Visita do Comandante do Exército à Índia em 2023. Ao fundo um lançador do míssil AKASH.
Nelson During
Editor-Chefe DefesaNet
20 Março 2026
A persistência da Índia no sistema Akash revela mais do que uma escolha técnica — expõe um dilema estratégico entre autonomia industrial e eficácia operacional. Desenvolvido pela DRDO, o Akash é um sistema de defesa antiaérea de médio alcance cuja base conceitual remonta à doutrina e às tecnologias soviéticas da Guerra Fria. Apesar de atualizações incrementais, sua arquitetura fundamental permanece ancorada em um modelo tecnológico das décadas de 1970 e 1980, especialmente no uso de guiagem por comando com forte dependência de radar de engajamento, conceito semelhante ao de sistemas como o 2K12 Kub.
Esse tipo de solução, embora funcional, apresenta limitações importantes no ambiente contemporâneo. A dependência de rastreamento contínuo torna o sistema mais vulnerável à guerra eletrônica, reduz sua eficácia contra alvos de baixa observabilidade e dificulta o enfrentamento de ataques saturados com múltiplos vetores, como drones e mísseis de cruzeiro. Em um cenário onde sistemas modernos operam com guiagem ativa, sensores distribuídos e arquitetura em rede, o Akash parte de uma base tecnológica que restringe sua evolução.
Do ponto de vista operacional, a ausência de emprego comprovado em cenários de alta intensidade reforça essas dúvidas. Em episódios de tensão com o Paquistão, como após a crise de Balakot em 2019, não há evidências públicas de que o sistema tenha desempenhado papel decisivo. Ao mesmo tempo, o ambiente regional evoluiu, com o Paquistão investindo em vetores modernos — incluindo drones armados e munições guiadas — que exigem sistemas de defesa com maior capacidade de resposta, engajamento simultâneo e resistência a contramedidas.
Ainda assim, a Índia continua investindo e promovendo o Akash. Essa insistência não é irracional, mas estratégica. O sistema representa autonomia industrial, manutenção de empregos e fortalecimento da base de defesa nacional. Programas como esse são, em muitos casos, menos sobre desempenho absoluto e mais sobre independência tecnológica e capacidade de produção interna. Abandoná-los significaria ampliar a dependência externa e enfraquecer o ecossistema industrial doméstico.
No entanto, essa estratégia convive com um paradoxo evidente. Para a defesa de maior valor estratégico, a Índia recorre a sistemas mais modernos e eficazes, como o S-400 Triumf e o Barak 8, que oferecem maior alcance, melhor resistência à guerra eletrônica e arquitetura mais alinhada às ameaças contemporâneas. Na prática, o Akash ocupa um papel secundário, funcionando como solução de volume, enquanto sistemas estrangeiros protegem os ativos mais críticos.
Esse contexto ajuda a entender por que a Índia continua oferecendo o Akash no mercado internacional, apesar de sua baixa atratividade. Há um esforço claro para recuperar investimentos, ganhar escala de produção e ampliar sua presença geopolítica por meio da exportação de defesa. No entanto, o sistema enfrenta dificuldades porque não atende plenamente às exigências atuais de muitos países, que buscam soluções mais modernas, flexíveis e integráveis.
Esse cenário ganha relevância no Brasil. O sistema Akash passou a ser oferecido à Força Aérea Brasileira em um momento em que produtos indianos vêm sendo promovidos com intensidade crescente, inclusive com forte lobby interno em diferentes níveis. Esse tipo de movimento, comum no setor de defesa, costuma explorar janelas de oportunidade políticas e orçamentárias, além de narrativas de custo-benefício e rapidez de entrega.
No entanto, a eventual adoção de um sistema como o Akash pela Força Aérea Brasileira levantaria questões estruturais importantes. As Forças Armadas brasileiras caminham para uma arquitetura integrada, baseada em interoperabilidade, uso de múltiplos sensores, redes de comando e controle e capacidade de evolução tecnológica contínua. Um sistema com arquitetura mais rígida, dependente de um conceito específico de operação e com limitações de integração poderia criar uma “ilha operacional”, aumentando a complexidade logística e reduzindo a eficiência global da defesa antiaérea.
Além disso, não ofereceria vantagens claras frente a alternativas mais modernas disponíveis no mercado, especialmente aquelas com guiagem ativa, maior resistência a contramedidas e arquitetura aberta. O risco, portanto, seria repetir um padrão conhecido: a aquisição de um sistema aparentemente acessível no curto prazo, mas que impõe limitações ao longo de toda sua vida útil.
No fim, a insistência da Índia no Akash é compreensível sob a ótica de soberania industrial. No entanto, sua promoção internacional — inclusive no Brasil — deve ser analisada com cautela. Em defesa, decisões mal calibradas não se limitam ao presente: elas moldam capacidades, dependências e limitações por décadas. E, nesse contexto, nem toda oferta ativa — ainda que politicamente apoiada — representa, de fato, uma solução adequada.
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