Netanyahu, à campanha militar em Gaza ou a qualquer partido.

Esse princípio precisa orientar a cobertura e a diplomacia. Uma pessoa assassinada em um festival não responde pelas decisões de um governo. Uma criança sequestrada não representa uma doutrina militar. A análise perde precisão quando transforma cidadãos em símbolos coletivos e deixa de reconhecer sua condição de indivíduos.

Reconstruir casas não basta para recuperar a confiança

Na reportagem da RFI, o especialista em estresse pós-traumático Tuli Flint descreve uma sociedade que ainda vive o 7 de outubro como um acontecimento presente. A observação ajuda a compreender por que a reconstrução física das comunidades não encerra o processo de recuperação.[1]

Do ponto de vista estratégico, o ataque feriu a confiança na capacidade de proteção do Estado. A promessa básica da segurança nacional é permitir que a população viva sem enfrentar diretamente a violência organizada. Quando essa promessa falha dentro de residências e comunidades, a restauração da confiança exige mais do que demonstrações posteriores de força.

Reconstruir implica oferecer condições concretas de proteção, apoio aos sobreviventes, esclarecimento sobre as falhas e responsabilização. Uma casa reparada pode continuar sendo percebida como insegura. Uma fronteira reforçada precisa ser acompanhada de credibilidade institucional.

A cobrança também alcança as autoridades israelenses. Segundo a Reuters, familiares de vítimas e setores da sociedade continuam exigindo uma investigação independente, enquanto Netanyahu resiste a essa iniciativa.[2] Colocar os sobreviventes no centro significa reconhecer seu direito de questionar o governo que deveria tê-los protegido.

O Hamas continua responsável pelo massacre

A responsabilidade do Hamas não é uma alegação restrita ao governo israelense. Em junho de 2024, a comissão internacional independente de investigação da ONU atribuiu ao grupo e a outras organizações armadas crimes de guerra, incluindo ataques deliberados contra civis, assassinatos, tortura e tomada de reféns.[4]

A amplitude da devastação posterior em Gaza não altera a natureza desses atos. O 7 de outubro não inaugurou o conflito israelo-palestino, mas desencadeou esta guerra. A história anterior precisa ser conhecida; não constitui autorização para assassinar ou sequestrar civis.

O Hamas permanece na lista de terrorismo da União Europeia.[5] Portanto, a preocupação internacional com os palestinos não representa sua absolvição. A questão central é impedir que a solidariedade destinada aos civis seja transferida automaticamente à organização que conduziu o ataque.

Esse risco aparece quando o massacre é relativizado como consequência inevitável de um contexto histórico, quando seus autores são apresentados apenas como representantes de uma causa nacional ou quando a identidade das vítimas substitui o exame dos crimes cometidos contra elas.

A disputa pela memória das vítimas

A guerra prolongada desloca a atenção pública. Novos ataques e novas mortes ocupam o noticiário, enquanto acontecimentos anteriores passam a ser mencionados de forma resumida. Esse movimento não demonstra, por si só, intenção de apagar o 7 de outubro. Contudo, produz uma exigência editorial: preservar a especificidade do massacre enquanto se acompanha o presente.

A reportagem anterior da RFI, sobre como o ataque mudou o destino da Palestina, aborda a devastação e a fragmentação dos territórios palestinos.[6] O relato dos sobreviventes israelenses acrescenta outra dimensão indispensável: o impacto duradouro do ataque sobre quem o sofreu diretamente.

As duas perspectivas podem coexistir. O problema surge quando a denúncia de atos israelenses funciona como justificativa retrospectiva dos crimes do Hamas. Nesse caso, a análise deixa de distinguir responsabilidades e concede aos autores do massacre uma inocência que os fatos não sustentam.

Essa instrumentalização deve ser demonstrada em discursos e ações concretos. Não pode ser atribuída indistintamente a quem defende ajuda humanitária, um cessar-fogo ou os direitos palestinos. A proteção das vítimas de Gaza e a condenação do Hamas são posições compatíveis.

