Legenda: O veículo de combate de infantaria é peça fundamental da manobra da Força Blindada e faz a proteção dos Carros de Combate contra a ameaça de drones e de posições antitanque, podendo destruir outros blindados também. Nota Imagem criada com Inteligência Artificial. É meramente ilustrativa
Nelson During
Editor- Chefe DefesaNet
O debate sobre a modernização da Força Terrestre brasileira costuma girar em torno da renovação dos carros de combate. No entanto, há uma lacuna estrutural que precisa ser enfrentada com urgência: o desenvolvimento e a produção nacional de um IFV (Infantry Fighting Vehicle) sobre lagartas, conhecido no Brasil pelo nome de Veículo Blindado Combate de Fuzileiros. Trata-se de uma capacidade operacional que jamais foi incorporada ao Exército Brasileiro.
Sem ele, qualquer força de MBT opera incompleta. No campo de batalha moderno, carros de combate isolados são apenas alvos caros.
A natureza do combate blindado mudou
A guerra na Ucrânia consolidou uma realidade que já vinha sendo observada há anos:
- Proliferação de drones armados e munições vagantes;
- Mísseis anticarro de longo alcance;
- Sensores em rede;
- Artilharia de precisão.
Nesse ambiente, o MBT — por mais protegido que seja — não pode operar sozinho. Ele precisa de infantaria blindada capaz de proteger flancos e áreas urbanas, neutralizar equipes com ATGM, operar desmontada em terreno complexo; integrar e fundir sensores e drones ao nível tático. É exatamente esse o papel do IFV moderno.

Força Blindada em ação. O combinado Carro de Combate Leopard 1A5Br e o APC Armoured Personnel Carrier M113BR. Com proteção relativa aos tripulantes e armado com metralhadora 7,62mm ou .50. A mobilidade é limitada não conseguindo acompanhar os Carros de Combate em todo o terreno Foto Exército Brasileiro
O que é um IFV moderno?
Diferentemente de um simples APC, o IFV é um sistema de combate completo. Plataformas como o Tulpar, CV90, Puma, Ascod e M2 Bradley combinam:
- Canhão automático 30–40 mm
- Mísseis anticarro integrados (capacidade além da linha de visada)
- Proteção balística modular
- Sistemas de proteção ativa (APS)
- Sensores diurnos/noturnos avançados
- Capacidade de operar em rede
Mais importante: eles levam infantaria junto ao MBT, com proteção equivalente e mobilidade compatível.


O sueco CV90 um poderoso competidor ao programa IFV ou VBC Fuz (Viatura Blindada de Combate de Fuzileiros. O Tulpar da turca Otokar tem se firmado no mercado internacional e também compete no VBC Fuz. Fotos web
MBT sem IFV: vulnerabilidade estrutural
A história recente mostra que carros de combate operando sem infantaria blindada próxima tornam-se vulneráveis a:
- Emboscadas urbanas
- Ataques por drones
- Equipes ATGM ocultas
- Infiltração em terreno complexo
Um MBT isolado precisa escolher entre avançar às cegas ou parar. Em ambos os casos, perde iniciativa.
Forças blindadas modernas operam no conceito de combate combinado:
MBT + IFV + artilharia + drones + defesa antiaérea.
Retirar o IFV dessa equação compromete toda a arquitetura. Trata-se de um binômio operacional indissociável.
Por que sobre lagartas?
O Brasil investiu corretamente em mobilidade estratégica e em blindados sobre rodas para suas Brigadas Mecanizadas. Porém, Brigadas Blindadas exigem:
- Acompanhamento de MBT em qualquer terreno;
- Capacidade de operar em solo macio, lama, areia profunda;
- Maior proteção estrutural.
A oportunidade industrial brasileira
O Brasil já domina a integração de blindados sobre rodas, como a Viatura Blindada de Transporte de Pessoal – Média sobre Rodas VBTP-MR Guarani e em breve o início da produção do Centauro 2, além da transferência de tecnologia para produção de torres e munições. O próximo passo lógico é uma plataforma comum sobre lagartas que permita:
- Versão IFV
- Versão MMBT
- Porta-morteiro
- Engenharia
- Defesa antiaérea


Acima a VBTP-MR – Viatura de Transporte de Pessoal Média sobre Rodas 6×6 Guyarani e a VBC Cav – Viatura Blindada de Combate de Cavalaria Centauro 2 BR Fotos Exército Brasileiro
Modelos como o Tulpar e Ascod mostram que países de economia intermediária podem desenvolver famílias completas sobre uma mesma base.
Uma plataforma nacional:
- 1. Reduz dependência externa;
- 2. Permite customização doutrinária;
- 3. Gera emprego qualificado;
- 4. Abre mercado de exportação regional.
Plataforma comum: racionalidade logística
Adotar uma família de veículos sobre uma mesma base traz:
- Redução de custo de manutenção;
- Cadeia logística simplificada;
- Treinamento padronizado;
- Maior disponibilidade operacional.
O conceito é simples: um chassi comum, múltiplas missões.
A questão estratégica
O Brasil possui dimensões continentais e responsabilidade regional. Não se trata apenas de dissuasão externa, mas de credibilidade estratégica.
Sem IFV sobre lagartas, brigadas blindadas ficam incompletas.
Completamente dependentes de soluções improvisadas.
Vulneráveis a ameaças assimétricas modernas.
Carros de combate continuam relevantes. Mas isolados, são apenas plataformas blindadas de alto valor — e alto risco.
O IFV sobre lagartas não é luxo. É requisito estrutural do combate blindado moderno.
Se o Brasil deseja manter brigadas blindadas com capacidade operacional plena, precisa decidir:
- Ou aceita uma lacuna operacional crítica,
- Ou desenvolve e produz sua própria família de veículos pesados.
Chegou a hora da decisão
A janela industrial e estratégica está aberta.
A questão é se haverá decisão política para atravessá-la. E aqui os decisores principais não estão no Palácio do Planalto, mas no “Forte Apache”
A Cavalaria e a Infantaria Blindada não devem mais olhar para trás, ficando presas a velhas doutrinas e tecnologias da época da Guerra Fria. Chegou o momento de atravessar o seu Rubicão e se preparar para adquirir e operar meios modernos e de forma conjunta e indissociável pelas próximas décadas. É e única forma de poderem lutar e vencer na guerra moderna. Pensar diferente disso é ignorar a realidade dos fatos. Na guerra moderna, sem a presença de IFVs, mísseis antitanque. drones armados ou kamikazes transformam rapidamente pesados Main Battle Tanks em peças de ferro retorcido, fogo e fumaça. E isso queremos evitar.





















