Portugal inaugura, no âmbito da União Europeia, um novo conceito de plataforma naval centrada em sistemas não tripulados. A Turquia, fora do bloco europeu, já emprega esse modelo como instrumento operacional da OTAN. Dois caminhos distintos para um mesmo fenômeno estratégico: a dronização do campo de batalha naval.
Por Ricardo Fan – Defesanet
A incorporação extensiva de sistemas não tripulados às operações militares deixou de ser uma tendência emergente para se consolidar como um dos principais vetores de transformação da guerra contemporânea.
No domínio naval, esse processo assume especial relevância com o surgimento de plataformas concebidas para operar drones de forma orgânica, contínua e integrada — os chamados porta-drones.
Dois movimentos recentes ilustram com clareza essa evolução: a decisão de Portugal, no âmbito da União Europeia, de colocar em operação a primeira plataforma naval europeia concebida desde a origem para o emprego de sistemas não tripulados; e o emprego do TCG Anadolu, pela Turquia, como navio-capitânia em exercícios navais da OTAN.
Embora frequentemente citados em conjunto, esses casos pertencem a contextos estratégicos distintos. Compreender essa diferença é essencial para analisar, com rigor conceitual e precisão técnica, o fenômeno aqui definido como dronização do campo de batalha naval.
Portugal e a Dronização no Âmbito da União Europeia
Portugal caminha para se tornar o primeiro Estado-membro da União Europeia a operar uma plataforma naval projetada primariamente para o emprego integrado de drones aéreos, de superfície e subaquáticos. O navio NRP D. João II, classificado como Plataforma Naval Multifuncional, representa mais do que uma inovação tecnológica: constitui um marco político-estratégico no interior da UE.
Financiado majoritariamente por recursos europeus, o projeto sinaliza uma mudança relevante na abordagem da segurança marítima do bloco, tradicionalmente dependente de grandes marinhas nacionais para vigilância, dissuasão e presença naval. O porta-drones português materializa um modelo baseado em:
- Vigilância marítima persistente
- Emprego intensivo de sistemas não tripulados
- Redução do risco humano direto
- Elevada flexibilidade operacional com custos controlados
Nesse contexto, a dronização não se expressa como instrumento de poder ofensivo clássico, mas como capacidade estruturante de consciência situacional, resposta a ameaças híbridas e proteção de infraestruturas críticas. Trata-se de uma abordagem coerente com as prioridades estratégicas da UE e com sua busca por maior autonomia operacional no domínio marítimo.



A Turquia e o Emprego Operacional da Dronização no Contexto da OTAN
Em um eixo distinto — porém complementar — encontra-se a Turquia. País que não integra a União Europeia, mas ocupa posição central na OTAN, Ancara opera desde 2023 o TCG Anadolu (L-400), um navio anfíbio de grande porte adaptado para operar drones de combate, helicópteros e forças expedicionárias.
Derivado do projeto espanhol Juan Carlos I, o Anadolu foi progressivamente convertido em uma plataforma de projeção de poder baseada em sistemas não tripulados, incorporando drones de asa fixa e rotativa como elementos orgânicos da doutrina naval turca.
O envio do TCG Anadolu para exercícios navais da OTAN na Europa evidencia que a dronização do campo de batalha naval já ultrapassou o estágio experimental. Entre os principais aspectos observados destacam-se:
- Emprego real do conceito de porta-drones em ambiente multinacional
- Capacidade de comando e controle (C2) anfíbio
- Integração plena a estruturas de aliança
- Projeção de poder com forte componente autônomo
Diferentemente do caso português, a dronização turca está diretamente associada ao emprego de poder duro, sustentada por uma base industrial de defesa nacional e por ambições estratégicas regionais claras.

Dois Vetores da Dronização Naval
A análise comparada dos dois casos revela que a dronização do campo de batalha naval avança por dois vetores principais:
- Vetor político-institucional (União Europeia)
- Representado por Portugal
- Ênfase em vigilância, segurança marítima e inovação
- Forte componente de legitimidade política e cooperação multinacional
- Vetor operacional-militar (OTAN)
- Representado pela Turquia
- Ênfase em projeção de poder, prontidão e interoperabilidade
- Capacidade de comando, combate e presença naval expedicionária
Ambos apontam para uma mesma tendência estrutural: a descentralização do poder naval, a redução da dependência de grandes ativos tripulados de alto valor e a consolidação de redes distribuídas de sensores e vetores não tripulados.
