Alemanha em transformação Estratégica: da cautela histórica ao Projeto do Maior Exército da Europa. Se no Pacífico evocamos o “Retorno do Samurai” para simbolizar a inflexão estratégica japonesa, na Europa a metáfora da águia cumpre papel semelhante. A águia — símbolo tradicional do Estado alemão — não representa expansão ideológica, mas a consolidação de uma postura estratégica mais assertiva.
Ricardo Fan — Analista de Defesa – Defesanet
No início de 2026, a Alemanha está implementando um movimento de profunda transformação em sua política de defesa — uma guinada estratégica que rompe com décadas de restrições militares e retoma uma função de liderança na arquitetura de segurança europeia.
O episódio do podcast DW Revista intitulado “Alemanha começa a erguer maior exército da Europa”, produzido pela Deutsche Welle em português, captou esse momento histórico, destacando o esforço alemão por um posicionamento militar mais robusto e preparado para os riscos do século XXI.
A Nova Postura de Defesa Alemã
Tradicionalmente marcada por uma postura defensiva e pautada por restrições constitucionais decorrentes do pós-Segunda Guerra Mundial, a política militar alemã vive uma mudança de paradigma.
O chanceler Friedrich Merz e sua administração promoveram uma reorientação explícita: transformar a Bundeswehr na força convencional mais forte da Europa — uma afirmação repetida em discursos oficiais e coberturas analíticas da mídia internacional.
A mudança está ligada a fatores geopolíticos claros:
- A invasão russa da Ucrânia em 2022, que evidenciou a vulnerabilidade da segurança europeia e o papel limitado até então desempenhado por Berlim;
- A percepção crescente de que a OTAN não pode depender indefinidamente dos EUA como garante único de segurança no continente;
- Uma reconfiguração das prioridades estratégicas dentro da União Europeia e da própria Alemanha, com foco em capacidades de dissuasão e prontidão militar.

Expansão de Capacidades e Recursos
O mais ambicioso elemento desse reposicionamento é a extensão da capacidade militar alemã — não apenas quantitativa, mas qualitativa. Relatórios recentes indicam:
- Planos para expandir o contingente de soldados ativos de cerca de 184 mil para 260 mil até meados da década, com reforço significativo das reservas.
- Um esforço de modernização que envolve aquisição massiva de meios mecanizados, veículos de combate, sistemas de defesa aérea e capacidades de comando e controle.
- Elevação do gasto militar para patamares historicamente inéditos desde a Guerra Fria, com fundos especiais que permitem superar restrições orçamentárias tradicionais.
Esse esforço coloca a Bundeswehr em destaque no mapa militar europeu, desafiando a ideia de que a Alemanha poderia permanecer um ator periférico em matéria de poder militar convencionado. A Alemanha está se preparando para influenciar decisivamente a estratégia de defesa do continente e reforçar a prontidão coletiva da OTAN.

Desafios Internos e Debates Sociais
A ambição de construir uma força militar poderosa não se dá sem contradições. Internamente, a Alemanha ainda enfrenta debates intensos sobre a reintrodução do serviço militar obrigatório, resistência cultural a políticas assertivas de defesa e uma população dividida sobre o papel das forças armadas no futuro do país.
Pesquisas indicam que, embora o apoio à segurança coletiva aumente, segmentos importantes da sociedade ainda se opõem à ideia de um exército ampliado e mais visível.
Esses debates refletem uma tensão entre o legado histórico de pacifismo e a nova consciência estratégica de que a segurança europeia enfrenta riscos autênticos — riscos que Berlim agora afirma estar pronta para enfrentar, inclusive liderando este esforço em conjunto com aliados.
Implicações Geopolíticas
A Alemanha, ao se posicionar dessa forma, envia múltiplas mensagens ao cenário internacional:
- Aos aliados: uma disposição renovada para dividir encargos de defesa e, potencialmente, liderar iniciativas multilateralmente, especialmente no flanco oriental da OTAN.
