Leopard 1A5: o preço de manter vivo um blindado que a Alemanha já não precisa e não quer mais sustentar

Manter a frota de Leopard 1A5 do Exército Brasileiro operacional deixou de ser apenas uma questão de manutenção. Tornou-se um problema econômico, logístico e estratégico.

Nelson During
Editor-Chefe DefesaNet

Com mais de cinco décadas, a Viatura Blindada de Combate Carro de Combate (VBC CC) Leopard 1A5 depende de uma cadeia industrial estrangeira que deixou de tratá-lo como prioridade. A guerra na Ucrânia apenas acelerou um processo que já estava em curso: redução dos estoques de peças, aumento de preços e concentração da indústria europeia no atendimento aos Leopard empregados pela Ucrânia.

Uma cadeia que deixou de existir

Quando o Brasil recebeu seus Leopard 1A5, a realidade era outra. Havia estoques, fornecedores, conhecimento técnico e uma estrutura logística consolidada na Alemanha.

Em 2017, o Exército contratou a empresa alemã KMW por dez anos, por cerca de €60 milhões, para manutenção, assistência técnica, reparação de componentes e suporte logístico. O contrato termina em 15 de maio de 2027.

O problema é que, apesar do investimento, a disponibilidade da frota permaneceu baixa. Há informações de que, em tempos de paz, os veículos eram limitados a cerca de 200 quilômetros de utilização anual para reduzir desgaste e consumo de componentes.

Hoje, segundo informações do setor, peças disponíveis no mercado chegaram a registrar aumentos de aproximadamente 300%.

A questão deixou de ser apenas quanto custa a peça. Em muitos casos, é saber se ainda existe quem a fabrique.

A Ucrânia mudou o mercado

A Alemanha forneceu Leopard 1A5, peças, equipamentos e suporte à Ucrânia. A indústria europeia passou a concentrar recursos na recuperação e manutenção dos blindados empregados na guerra.

Mesmo a Ucrânia, que está no centro dessa prioridade, enfrenta dificuldades logísticas. Para o Brasil, distante dos fornecedores e fora dessa prioridade, a situação é naturalmente ainda mais complicada.

O resultado aparece na disponibilidade.

Aproximadamente um quarto da frota brasileira teria condições de, simultaneamente, movimentar-se, comunicar-se e empregar seu armamento.

A canibalização de veículos também passou a ser utilizada para recuperar outros. É uma solução emergencial, não uma política logística sustentável. Quando se retira uma peça de um carro para colocar em outro, não se aumenta a frota operacional. Apenas se redistribui a disponibilidade.

A dependência tem um preço

A dependência da cadeia alemã também criou situações politicamente desconfortáveis.

Durante os protestos de 2013, segundo informações, autoridades alemãs teriam questionado o Brasil sobre a possibilidade de utilização dos Leopard em operações de repressão. Posteriormente, restrições da BAFA teriam afetado o fornecimento de componentes, como o embargo às fitas de alimentação das metralhadoras MG3.

São episódios que mostram o problema de depender de outro país para manter operacional um equipamento militar.

O Exército vem tentando reduzir essa vulnerabilidade por meio de engenharia reversa e nacionalização de componentes, com participação da UFSM, arsenais e empresas brasileiras.

É uma iniciativa necessária, mas existe um limite. Não parece economicamente racional reconstruir no Brasil toda uma cadeia industrial para sustentar indefinidamente um carro de combate concebido há mais de 50 anos.

O Leopard ainda pode ser útil

O projeto de revitalização de 52 Leopard 1A5 pode cumprir um papel importante nos próximos anos.

Em vez de tentar recuperar toda a frota, o Exército deve concentrar recursos nos veículos em melhores condições, mantendo uma quantidade menor, mas efetivamente operacional.

Isso permitirá preservar capacidade, manter tripulações treinadas e evitar uma lacuna até a chegada do substituto.

Os Leopard que permanecerem em melhores condições também poderão ser redistribuídos para Regimentos de Cavalaria Blindada que hoje não possuem carros de combate e substituir os poucos M60 ainda empregados no Comando Militar do Oeste.

2027 será o ano da decisão

O fim do contrato com a KMW, em maio de 2027, coincide com a necessidade de uma decisão maior: o Exército deverá contratar sua nova família de Viaturas Blindadas de Combate Carro de Combate (VBC CC) para substituir progressivamente o Leopard 1A5.

A substituição deve ocorrer de forma gradual, acompanhando a produção e a incorporação dos novos veículos. Assim, o Exército preserva sua capacidade blindada enquanto constrói uma nova força.

O novo VBC CC, porém, não pode ser escolhido apenas pelo desempenho ou pela tecnologia.

O Brasil precisa considerar manutenção, disponibilidade de peças, formação de pessoal, participação da indústria nacional, produção local, transferência de tecnologia e, principalmente, a capacidade de garantir suporte durante todo o ciclo de vida, sem estar preso a restrições de uso e amarras tecnológicas.

A comunalidade logística com outras plataformas também deverá ser um fator importante para reduzir custos e simplificar manutenção, treinamento e estoque de componentes.

O Leopard 1A5 cumpriu sua missão. Formou gerações de militares, recuperou a capacidade de carros de combate do Exército e manteve uma força blindada relevante por décadas.

Agora, porém, o seu maior inimigo não é um carro de combate adversário. É o custo crescente e a dificuldade de manter viva uma cadeia industrial que deixou de existir.

2027 não deveria ser apenas o fim de um contrato de suporte logístico. Deve ser o início de uma nova geração da força blindada brasileira colocando ela numa posição de vanguarda junto aos exércitos da América Latina.

Nota DefesaNet

Esta matéria ressalta o excelente trabalho das Equipes do Parque Regional de Manutenção da 3ª Região Militar (Pq R Mnt/3), localizado em Santa Maria / RS.

O autor visitou o Pq R Mnt/3, em 2024 e teve amplo contato com os técnicos e mecânicos, Porém cada vez mais são encontradas dificuldades insuperáveis.

O Editor

Equipes do Parque Regional de Manutenção da 3ª Região Militar (Pq R Mnt/3) em ação

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