Defesa Antiaérea de Baixa Altura em Xeque: Por que o Brasil Precisa Repor seus Mísseis Antiaéreos — e se deve mesmo Trocar o IGLA-S

Solenidade do Dia do Exército 2022, desfile em Brasília DF Foto CECOMSEx


SINOPSE

Com estoques praticamente esgotados de mísseis portáteis de defesa antiaérea, o Brasil enfrenta uma decisão estratégica urgente. Após mais de três décadas operando o Igla-S (hoje também fabricado na Índia sob licença), as Forças Armadas avaliam alternativas como o Stinger americano ou o Mistral europeu, sistemas significativamente mais caros. A questão central é se faz sentido romper uma doutrina consolidada e pagar mais por um ganho operacional limitado, em um momento em que rapidez, custo-benefício e autonomia são fatores críticos.

UM VAZIO PERIGOSO NA DEFESA ANTIAÉREA BRASILEIRA

A defesa antiaérea de baixa altura das Forças Armadas Brasileiras atravessa um momento delicado. Os estoques de mísseis portáteis — os chamados MANPADS — encontram-se no limite de sua vida útil ou praticamente esgotados, criando uma lacuna operacional incompatível com a dimensão do território nacional e a diversidade de cenários de emprego militar.

Na prática, o Brasil passou a depender quase exclusivamente do RBS-70, sistema de defesa antiaérea de origem sueca amplamente respeitado. Robusto e preciso, ele cumpre bem seu papel em determinados contextos. Mas não substitui um MANPADS clássico, portátil e de resposta imediata, como o Igla-S, que durante décadas foi o pilar da defesa antiaérea de baixa altura brasileira.

A diferença não é apenas técnica — é conceitual. Enquanto o RBS-70 exige que o operador mantenha o alvo sob acompanhamento contínuo até o impacto do míssil, o Igla-S opera no regime “disparou e esqueceu”, permitindo ao combatente deslocar-se imediatamente após o lançamento.

Em ambientes como selva, litoral ou áreas urbanas densas, essa diferença pode ser decisiva.

TRINTA ANOS DE EXPERIÊNCIA NÃO SE DESCARTAM FACILMENTE

O Brasil adotou sistemas da família Igla ainda nos anos 1990. Desde então, o Igla-S foi plenamente integrado à doutrina, ao treinamento e à logística das três Forças. Há pessoal treinado, instrutores experientes, infraestrutura instalada e procedimentos consolidados.

Trocar de sistema não significa apenas adquirir um novo míssil. Implica rever manuais, capacitar novamente centenas de militares, adaptar instalações e reconstruir uma cadeia logística inteira. Em tempos normais, isso já seria um desafio. Em um cenário de urgência operacional, torna-se um fator crítico.

O MERCADO INTERNACIONAL E O PESO DO PREÇO

Nos últimos cinco anos, diversos países adquiriram novos MANPADS ou repuseram seus estoques. A comparação dos custos é reveladora.

O Stinger, principal sistema portátil de defesa antiaérea dos Estados Unidos, vendido por meio do programa governamental Foreign Military Sales (FMS), apresenta preços médios que variam entre US$ 1,0 milhão e US$ 1,4 milhão por míssil, considerando pacotes completos.

O Mistral 3, de fabricação europeia, surge como alternativa intermediária, com valores médios entre US$ 650 mil e US$ 750 mil por míssil.

o Igla-S, atualmente fabricado na Índia sob licença, aparece em propostas e contratos recentes com preços médios na faixa de US$ 350 mil a US$ 430 mil por míssil, dependendo do escopo.
Essa diferença não é marginal: um Stinger pode custar de três a quatro vezes mais que um Igla-S.

CONTINUIDADE OU RUPTURA: A ESCOLHA QUE O BRASIL PRECISA FAZER

Diante desse cenário, o Brasil tem basicamente três caminhos: manter a continuidade com o Igla-S, migrar para o Stinger ou optar pelo Mistral. Cada escolha traz implicações distintas.

A migração para o Stinger não envolve apenas um míssil mais caro. O FMS é, antes de tudo, um instrumento de política externa dos Estados Unidos. Ele oferece pacotes logísticos completos, suporte técnico governamental e interoperabilidade com aliados da OTAN, mas cria uma relação institucional de longo prazo, com custos elevados e menor autonomia para o país comprador.

O Mistral, por sua vez, é um sistema moderno e confiável, amplamente utilizado na Europa. Ainda assim, seus custos são significativamente superiores aos do Igla-S, e os ganhos operacionais no contexto brasileiro não parecem proporcionais ao investimento adicional exigido.

Nesse contexto, a continuidade do Igla-S surge como uma opção
pragmática. A indústria indiana apresentou ao Brasil uma proposta para fornecimento de um novo lote em quantidade compatível com as necessidades nacionais, incluindo atualização de infraestrutura, treinamento completo, suporte logístico e manutenção — escopo semelhante ao associado a sistemas ocidentais, porém a um custo substancialmente inferior.

RBS-70 NÃO BASTA: SISTEMAS DIFERENTES PARA MISSÕES DIFERENTES

É importante esclarecer um ponto frequentemente negligenciado no debate público: o RBS-70 não substitui um MANPADS como o Igla-S. São sistemas complementares, não concorrentes.

O Brasil precisa de ambos. O RBS-70 atende bem a posições mais estruturadas e a determinados perfis de ameaça. O Igla-S, por sua vez, oferece mobilidade, flexibilidade e rapidez de reação — qualidades essenciais para um país com as características geográficas do Brasil.

A ausência de um MANPADS portátil, passivo e de rápida resposta cria uma vulnerabilidade que o RBS-70, por si só, não resolve.

UMA DECISÃO QUE NÃO PODE MAIS SER ADIADA

A reposição dos estoques de mísseis antiaéreos de baixa altura no Brasil deixou de ser uma discussão teórica. Trata-se de uma necessidade urgente. O debate, portanto, não deveria se concentrar apenas em qual sistema é “mais moderno” ou “mais alinhado geopoliticamente”, mas em qual solução oferece o melhor equilíbrio entre custo, desempenho, autonomia e rapidez de implementação.

À luz dos dados disponíveis, a substituição do Igla-S por sistemas significativamente mais caros levanta uma pergunta incômoda: por que pagar mais por um ganho operacional limitado, especialmente quando essa escolha implicaria maior dependência externa, prazos mais longos de implantação e a necessidade de reconstruir doutrina, treinamento e infraestrutura já consolidados?

Em defesa antiaérea, como em tantas outras áreas militares, o equipamento mais caro não é necessariamente o mais adequado. Para o Brasil, que precisa recompor capacidades perdidas com rapidez e responsabilidade, a decisão passa menos por alinhamentos políticos e mais por pragmatismo estratégico. Repor estoques, preservar autonomia operacional e garantir proteção eficaz de baixa altura são objetivos imediatos — e a continuidade com o Igla-S atende a esses critérios de forma mais direta e racional

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