O encontro Lula-Trump e a inevitável pauta da presença militar americana no nordeste brasileiro

Análise exclusiva DefesaNet das implicações estratégicas da pauta da prevista na visita do Presidete Lula à Washington, no próximo mês de março 2026. Foto o USCGC 578 Stone visitando o porto de Suape/PE, sendo observado por membros da Marinha do Brasil, em janeiro 2023, posteriormente visitou o porto do Rio de Janeiro, em março do mesmo ano. Foto Marinha do Brasil

DefesaNet
Brasília, 01 de Fevereiro de 2026

A reconfiguração do cenário de segurança global, caracterizada pelo retorno da competição entre grandes potências, recolocou o Atlântico Sul no centro do planejamento estratégico do Pentágono. A visita oficial do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Washington, D.C., agendada para março de 2026 à um encontro bilateral com o Presidente Donald J. Trump, estabelece um novo marco nas relações hemisféricas, pois combina o tradicional realismo ofensivo com a pragmática do combate às ameaças híbridas.

Neste cenário, a “guerra às drogas” deixa de ser apenas uma política de segurança pública para se tornar o principal instrumento de soft power coercitivo visando a obtenção de Forward Operating Locations (FOLs) ou Cooperative Security Locations (CSLs) em território brasileiro. A pressão diplomática esperada não deve ser interpretada isoladamente, mas como parte de um continuo histórico que remonta à Segunda Guerra Mundial, onde o saliente nordestino brasileiro foi identificado como o “Trampolim da Vitória“, vital para o controle das Linhas de Comunicação Marítimas (SLOCs) do Atlântico.

O substrato fático que ancora a pressão de Washington reside na explosão do tráfico marítimo de entorpecentes no “Saliente Nordestino“. Dados consolidados do primeiro bimestre de 2026 revelam uma mudança de escala: a apreensão de quase 10 toneladas de cocaína em um único navio de bandeira estrangeira em janeiro de 2026, interceptado após escala no Porto do Mucuripe (CE), sinaliza que o litoral entre o Ceará e o Rio Grande do Norte consolidou-se como a principal “zona de transbordo” para a rota transatlântica. Relatórios de inteligência indicam que, em 2025, aproximadamente 93% da cocaína apreendida em zonas aduaneiras cearenses concentrou-se nos complexos portuários de Pecém e Mucuripe, utilizando táticas de rip-on/rip-off com a conivência de infraestruturas locais contaminadas.

Sob a ótica norte-americana, a incapacidade do Estado brasileiro em assegurar o mar territorial e a Zona Econômica Exclusiva (ZEE) contra o que denominam “ameaça existencial às democracias ocidentais” justifica a proposta de uma presença militar permanente. A administração Trump ressuscita o conceito de “direito histórico de retorno operacional”, argumentando que os investimentos bilionários realizados pelos EUA nestas mesmas localidades durante a Segunda Guerra Mundial conferem a Washington uma prerrogativa técnica para a modernização e gestão dessas infraestruturas em tempos de crise global e a segurança interna dos Estados Unidos.

A narrativa norte-americana tende a argumentar que a Marinha do Brasil, apesar de sua competência profissional, carece de meios navais e aéreos em quantidade suficiente para patrulhar eficazmente a imensidão da Zona Econômica Exclusiva (ZEE) e as águas internacionais adjacentes, oferecendo, portanto, uma “parceria operacional” que incluiria ativos da U.S. Navy, U.S. Marine Corps, U.S. Air Force, U.S. Coast Guard (USCG) e agências como a Drug Enforcement Administration (DEA).

Contudo, sob a lente da inteligência estratégica, a oferta de ajuda no combate ao narcotráfico mascara o objetivo primário de negação de área e controle de tráfego marítimo. A geografia do Atlântico Sul impõe uma tirania da distância que apenas bases avançadas podem mitigar. O “Estreito do Atlântico” (Atlantic Throat), a linha imaginária que conecta Natal a Dakar (Senegal), representa o ponto de estrangulamento (choke point) mais crítico entre o Hemisfério Ocidental e o Oriente através da rota do Cabo. Com uma distância aproximada de 1.600 milhas náuticas (cerca de 3.000 km), esta passagem é vital para o comércio global e para a manobra de frotas navais. O controle operacional, ainda que compartilhado, da Base Aérea de Natal e de instalações em Fernando de Noronha permitiria aos Estados Unidos fechar o “arco de vigilância” do Atlântico Sul, complementando a base de Ascensão (controlada pelo Reino Unido/EUA).