O Brasil e a obrigação de reconhecer as vítimas

A postura do governo brasileiro deve ser avaliada pelo que declarou, pelo que fez e pelo efeito político de suas manifestações. Em 7 de outubro de 2023, Lula condenou os ataques terroristas contra civis em Israel. A CNN registrou, entretanto, que a manifestação presidencial e a nota inicial do Itamaraty não nomearam o Hamas, escolha que provocou controvérsia.[7] Em março de 2024, Mauro Vieira condenou explicitamente o ataque terrorista do grupo, defendeu a libertação dos reféns e reconheceu o direito de Israel de proteger sua população dentro do direito internacional. Em setembro de 2026, Lula voltou a condenar os atos terroristas do Hamas em discurso na ONU.[8][9]

A condenação formal, portanto, existe. A crítica está na distância entre esse reconhecimento e a narrativa política construída pelas demais declarações. Nessa leitura, a condenação pode funcionar como uma ressalva protocolar, enquanto o restante do discurso concentra a responsabilidade em Israel e reduz a presença das vítimas do 7 de outubro no debate. O problema não é a ausência absoluta de repúdio ao massacre, mas o enfraquecimento de sua gravidade e da responsabilidade de seus autores.

Essa tensão aparece na declaração de Lula de 24 de outubro de 2023. Embora tenha reconhecido o caráter terrorista do ataque, o presidente também pediu que o Hamas tivesse compreensão do “erro que cometeram”.[10] Tratar um massacre deliberado como “erro”, mesmo em uma manifestação que condena o terrorismo, permite questionar a força dessa condenação: assassinatos e sequestros não constituem um simples equívoco de julgamento. A comparação posterior da ação israelense com o Holocausto, em fevereiro de 2024, aprofundou a controvérsia sobre a linguagem presidencial.[8]

É nesse sentido que se pode formular a crítica de um benefício político indireto ao Hamas: como efeito de uma retórica que pode relativizar seus crimes e permitir à organização apropriar-se da solidariedade destinada aos palestinos. O agressor procura aparecer apenas como parte de uma população agredida, enquanto sua responsabilidade por ter desencadeado esta guerra perde centralidade. Defender os civis de Gaza é uma obrigação humanitária; converter essa defesa em reabilitação dos responsáveis pelo massacre é uma escolha política que merece contestação.

A distinção entre o Hamas e os habitantes de Gaza é indispensável para expor essa operação. O grupo não pode ser tratado como sinônimo de toda a população, nem receber uma presunção de inocência derivada do sofrimento dela. A narrativa se torna conveniente aos seus dirigentes quando funde organização e povo para reivindicar solidariedade, mas deixa de distinguir suas decisões das vidas que foram colocadas em risco.

Para as vítimas israelenses, a coerência da posição brasileira deve ser medida por algo além de uma condenação registrada em documento. Exige reconhecer os assassinatos e sequestros sem eufemismos, preservar a responsabilidade de seus autores e impedir que a denúncia de atos israelenses sirva de absolvição retrospectiva ao Hamas. A solidariedade aos palestinos não exige o apagamento do 7 de outubro.

Proteger Israel exige responsabilidade: o Hamas e a exposição deliberada de civis

O direito de Israel de proteger sua população possui uma dimensão concreta: impedir que famílias voltem a ser atacadas em suas casas e que pessoas sejam sequestradas. A exigência de segurança dos sobreviventes não pode ser desqualificada como simples expressão de belicismo. A análise da resposta israelense também precisa considerar a natureza do adversário: o Hamas é uma organização terrorista com um braço armado, cuja atuação em áreas civis torna mais difícil distinguir e atingir objetivos militares sem colocar moradores em risco.

O emprego de escudos humanos não pode ser retirado dessa discussão. Relatórios do secretário-geral da ONU sobre crianças e conflitos armados registram denúncias dessa prática pelo Hamas e por outros grupos palestinos em Gaza.[11] O Departamento de Estado norte-americano também aponta o histórico do Hamas de instalar sua presença militar junto à população civil.[12] Essa conduta expõe moradores, inclusive crianças, aos efeitos do combate e exige responsabilizar quem utiliza pessoas protegidas para resguardar suas operações.

Nesse ambiente, ataques contra objetivos militares podem produzir mortes e ferimentos incidentais entre civis. A ocorrência dessas perdas, por si só, não demonstra que a população tenha sido deliberadamente escolhida como alvo. Tampouco permite concluir automaticamente que todo ataque foi legítimo: a avaliação exige examinar o objetivo militar, as informações disponíveis, as precauções adotadas e a proporcionalidade entre o dano civil previsível e a vantagem militar concreta esperada.[13] A expressão “efeito colateral” descreve uma circunstância do ataque; não substitui sua investigação.

