MOM-A1: a munição que vai revolucionar o combate naval das Fragatas Tamandaré.

A nova munição multifuncional para o canhão de 76 mm amplia as opções de combate da Marinha, permite enfrentar drones e pode preservar os caros mísseis CAMM para ameaças de maior valor. A MB será a primeira marinha da América Latina a utilizar essa moderna munição.

Nelson During
Editor-Chefe DefesaNet

As Fragatas Classe Tamandaré foram concebidas para representar uma mudança de geração na capacidade de combate da Marinha do Brasil. Seus sensores, sistemas de combate e armamentos introduzem novas capacidades à Esquadra, mas existe um componente que pode alterar de maneira particularmente significativa a flexibilidade operacional desses navios: a munição empregada pelo canhão Leonardo 76/62 Super Rapid.

A MOM-A1 representa uma evolução importante nesse sentido. Não se trata simplesmente de uma nova granada de 76 mm, mas de uma munição multifuncional equipada com espoleta programável, capaz de adaptar seu funcionamento ao tipo de alvo e à missão. A Leonardo informa que a MOM-A1 utiliza uma ogiva de fragmentação pré-formada, com aproximadamente 0,8 kg de carga explosiva, e a espoleta multifuncional 4AP, que permite modos de proximidade, explosão em altura, impacto e tempo. O alcance informado é de aproximadamente 16 quilômetros, e a munição é destinada a missões de defesa antiaérea, guerra antissuperfície e apoio de fogo naval. A fabricante também informa compatibilidade com as diferentes variantes dos canhões navais 76/62 OTO Melara/Leonardo.

É essa combinação de características que transforma o tradicional canhão de 76 mm em uma arma muito mais versátil e letal.

A importância dessa capacidade aumentou dramaticamente com a proliferação dos drones. A guerra naval está entrando em uma fase na qual navios de guerra podem ser submetidos a ataques envolvendo múltiplos sistemas aéreos não tripulados, inclusive drones de ataque e munições vagantes. Essas ameaças podem ser relativamente baratas quando comparadas aos mísseis empregados para destruí-las.

Isso cria um problema para qualquer comandante naval: como defender o navio sem consumir rapidamente seus interceptadores mais sofisticados?

A resposta passa necessariamente por uma arquitetura de defesa em camadas.

Nas Tamandaré, os mísseis MBDA CAMM constituem um dos principais elementos da defesa aérea. Mas não é desejável empregar um míssil de defesa aérea de elevado valor contra toda e qualquer ameaça que apareça no horizonte. Contra determinados drones que estejam dentro do envelope de emprego do canhão, a MOM-A1 oferece uma alternativa adicional.

O princípio é simples: usar a arma adequada para cada ameaça e preservar os sistemas mais sofisticados para os alvos que realmente exigem seu emprego.

Essa lógica pode produzir uma vantagem operacional e econômica significativa. Um pequeno número de mísseis antiaéreos pode representar um custo equivalente ao de uma quantidade muito maior de munições de canhão. Portanto, em determinados cenários, empregar a MOM-A1 contra drones permite conservar os CAMM para ameaças de maior risco, aumentando a capacidade de resistência do navio diante de ataques prolongados ou de saturação.

Não se trata de substituir o CAMM pelo canhão.

Trata-se de não gastar um CAMM quando o 76 mm pode cumprir a missão.

Essa distinção será cada vez mais importante. Um adversário pode tentar saturar uma fragata com uma quantidade elevada de drones justamente para obrigá-la a consumir seus interceptadores. Se cada ameaça exigir um míssil, o estoque disponível poderá ser reduzido rapidamente. Uma munição multifuncional de 76 mm oferece ao comandante uma alternativa para determinados engajamentos e ajuda a preservar a profundidade da defesa aérea.

A experiência internacional mostra que essa preocupação já deixou de ser uma hipótese.

A Armada Española está realizando testes específicos para avaliar a MOM-A1 como munição C-UAS para proteção de seus navios. Em 2025, a Armada contratou a Leonardo para prestar assistência técnica na preparação e execução desses testes, incluindo o disparo real de pelo menos 15 projéteis 76/62 HE-MOM A1 equipados com espoleta multifuncional programável.

A decisão espanhola é particularmente relevante porque foi motivada pela evolução concreta da ameaça enfrentada por navios em áreas como o Mar Vermelho, Bab el-Mandeb e suas aproximações, onde ataques com drones contra o tráfego marítimo demonstraram a necessidade de ampliar as capacidades C-UAS das forças navais. A documentação que fundamentou os testes espanhóis destacou justamente a fragmentação, a elevada cadência de tiro e a espoleta programável como características importantes para o emprego contra drones.

Portanto, a Espanha está adquirindo uma solução baseada exatamente no mesmo conceito que pode ser empregado pelas futuras Fragatas Tamandaré: utilizar o canhão de 76 mm e uma munição multifuncional programável como parte da defesa contra sistemas aéreos não tripulados. Isso dá uma dimensão ainda maior à aquisição brasileira.

As Tamandaré terão o mesmo conceito básico de armamento de 76/62 Super Rapid. A primeira fragata da classe já recebeu o sistema Leonardo 76/62 Super Rapid, que integra sua arquitetura de combate.

A grande vantagem da MOM-A1, porém, é que seu emprego não está limitado à defesa contra drones.

