A dinâmica da guerra Rússia-Ucrânia: recuperação pontual de territórios pela Ucrânia e sinais de maior assertividade russa ampliam a instabilidade estratégica europeia

Informações recentes indicam que forças ucranianas conseguiram retomar posições anteriormente sob controle russo em setores específicos da linha de contato.

Ainda não há confirmação oficial de uma contraofensiva estratégica em larga escala, mas os movimentos sugerem capacidade ofensiva localizada. Paralelamente, serviços de inteligência suecos alertam para ações russas consideradas cada vez mais arriscadas e imprudentes, ampliando o espectro de risco para além do teatro ucraniano.

Recuperações territoriais: ações táticas ou preparação para operação mais ampla?

Relatos recentes apontam que forças ucranianas retomaram posições em áreas do leste e sudeste do país, revertendo ganhos obtidos por tropas russas nas semanas anteriores. Trata-se, até o momento, de ações localizadas, com caráter tático-operacional, e não de uma contraofensiva oficialmente declarada por Kyiv.

Do ponto de vista militar, três hipóteses estratégicas se apresentam:

  • Ações de ajuste de linha de contato: operações limitadas com objetivo de melhorar posições defensivas e encurtar linhas logísticas.
  • Testes de vulnerabilidade russa: sondagens ofensivas para avaliar consistência das defesas adversárias e resposta de comando e controle.
  • Preparação de ambiente para ofensiva futura: criação de condições táticas favoráveis para eventual operação de maior escala.

É importante destacar que, no contexto atual, qualquer avanço territorial — ainda que limitado — possui impacto psicológico e político relevante. Em um conflito de atrito prolongado, pequenas variações no terreno podem influenciar narrativas estratégicas e cálculos diplomáticos.

A retomada de áreas específicas também impõe custos à Rússia, especialmente no que diz respeito à redistribuição de reservas, reposicionamento de artilharia e reforço logístico. Contudo, ainda não há elementos suficientes para caracterizar formalmente uma contraofensiva estratégica em curso.

Nesta foto, fornecida pela 65ª Brigada Mecanizada da Ucrânia, um MRLS BM-21 “Grad” está preparado para disparar contra as posições do exército russo na região de Zaporizhzhia, 2 de janeiro de 2026 Andriy Andriyenko/Ukrainian 65 Mechanized brigade

Operação de engano cibernético expõe terminais Starlink utilizados por forças russas

No contexto da disputa tecnológica paralela ao conflito convencional, uma operação conduzida por elementos das forças cibernéticas ucranianas teria explorado vulnerabilidades operacionais relacionadas ao uso irregular de terminais Starlink por tropas russas.

Após a perda de acesso não autorizado ao sistema Starlink — em decorrência da implementação, por Kyiv, de um regime obrigatório de registro e de um sistema de “lista branca” para validação de terminais — operadores russos passaram a buscar alternativas para restabelecer a conectividade.

Segundo comunicado divulgado por fontes ucranianas, um grupo ligado às capacidades cibernéticas de Kyiv teria conduzido uma operação de engenharia social, simulando um serviço de ativação supostamente vinculado à Federação Russa. A iniciativa oferecia suporte para reativação de terminais que haviam sido desabilitados em função das novas exigências de registro impostas pelas autoridades ucranianas.

No curso da operação, militares e operadores russos teriam sido orientados a fornecer dados de identificação, além de coordenadas geográficas associadas aos terminais, sob a alegação de que os dispositivos seriam reativados por meio de canais administrativos apropriados.

De acordo com a versão ucraniana, foram coletados aproximadamente 2.420 conjuntos de dados técnicos relativos aos terminais em uso por forças russas. As informações teriam sido repassadas às autoridades de defesa e segurança da Ucrânia para análise e posterior neutralização técnica dos equipamentos.

O procedimento descrito como transferência para “modo brick” refere-se à inutilização remota e permanente dos terminais, tornando-os inoperantes na rede.