Implicações Estratégicas da Dronização do Campo de Batalha Naval
A dronização impõe mudanças profundas à doutrina naval contemporânea, com implicações diretas para o planejamento estratégico:
- Transição de plataformas centradas em tripulações numerosas para sistemas distribuídos
- Aumento da resiliência operacional
- Maior persistência no domínio marítimo
- Redução de custos relativos de operação e manutenção
- Ampliação do campo de batalha para múltiplos domínios simultâneos
Nesse cenário, o porta-aviões tradicional deixa de ser o único símbolo de supremacia naval, passando a coexistir com plataformas menores, mais flexíveis e intensamente automatizadas.
A dronização do campo de batalha naval não representa uma ruptura isolada, mas uma transformação estrutural em curso. Portugal e Turquia ilustram esse processo por caminhos distintos e complementares. O primeiro inaugura o conceito no interior da União Europeia, conferindo-lhe legitimidade política e institucional. O segundo demonstra sua viabilidade no contexto operacional da OTAN, validando sua eficácia em ambientes de coalizão.
Juntos, esses modelos indicam que o futuro da guerra no mar será definido menos pelo porte das plataformas e mais pela capacidade de integrar sistemas não tripulados, informação, comando e flexibilidade estratégica em um ambiente operacional cada vez mais complexo e disputado.
Quadro Técnico Comparativo – Modelos de Dronização Naval
| Aspecto | Modelo UE – Portugal | Modelo OTAN – Turquia |
|---|---|---|
| Plataforma | NRP D. João II | TCG Anadolu |
| Classificação naval | Plataforma Naval Multifuncional | Navio de Assalto Anfíbio / Porta-Drones |
| Inserção estratégica | União Europeia (UE) | Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) |
| Status institucional | Primeiro porta-drones concebido dentro da UE | Plataforma extra-UE, referência operacional da OTAN |
| Missão primária | Vigilância marítima, ISR, segurança e apoio a missões híbridas | Projeção de poder, comando anfíbio e operações expedicionárias |
| Perfil de emprego | Predominantemente defensivo e de presença | Predominantemente ofensivo e expedicionário |
| Domínios de dronização | Aéreo, superfície e subsuperfície | Aéreo e superfície (com foco em combate) |
| Tipos de drones | ISR, vigilância, monitoramento, UUVs e USVs | Drones armados, ISR, helicópteros não tripulados |
| Integração de combate | Limitada / indireta | Direta, com drones armados |
| Capacidade C2 | Coordenação e controle tático-operacional | Comando e controle anfíbio multinacional |
| Doutrina associada | Segurança marítima, consciência situacional e resposta híbrida | Poder naval expedicionário e guerra centrada em redes |
| Base industrial | Integração multinacional europeia | Forte indústria de defesa nacional |
| Risco humano direto | Muito baixo | Reduzido, porém presente em operações anfíbias |
| Escalabilidade militar | Média | Alta |
| Mensagem estratégica | Inovação, legitimidade política e cooperação europeia | Dissuasão, prontidão e autonomia estratégica |
| Símbolo doutrinário | UE como ator marítimo tecnológico | Turquia como potência naval regional |
Leitura estratégica do quadro
- Portugal representa a dronização como instrumento institucional, voltada à vigilância, segurança marítima e consolidação da autonomia europeia.
- Turquia representa a dronização como instrumento de poder militar, validada em exercícios e estruturas reais da OTAN.
- Ambos os modelos não competem: eles operam em níveis distintos do espectro estratégico, mas convergem na mesma transformação estrutural da guerra naval.
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Nota Editorial – Terminologia e Contexto
Neste artigo, emprega-se o termo dronização do campo de batalha para designar o processo sistemático de incorporação extensiva de sistemas não tripulados às operações militares contemporâneas. A Turquia não é membro da União Europeia, embora integre a OTAN. Assim, o pioneirismo de Portugal como primeiro país da UE a operar uma plataforma concebida como porta-drones permanece plenamente válido, enquanto o caso turco deve ser compreendido como referência operacional extra-UE, no âmbito da Aliança Atlântica.





