A análise logística e náutica reforça o interesse norte-americano. Um National Security Cutter da Guarda Costeira dos EUA, classe Legend, possui um alcance de 12.000 milhas náuticas, mas sua eficácia em operações de interdição (VBSS – Visit, Board, Search, and Seizure) depende de suporte aéreo orgânico e de inteligência de sinais (SIGINT) persistente. Fernando de Noronha, situado a aproximadamente 360 km da costa continental e projetado sobre a Dorsal Mesoatlântica, oferece uma plataforma insubmergível para a instalação de radares de horizonte (NG-OTH – Next Generation Over The Horizon) da Raytheon com tecnologia de antenas 2D e IA capazes de filtrar o ruído ionosférico, aeronaves de asa fixa e rotativa para reconhecimento e ataque, e implementação de sensores de vigilância eletrônica capazes de monitorar não apenas o tráfego de superfície ilícito, mas também movimentações de submarinos e frotas de potências extra-regionais, como a China, cuja presença no Atlântico Sul tem crescido via diplomacia portuária na África e pesca em águas distantes. A operação de aeronaves de patrulha marítima P-8 Poseidon a partir de Natal ou Noronha aumentaria exponencialmente a Maritime Domain Awareness (MDA) dos Estados Unidos na região, cobrindo o “vazio” de vigilância existente ao sul da Linha do Equador.

Nota DefesaNet – A empresa brasileira IACIT, São José dos Campos/SP, desenvolveu a tecnologia de radares OTH com instalação teste no extremo sul da costa brasileira, Farol de Albardão (RS).

Matematicamente, a equação logística é clara, e a racionalidade técnica por trás dessa demanda de posse operacional é evidenciada por um rigoroso cálculo de projeção de poder aéreo e logística de sustentação. Atualmente, a projeção de um vetor de quinta geração, como o F-35C Lightning II, ou de superioridade aérea, como o F/A-18E/F Super Hornet, a partir da Estação Naval de Jacksonville, na Flórida, até o entorno de Fernando de Noronha (uma distância aproximada de 3.600 milhas náuticas), impõe um fardo logístico insustentável para operações de patrulha persistente.

O programa Deepwater lançado em 2002, em 2005 foi estendido pelo evento da 11Set, projetou o Legend Class National Security Cutter. ao todo serão 91 navios programados. Com as caraterísticas: comprimento 127.4m, deslocamento de 4.500t a plena carga.  Pode acomodar uma tripulação de 120 marinheiros. Consegue uma velocidade de 28 nós, com uma turbina a gas LM-2500 e dois motrores diesel. As missões previstas são: homeland security, manutenção da lei, patrulhas, segurança marítima, proteção ambiental e missões de defesa nacional. Na foto o USS CG 758 Stone que já operou em conjunto com a Marinha do Brasil 2023.

Considerando uma velocidade de cruzeiro de Mach 0.85, o tempo de deslocamento seria superior a 7 horas apenas de ida, exigindo no mínimo quatro reabastecimentos em voo (REVO) por aeronave para manter margens de segurança e capacidade de combate. Em contrapartida, a partir da Base Aérea de Natal ou de pista operacional em Noronha, o tempo de resposta para interceptação na “garganta do Atlântico” reduz-se para 20 a 25 minutos, eliminando a dependência crítica de aviões-tanque. A economia de meios é brutal: a posse operacional de Noronha equivale, em termos de persistência de combate, a manter dois grupos de batalha de porta-aviões em estação permanente na região, sem o custo de manutenção de frota, e permanecendo dentro do continente americano.

Contudo, a ambição estratégica de Washington não se encerra no arquipélago noronhense. O objetivo final do dispositivo militar pretendido estende-se até o arquipélago de Trindade e Martim Vaz, situada a cerca de 600 milhas náuticas da costa do Espírito Santo. Trindade representa a “sentinela do fundo”, um posto avançado sobre a Cordilheira Mesoatlântica que, se operado sob o controle da U.S. Navy e do U.S. Marine Corps (USMC), fecharia o triângulo de vigilância eletrônica e acústica (SIGINT/ELINT) sobre todo o tráfego marítimo que contorna o Cabo da Boa Esperança, que contaria com apoio total ou parcial do Reino Unido.

A integração de radares de longo alcance, aeronaves de reconhecimento e ataque, aliados a sonares de profundidade e capacidade de negação de área (A2/AD) do USSOUTHCOM em Trindade, coordenada com demais ativos de inteligência e ataque em Natal e Noronha, permitiria aos EUA uma consciência situacional marítima (MDA) absoluta sobre a Amazônia Azul, neutralizando não apenas o narcotráfico, mas monitorando as movimentações submarinas de potências rivais que buscam estabelecer influência na África Ocidental e na Margem Equatorial brasileira.

