O Brasil despede-se de um de seus mais relevantes líderes navais contemporâneos. Faleceu, aos 82 anos, o Julio Soares de Moura Neto, Almirante de Esquadra da reserva e ex-Comandante da Marinha do Brasil. Sua trajetória, que ultrapassou cinco décadas de serviço ativo, foi marcada por visão estratégica, liderança institucional e defesa consistente do mar como eixo estruturante do desenvolvimento e da soberania nacional.
Formação e Ascensão na Carreira Naval
Nascido no Rio de Janeiro, em 20 de março de 1943, ingressou na Escola Naval ainda jovem e foi declarado Guarda-Marinha em 15 de agosto de 1964 — período de profundas transformações políticas e estratégicas no Brasil. Ao longo da carreira, galgou todos os postos hierárquicos até alcançar o ápice da carreira naval, sendo promovido a Almirante de Esquadra em 31 de março de 2003.
Sua trajetória funcional percorreu comandos operativos no mar e funções estratégicas em terra. Entre os cargos de maior relevância estiveram o Comando do 6º Distrito Naval, o Comando da 1ª Divisão da Esquadra, a Diretoria de Hidrografia e Navegação e o Comando de Operações Navais — postos que exigem não apenas competência técnico-militar, mas capacidade de coordenação interagências e visão sistêmica do poder marítimo.
O Comando da Marinha (2007–2015): consolidação estratégica
Em 2007, assumiu o Comando da Força Naval, função que exerceu até 2015. Seu período à frente da instituição coincidiu com uma fase de redefinição estratégica da política marítima brasileira.
Sob sua liderança, consolidou-se o conceito de Amazônia Azul, expressão que passou a sintetizar a dimensão geopolítica, econômica e ambiental da área marítima sob jurisdição brasileira. Mais do que um slogan institucional, a Amazônia Azul foi tratada como patrimônio estratégico, cuja proteção envolve defesa, ciência, tecnologia e exploração sustentável de recursos.
Nesse contexto, avançou o Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), estruturante para a construção de submarinos convencionais e para o desenvolvimento do submarino de propulsão nuclear brasileiro — projeto diretamente vinculado ao fortalecimento do Programa Nuclear da Marinha. Trata-se de uma iniciativa com implicações estratégicas profundas: dissuasão, proteção de rotas marítimas, segurança de infraestruturas críticas e salvaguarda das reservas energéticas offshore.
Paralelamente, houve esforços para a recuperação da capacidade operacional da Esquadra, expansão de sistemas de monitoramento marítimo e incremento da participação brasileira em operações internacionais, reforçando o perfil expedicionário e a interoperabilidade da Força.

Dimensão Humana e Modernização Institucional
Sua gestão também foi marcada por avanços institucionais relevantes. Destacam-se a ampliação das oportunidades para as mulheres na carreira naval e o fortalecimento do preparo expedicionário dos Fuzileiros Navais em missões de paz e operações multinacionais.
Essas iniciativas sinalizaram uma compreensão contemporânea do poder naval: não apenas plataformas e sistemas, mas capital humano qualificado e adaptado às novas demandas estratégicas.
Atuação Pós-Comando: Mentalidade Marítima
Mesmo após deixar o comando, manteve-se ativo na promoção dos interesses marítimos nacionais. Como Coordenador Executivo do Centro de Excelência para o Mar Brasileiro (Cembra), dedicou-se à difusão da mentalidade marítima — conceito que articula consciência nacional, educação oceânica, pesquisa científica e inovação tecnológica.





