Ainda segundo o grupo responsável pela ação, parte dos militares russos envolvidos teria realizado pagamentos — estimados em cerca de 5 mil euros no total — para viabilizar a suposta reativação do serviço. Os valores teriam sido direcionados a campanhas de financiamento para aquisição de drones ucranianos.

A operação também teria permitido a identificação de 31 cidadãos ucranianos acusados de colaborar com forças russas por meio do registro irregular de terminais. As informações teriam sido encaminhadas ao Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) para investigação e eventuais medidas legais.

A ação evidencia o grau de sofisticação da dimensão cibernética e informacional do conflito. O uso de engenharia social para coleta de dados técnicos e georreferenciados demonstra que a guerra na Ucrânia transcende o domínio cinético, incorporando operações de inteligência digital e contrainteligência tecnológica.

Se confirmados, os eventos reforçam três tendências estratégicas:

  1. A crescente dependência de conectividade satelital no campo de batalha moderno;
  2. A vulnerabilidade operacional decorrente de falhas de controle e autenticação;
  3. A consolidação do ciberespaço como vetor decisivo de degradação de capacidades militares adversárias.

O episódio também sublinha o papel crítico de sistemas comerciais de comunicação via satélite na guerra contemporânea, ampliando o debate sobre regulação, controle de uso dual e implicações estratégicas para atores estatais e privados.

Um militar ucraniano, apelidado de Bakeneko, estabelece comunicações via satélite antes de um ataque de drones nos arredores de Kremmina, Ucrânia, domingo, 20 de agosto de 2023 AP Photo

Inteligência sueca e o alerta sobre comportamento russo mais arriscado

Paralelamente à dinâmica do campo de batalha, o serviço de inteligência sueco alertou que a Rússia estaria adotando um comportamento cada vez mais arriscado e imprudente em sua atuação externa.

Segundo o relatório, Moscou:

  • Enxerga-se em um confronto estratégico prolongado com o Ocidente;
  • Intensifica operações híbridas, incluindo ciberataques, desinformação e possíveis ações contra infraestrutura crítica;
  • Demonstra disposição para assumir maior risco calculado, inclusive em áreas próximas ao Báltico.

Esse alerta é particularmente sensível considerando o novo posicionamento estratégico da Suécia dentro do ambiente de segurança europeu ampliado pela guerra na Ucrânia. O diagnóstico sugere que, mesmo que o conflito no território ucraniano entre em nova fase, o comportamento russo no entorno europeu pode manter — ou ampliar — o nível de tensão.

Convergência dos vetores: instabilidade estrutural prolongada

A combinação de dois fatores — ganhos táticos ucranianos e avaliação de maior assertividade russa — aponta para um cenário de prolongamento da instabilidade.

Alguns elementos merecem atenção:

  • A guerra permanece em fase de desgaste, com avanços territoriais graduais e alto custo humano e material.
  • A dimensão híbrida do conflito se expande, afetando países fora do teatro direto de operações.
  • O risco de escalada indireta permanece latente, especialmente no flanco norte e leste da Europa.

Não há, no momento, indicativos conclusivos de ruptura estratégica decisiva para qualquer dos lados. O conflito mantém características de guerra prolongada, com oscilações táticas e elevado grau de imprevisibilidade política.

Conclusão

Os recentes ganhos territoriais da Ucrânia devem ser interpretados com cautela analítica: representam êxito tático relevante, mas ainda não configuram formalmente uma contraofensiva estratégica declarada. Ao mesmo tempo, o alerta dos serviços de inteligência suecos reforça a percepção de que a Rússia mantém postura confrontacional ampliada, inclusive fora do território ucraniano.

O cenário europeu permanece marcado por competição estratégica intensa, risco híbrido crescente e ausência de solução política de curto prazo.

Fontes:

“Ucrânia intensifica contraofensiva para reconquistar territórios às tropas russas”, MSN Notícias (portal de redistribuição de conteúdo internacional). “Serviços secretos suecos alertam para ações da Rússia cada vez mais arriscadas e imprudentes”, MSN Notícias (portal de redistribuição de conteúdo internacional).

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