- Aos adversários (notadamente a Rússia): um sinal de que o leste europeu não permanecerá indefeso e que o centro político e econômico da UE está disposto a dissuadir agressões.
- À comunidade euro-atlântica: uma chamada à coesão estratégica, mesmo diante de incertezas sobre a direção futura da política externa dos EUA.
Esse reposicionamento — que muitos analistas definem como o fim de décadas de reticência militar alemã — pode reequilibrar a balança de poder em uma Europa que busca autonomia estratégica sem romper pilares tradicionais como a aliança transatlântica.
A transformação da Bundeswehr indica que Berlim não deseja apenas cumprir metas formais da OTAN, mas liderar o esforço de estabilização continental. A “águia” pousa não como símbolo de conquista, mas como marco de prontidão estratégica.
Se durante décadas a Alemanha optou por uma identidade de potência civil, agora ela ensaia a consolidação de uma identidade de potência responsável — capaz de combinar diplomacia, capacidade industrial e força militar credível.
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Nota analítica: O “Retorno do Samurai” — Japão em Expansão Militar no Pacífico
Enquanto a Europa debate sua segurança continental, o Japão também protagoniza uma mudança de paradigma em outro teatro decisivo: o Indo-Pacífico. Após décadas de restrições constitucionais herdadas do pós-Segunda Guerra Mundial, o governo japonês anunciou um dos maiores programas de modernização militar desde 1945:
- Planos plurianuais de investimentos que podem transformar as Forças de Autodefesa de Tóquio em uma das mais bem equipadas do mundo, com capacidades de projeção de poder e dissuasão no mar, no ar e no ciberespaço.
- Aquisições de mísseis com alcance estratégico, investimentos em sistemas de defesa e preparativos para uma postura mais proativa diante das ameaças percebidas de China e Rússia;
- Uma narrativa oficial que descreve essas medidas como uma resposta direta à volatilidade regional e como forma de assegurar a integridade territorial e as rotas marítimas vitais do comércio global.
Este movimento japonês, observado por analistas como uma reconfiguração da “identidade militar” do país, espelha em outro contexto a lógica que também impulsiona a Alemanha: enfrentar ameaças concretas e preencher lacunas percebidas na arquitetura de segurança global.
Assim como Berlim busca ser um pilar de estabilidade na Europa, Tóquio mostra que o “retorno do Samurai” no Pacífico — figurativamente falando — está associado à necessidade de adaptação a um ambiente estratégico mais competitivo e incerto. Ambos os casos ilustram como potências econômicas estão dispostas a repensar tradições e restrições para garantir sua segurança e influenciar estruturas regionais de poder.
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Nota do autor — Sobre o uso da expressão “A Águia Pousou”
A expressão “A Águia Pousou” é utilizada neste artigo em sentido estritamente metafórico. A referência dialoga com o título do filme The Eagle Has Landed, baseado no romance homônimo de Jack Higgins, cuja narrativa ficcional retrata uma operação especial alemã durante a Segunda Guerra Mundial.
Embora a trama seja fictícia, o enredo se inspira indiretamente no histórico de operações de forças especiais alemãs conduzidas no período — particularmente ações associadas a Otto Skorzeny, oficial da SS que ganhou notoriedade internacional após o resgate de Benito Mussolini na Operação Carvalho, em 1943. O romance e o filme capturam esse imaginário de operações de comando audaciosas, ainda que não retratem eventos históricos específicos.
No contexto desta análise, entretanto, a metáfora da “águia” não carrega qualquer conotação ideológica ou revisionista. A referência simbólica remete ao emblema histórico do Estado alemão, hoje presente no brasão federal da Alemanha, e serve apenas para ilustrar o reposicionamento estratégico contemporâneo do país.
O termo é empregado para sinalizar a consolidação do protagonismo militar alemão na arquitetura de segurança europeia, especialmente por meio do fortalecimento da Bundeswehr e de sua atuação no âmbito da OTAN — sem qualquer paralelo normativo com regimes ou projetos históricos do passado.
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