Os 199 Anos da Batalha do Passo do Rosário

Por, General de Brigada André Luiz de Souza Dias e Tenente-Coronel Júlio César Monteiro de Vasconcelos Júnior

O culto às tradições históricas castrenses fortalece a coesão e robustece o sentimento de pertencimento. Inspira diuturnamente “soldados” de diferentes postos e graduações, de ambos os sexos e de todas as épocas. E em razão do legado de heroísmo e amor incondicional à Patria dos que vieram antes, será sempre referência àqueles que possuem a pele verde-oliva aderida à alma.

O Exército Brasileiro, Instituição de Estado com elevados níveis de credibilidade junto à sociedade, preserva, difunde e valoriza sua história militar, lapidando o caráter do soldado-cidadão do País.

Neste contexto, o 4º Regimento de Carros de Combate (4º RCC), pertencente à 6ª Brigada de Infantaria Blindada – Brigada Niederauer, é um dos grandes mantenedores do culto e divulgação da Batalha do Passo do Rosário, ocorrida durante a Guerra Cisplatina (1825-27). Travada em 20 de fevereiro de 1827, há exatos 199 anos, é considerada, pelos efetivos em presença, a maior batalha campal em solo brasileiro.

Na Argentina e no Uruguai é conhecida como Batalha de Ituzaingó. Porção do anterior Vice-Reinado do Rio da Prata, a Banda Oriental (atual Uruguai) se debruça no Atlântico Sul e na margem norte do Rio da Prata.

Dominava, à época, uma importante rota para o comércio regional e mundial, permitindo, igualmente, o acesso às ricas reservas de prata andinas, assegurando a exploração e facilitando o povoamento do interior do continente. Ainda hoje é habitada por uma população de língua castelhana.

O Rei D. João VI, devido a interesses geopolíticos e alegando direitos sucessórios de sangue, em razão da origem espanhola de sua esposa, decidiu, em 1817, incorporar ao então Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves a Banda Oriental, com o nome de Província Cisplatina. Pouco tempo depois, a população oriental clamou por liberdade.

A dificuldade de assimilação, pelas barreiras linguística e cultural, somadas aos ressentimentos herdados de disputas antigas entre portugueses e espanhóis, fez eclodir lutas violentas de independência, que prontamente formam apoiadas e patrocinadas pelos argentinos.

É neste cenário que se enquadra a Batalha do Passo do Rosário. De um lado, as tropas imperiais de Felisberto Caldeira Brant, o Marquês de Barbacena, com um total de 6000 combatentes, tinham por missão pacificar a Província Cisplatina. Do outro, os platinos, ao comando do Tenente-General Carlos Maria de Alvear, somavam 8.130 integrantes e visavam a independência da Banda Oriental. Entretanto, há versões que sustentam haver
sido o real motivo do interesse argentino uma possível fusão futura com o território uruguaio, reeditando algo semelhante ao que existiu no antigo Vice-Reinado do Rio da Prata.

Em janeiro de 1827, o Exército Republicano de Alvear avançou sobre a Província de São Pedro, atual estado do Rio Grande do Sul. Ciente disso, Barbacena iniciou a busca do contato com os invasores. A intenção de Alvear era transpor o Rio Santa Maria, no Passo de São Simão, mas encontrou forte resistência de Bento Manuel.

Os platinos, então, rumaram para o Passo do Rosário. Em 17 de fevereiro de 1827, após seguir no encalço
das tropas de Alvear, Barbacena foi informado sobre a sua localização próximo ao Passo do Rosário, parecendo estar em franco retraimento.

O movimento retrógrado inimigo foi, na verdade, premeditado. Naquela posição, Alvear se preparou para atacar as tropas de Barbacena. Essa artimanha poderia ter sido percebida, uma vez que parecia pouco sensato um exército com superioridade de poder de combate fugir de outro mais fraco.

Tratava-se, enfim, de uma armadilha bem planejada, para a qual as tropas de Barbacena foram atraídas, marchando às cegas, com flagrantes deficiências nos seus esforços de busca de dados do inimigo.

O local escolhido por Alvear foi minuciosamente estudado. Nele, o invasor preparou as posições, desdobrou as tropas, buscou os melhores setores de tiro e ensaiou suas ações de combate, buscando sincronia e sinergia.

As forças de Barbacena, completamente surpreendidas, foram conduzidas à batalha em condições desfavoráveis.

Na porção central da zona de ação, cruzava transversalmente entre as posições dos contendores uma sanga (Sanga do Barro Negro), que permitia somente a passagem as formações de cavalaria por poucos e estreitos pontos. Desta forma, quem se propusesse a atravessá-la, correria um grande risco, por estar sob fogos bem ajustados do oponente, executados de cima para baixo.

Barbacena, sem levar em conta esses aspectos com a devida lucidez, ordenou o ataque. Os embates duraram cerca de 11 horas e as unidades imperiais, apesar das condições desvantajosas, lutaram com determinação e destemor, honrando as cores da bandeira do Império. Foram cerca de 300 baixas, contra mais de 500 dos platinos.

A Batalha terminou, de fato, sem um vencedor. Barbacena, para preservar sua tropa e pensando na provável continuação do combate nos dias seguintes, ordenou a retirada, que se desenvolveu sem qualquer interferência
inimiga. Ele se preocupou também em salvar seu pessoal e meios dos incêndios que assolaram o campo de batalha. O exército de Alvear, por sua vez, igualmente retirou-se, rumo à Banda Oriental.

Atualmente, a Batalha do Passo do Rosário empresta seu nome à denominação histórica do 4º RCC. No local da contenda, ainda hoje é possível observar marcas dos combates passados. Um monumento em homenageia aos heróis nacionais se impõe em frente ao local da Batalha, a cavaleiro da Rodovia BR 290.

No interior do Regimento, há uma réplica desta mesma obra, que transmite a todos o sagrado dever de defender com honra cada centímetro do solo pátrio. Esse é o juramento do Soldado de Caxias! Em 20 de fevereiro de 2027, a Batalha do Passo do Rosário completará o seu segundo centenário.

Capa: Figura 4 – Imagem do quatro “Batalha do Passo do Rosário”, do Coronel Pedro Paulo Cantalice Estigarríbia

Sobre os Autores:

Por, General de Brigada André Luiz de Souza Dias e Tenente-Coronel Júlio César Monteiro de Vasconcelos Júnior

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