É nesse ponto que cabe cobrar coerência dos organismos internacionais. A comissão da ONU atribuiu crimes ao Hamas e às autoridades israelenses.[4] Entretanto, qualquer avaliação que destaque os efeitos da resposta israelense sem examinar a responsabilidade de quem expõe deliberadamente os civis oferece uma compreensão incompleta do campo de batalha. Quando comprovado, o uso de escudos humanos precisa aparecer como uma violação própria, com autores e responsabilidades, e não como um detalhe secundário da guerra.

Reconhecer essa responsabilidade do Hamas não elimina as obrigações israelenses de proteger civis. O direito humanitário proíbe o uso de escudos humanos e mantém a proteção das pessoas utilizadas dessa forma.[13] A cobrança deve alcançar ambos os comandos: quem realiza o ataque e quem procura proteger suas posições mediante a exposição da população.

Para as vítimas israelenses, a segurança duradoura exige impedir a repetição do 7 de outubro. Para os civis palestinos, exige também que sua vida deixe de ser utilizada como instrumento militar. Uma análise coerente não pode permitir que o Hamas se aproprie do sofrimento de pessoas cuja segurança suas próprias práticas colocam em risco.

A segurança começa pelo direito de voltar a viver

Para os sobreviventes, a questão decisiva é poder retomar a vida sem organizar cada escolha em torno da possibilidade de um novo ataque. Esse objetivo deve orientar a reconstrução das comunidades e a política de segurança.

Uma solução duradoura exige impedir novos massacres, responsabilizar seus autores e oferecer proteção efetiva à população. Também exige condições políticas que reduzam a reprodução da violência e permitam aos palestinos viver com direitos, segurança e governança legítima.

A atenção ao sofrimento de Gaza não pode retirar das vítimas israelenses seu lugar na história. Tampouco uma disputa sobre o governo de Israel pode transformar o Hamas em representante inocente de uma tragédia para a qual sua decisão contribuiu de maneira decisiva.

O mundo pode mudar de assunto. Os sobreviventes não podem mudar o que viveram. Preservar a memória do 7 de outubro significa reconhecer essas pessoas e exigir que sua segurança seja tratada como uma responsabilidade permanente.

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Foto capa: Pessoas visitam o local do festival de música Nova, próximo ao kibutz Reim, no sul de Israel, na segunda-feira, 5 de outubro de 2026. AP Photo/Ohad Zwigenberg – Ohad Zwigenberg

Fontes

[1] Henry Galsky/RFI, 7/10/2026, reprodução no UOL: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/rfi/2026/10/07/sinto-que-nao-vou-poder-voltar-a-ser-o-que-eu-era-diz-sobrevivente-do-7-de-outubro-de-2023-em-israel.amp.htm

[2] Reuters, 7/10/2026: https://www.investing.com/news/world-news/israelis-mark-three-years-since-hamas-attack-that-set-off-gaza-assault-4935604

[3] AFP, 7/10/2026, reprodução no UOL: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2026/10/07/israel-relembra-as-vitimas-de-7-de-outubro-antes-das-eleicoes.htm

[4] ONU, comissão de investigação, 19/6/2024: https://www.ungeneva.org/en/news-media/meeting-summary/2024/06/devant-le-conseil-la-commission-presidee-par-mme-pillay-conclut

[5] Conselho da União Europeia: https://www.consilium.europa.eu/en/policies/sanctions-against-terrorism/

[6] Anne Bernas/RFI, 6/10/2026, reprodução no UOL: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/rfi/2026/10/06/como-o-ataque-de-7-de-outubro-de-2023-mudou-o-destino-da-palestina.amp.htm

[7] CNN Brasil, 7/10/2023: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/brasil-condena-terrorismo-contra-israel-mas-nao-cita-o-hamas/

[8] Agência Senado, 14/3/2024: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2024/03/14/ministro-de-relacoes-exteriores-reitera-criticas-a-israel-na-cre

[9] Agência Brasil, 22/9/2026: https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/internacional/audio/2026-09/na-onu-lula-diz-que-o-brasil-nao-cabe-no-quintal-de-ninguem

[11] ONU — relatórios sobre crianças e conflitos armados de 2024 e 2025, que registram denúncias de uso de escudos humanos pelo Hamas. Question of Palestine

[12] Departamento de Estado dos EUA — coletiva de 13 de maio de 2024. May 13, 2024

[13] Comitê Internacional da Cruz Vermelha — proteção de civis, proporcionalidade e obrigações das partes no conflito.

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