No combate de superfície, o 76 mm continua sendo uma arma de reação rápida e elevada cadência de tiro. A munição pode ser configurada para diferentes modos de funcionamento, permitindo adaptar o efeito terminal à natureza do alvo.

No apoio de fogo naval, o mesmo sistema proporciona capacidade contra alvos em terra, ampliando a participação da fragata em operações navais e anfíbias.

Na defesa aérea, a espoleta de proximidade e o modo de explosão em altura permitem que a munição produza seus efeitos sem depender necessariamente de um impacto direto. A documentação da Leonardo destaca que o sensor de proximidade foi projetado para detectar alvos como mísseis, drones e aeronaves, inclusive considerando ameaças de baixa assinatura radar e ambientes com clutter marítimo ou terrestre.

O resultado é uma característica particularmente importante para uma fragata multifunção: a mesma arma pode cumprir diferentes missões sem exigir uma mudança física do sistema instalado a bordo.

É aí que a MOM-A1 pode representar uma mudança de filosofia.

Uma dotação de munição pode cobrir uma parcela muito ampla do espectro operacional da fragata: defesa aérea, combate de superfície e apoio de fogo naval. Em vez de pensar no canhão como uma arma exclusivamente destinada ao combate de superfície ou como um recurso secundário, a Marinha passa a contar com um sistema capaz de assumir diferentes funções dentro da arquitetura de combate.

Essa flexibilidade também tem impacto direto na logística.

Quanto maior o número de missões que uma determinada munição consegue cumprir, maior a utilidade de cada unidade transportada a bordo. Em uma operação prolongada, isso significa maior liberdade para o comandante administrar seus estoques e escolher a arma mais adequada para cada ameaça.

A diferença entre uma munição convencional e uma munição com espoleta multifuncional programável está justamente nessa capacidade de adaptação.

A MOM-A1 não transforma o canhão em um sistema de mísseis. Ela faz algo diferente: aumenta significativamente a inteligência e a flexibilidade do projétil, permitindo que o efeito da munição seja selecionado conforme a missão.

É importante também diferenciar a MOM-A1 de outras munições avançadas de 76 mm. A DART é uma munição guiada desenvolvida especificamente para defesa contra ameaças aéreas rápidas e manobráveis, como mísseis antinavio. A família VULCANO, por sua vez, busca ampliar substancialmente o alcance e a precisão do canhão. A MOM-A1 segue outra filosofia: oferecer uma munição multifuncional de emprego amplo, com diferentes modos de detonação e capacidade para diversas categorias de missão.

Essa complementaridade é importante.

A futura capacidade das Tamandaré não deve ser vista como uma escolha entre canhão ou míssil. O poder de combate está justamente na combinação dos diferentes sistemas.

O CAMM deve ser empregado contra as ameaças que justificam sua utilização. O canhão de 76 mm, equipado com munições adequadas, pode assumir outras categorias de alvos. Sistemas de guerra eletrônica acrescentam outra camada. Sensores e radares fornecem a informação necessária para que o sistema de combate selecione a resposta apropriada.

É a integração desses elementos que cria uma defesa naval moderna.

No caso dos drones, essa arquitetura será especialmente importante. O objetivo de uma força atacante pode ser não apenas atingir o navio, mas saturar sua defesa e obrigá-lo a consumir rapidamente seus interceptadores. Uma defesa eficiente precisa, portanto, administrar não apenas a probabilidade de destruição de cada ameaça, mas também o custo e o estoque de cada interceptador utilizado.

Uma fragata que utiliza uma munição de 76 mm contra uma ameaça compatível com sua capacidade mantém um CAMM disponível para uma ameaça mais perigosa. O míssil preservado continua fazendo parte da defesa do navio.

Em uma situação de combate prolongado, essa diferença pode ser decisiva.

Por isso, a aquisição da MOM-A1 deve ser compreendida como parte da construção de uma nova capacidade de combate para a Marinha do Brasil. Não é apenas uma questão de abastecer o paiol das Tamandaré. É uma oportunidade para criar uma defesa em camadas mais eficiente, na qual cada sistema seja empregado de acordo com sua função, capacidade e custo.

A experiência espanhola mostra que outras Marinhas já estão olhando para o mesmo problema. A Armada Española está testando a MOM-A1 especificamente diante da necessidade de proteger seus navios contra drones. Para o Brasil, que está colocando em serviço uma nova classe de fragatas equipada com o mesmo calibre de canhão, a lição é particularmente relevante.

As Tamandaré representam uma nova geração de navios para a Esquadra. A MOM-A1 pode ser um dos elementos que transformará essa nova plataforma em uma força ainda mais flexível e sustentável no combate.

O salto não está apenas no canhão.

Está na combinação entre sensor, sistema de combate, direção de tiro, munição programável e escolha racional do armamento para cada ameaça.

No combate naval moderno, inteligência não significa apenas detectar primeiro ou disparar mais longe. Significa também saber qual arma utilizar, contra qual alvo e no momento correto.

É essa capacidade que pode fazer da MOM-A1 uma das munições mais importantes para as Fragatas Classe Tamandaré e um instrumento fundamental para preparar a Marinha do Brasil para uma guerra naval na qual drones, ataques de saturação e múltiplas ameaças aéreas serão cada vez mais presentes.

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