Do ponto de vista jurídico, a abordagem norte-americana com Lula em março será sofisticada, evitando a terminologia de “anexação” em favor de “zonas de segurança compartilhada” ou Cooperative Security Locations (CSLs) com autoridade de comando unificada. A doutrina de segurança nacional de Trump fundamenta-se em leis internas, como o Maritime Drug Law Enforcement Act (MDLEA) de 1986, e busca em acordos de cooperação técnica (SOFAs) as brechas para o exercício da jurisdição militar estrangeira sobre pessoal e território em missões de “policiamento global”. A estratégia diplomática visa convencer o Parlamento brasileiro de que a cessão da gestão operacional de Noronha e Natal ao U.S. Southern Command (SOUTHCOM) é a única via para estancar a sangueira logística do crime organizado, utilizando a crise de segurança interna do Brasil como alavanca para a obtenção de concessões de longo prazo.

A análise histórica revela que esse movimento é cíclico e previsível. Em 1941-1945, a cessão de bases no Nordeste foi negociada em troca de reequipamento militar e industrialização (CSN e FNM). Durante a Guerra Fria, a presença foi mantida de formas mais sutis, através de treinamento e doutrina. No século XXI, a justificativa mudou do comunismo para o terrorismo e, agora, para o crime organizado transnacional. No entanto, a constante geopolítica permanece: quem controla o saliente nordestino projeta poder sobre todo o Atlântico Sul e a costa ocidental da África. A insistência em Fernando de Noronha é particularmente sensível, pois toca em restrições ambientais severas e na própria constituição e soberania do território nacional. A transformação da ilha em um ponto de apoio militar dos Estados Unidos, mesmo que rotativo, colidiria frontalmente com a legislação ambiental brasileira e com a soberania sobre o mar territorial e a ZEE.

Para os tomadores de decisão brasileiros, a visita presidencial em março de 2026 apresenta um dilema estratégico complexo. A aceitação, mesmo que parcial, da presença militar norte-americana sob a bandeira do combate ao narcotráfico traria benefícios táticos imediatos na repressão ao crime organizado que assola o Ceará e o Rio Grande do Norte, potencialmente reduzindo os fluxos de exportação de cocaína. Entretanto, o custo estratégico seria a alienação de autonomia na política de defesa e o alinhamento automático com as prioridades de segurança dos EUA em um cenário de possível conflito global. A “ajuda” no combate ao tráfico pode se revelar um “cavalo de Troia” para a instalação de capacidades de Intelligence, Surveillance, Reconnaissance and Strike (ISR-S) voltadas não para traficantes, mas para competidores e rivais estatais globais dos Estados Unidos, arrastando o Brasil para o centro de tensões geopolíticas das quais historicamente buscou se distanciar.

Em uma agenda sutil mas com poder de dano para as estratégicas do “SUL GLOBAL” do presidente Lula e seu estrategista-chefe Celso Amorim, Posicionar uam segunda base no Atlãntico Sul frente à crescente ação da Marinha Chinesa, em especial na costa Oriental da África. Colocar o Brasil e Estados Unidos como aliados, mesmo que discretas, em operações de monitoramento das atividades chinesas no Atlântico Sul tira o sono da diupla Lula-Amorim.

Em especial pelas ações dos Estados Unidos sobre a Argentina cerceando as operações chinesas no sul daquele país.


Até o momento não há bases chinesas definidas na costa oriental.
– três países têm instalações portuárias de uso dual, incluindo a estratégica Nigéria.
– 20 portos receberam navios da marinha chinesa
– 15 portos financiados, construídos ou gerenciados por empresas chinesas

Fonte ADF – Africa Defence Forum Ports of Influence November 2025 – Africa Center for Strategic Studies

Em conclusão, a agenda de segurança proposta por Donald Trump deve ser lida nas entrelinhas. O interesse súbito em um ´´fortalecimento da cooperação no combate ao crime organizado´´ no litoral brasileiro é, na verdade, uma manobra de Realpolitik clássica para negar espaço a rivais e garantir a hegemonia no Atlântico Sul. Cabe ao Estado brasileiro, através de seus diplomatas e oficiais generais, discernir entre a cooperação técnica necessária para combater o ilícito transnacional e a subordinação estratégica que compromete a soberania nacional. A resposta brasileira a essas pressões definirá o perfil geopolítico do país para as próximas décadas: se será um ator soberano capaz de policiar suas próprias águas, com investimento real e continuo nas suas Forças Armadas, ou um mero ponto de apoio na grande estratégia de uma superpotência.

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