Quando a superioridade não basta: quatro anos da Guerra Rússia–Ucrânia

Por Redação Defesanet

A guerra entre a Rússia e a Ucrânia, que começou em 24 de fevereiro de 2022 com a invasão das tropas russas ao território ucraniano, está prestes a completar quatro anos em março de 2026 — um marco que já ultrapassa, em duração, a participação da Rússia (como União Soviética) na Segunda Guerra Mundial (Grande Guerra Patriótica), que durou cerca de 1418 dias entre 1941 e 1945.

Esse fato, por si só, já chama atenção para a natureza prolongada, custo humano e impasse estratégico desse conflito, colocando sob escrutínio histórico e geopolítico as expectativas iniciais sobre sua duração e desfecho.

Contexto e pendor histórico

A invasão russa de 2022 representou uma mudança dramática nas relações entre estes dois Estados pós-soviéticos. A Rússia alegou razões de segurança e interesses históricos, enquanto a Ucrânia buscava maior integração com o Ocidente e preservação de sua soberania.

Desde então, o conflito evoluiu para uma guerra de grande escala com impactos globais, incluindo sanções severas contra Moscou, grande mobilização de apoio ocidental a Kiev e uma profunda reconfiguração das alianças de segurança na Europa e além.

Inicialmente, muitos analistas ocidentais previam uma vitória russa rápida — uma campanha de semanas ou alguns poucos meses que terminaria com Kiev sob controle russo. Essa expectativa foi baseada, em grande medida, na superioridade numérica e material das forças russas, consideradas entre as maiores da Europa em termos de pessoal, artilharia, blindados e capacidade de fogo.

Quatro anos depois, essa previsão se revelou incorreta.

Estagnação, impasse e custos humanos

1) Frente de combate estática e baixas exponenciais

Em vez de uma campanha rápida, a guerra tornou-se um confronto prolongado de atrito, com linhas relativamente estáticas e avanços territoriais marginais. Grandes batalhas como as de Bakhmut e Severodonetsk evidenciaram combates intensos e sangrentos com ganhos territoriais limitados diante de enormes perdas de vidas e equipamentos.

A resistência ucraniana, a eficácia de sistemas avançados de defesa fornecidos por aliados ocidentais e táticas inovadoras — incluindo o emprego extensivo de drones — complicaram os planos de Moscou. Recentemente, autoridades ucranianas afirmaram que mais de 80% dos ataques bem-sucedidos contra posições russas no campo de batalha são conduzidos por drones, um indicador do grau de adaptação tática de Kiev mesmo diante de disparidade no poder convencional.

2) Superioridade não traduzida em sucesso decisivo

Apesar de sua vantagem inicial em recursos e tamanho de força, a Rússia não conseguiu converter esse potencial em uma vitória militar decisiva. Isso se deve a múltiplos fatores, incluindo:

  • Desempenho militar limitado: dificuldades logísticas, comunicação deficiente e uma estrutura de comando inflexível reduziram a eficácia das unidades russas.
  • Resistência robusta ucraniana: a moral elevada e a adaptação rápida das forças de Kiev, apoiadas por inteligência e armamentos ocidentais, frustraram ofensivas russas que se esperava terem maior sucesso.
  • Custos crescentes: relatos sugerem que a Rússia enfrenta tensões crescentes para sustentar sua força de combate, inclusive recorrendo a bonificações, encarcerados e estrangeiros para reforçar suas fileiras — um sinal de que o esforço de guerra está pressionando os recursos humanos e econômicos do país.

Instituições de análise estrangeiras têm destacado que, mesmo após quase quatro anos, a Rússia ainda não conseguiu derrotar um país economicamente menor e militarmente menos equipado, o que representa um paradoxo para observadores estratégicos que antes classificavam Moscou como dominante no campo militar europeu.

Satélite mostra fila de mais de 60 km com veículos blindados russos ao norte da cidade ucraniana de Ivankiv

Dimensões geopolíticas e simbólicas

A prolongada duração da guerra tem efeitos geopolíticos de longo alcance. Por um lado, ela fortaleceu a coesão de alianças ocidentais e acelerou políticas de defesa na Europa; por outro, reduziu a aura de invencibilidade militar que a Rússia cultivava em discursos oficiais e narrativas domésticas.

A comparação com a Segunda Guerra Mundial — uma guerra total que moldou profundamente a identidade e a memória russas — é significativa: este novo conflito, apesar de menor em escala global, já supera essa referência temporal e representa um teste profundo à capacidade de projeção de poder de Moscou e à sua imagem histórica de força militar.

Além disso, a questão territorial, especialmente em torno de regiões como Donetsk e Donbas, permanece um dos principais pontos de impasse nos esforços diplomáticos para encerrar o conflito.

A Rússia exige concessões sobre territórios que ainda controla ou reivindica, enquanto a Ucrânia — apoiada por grande parte da comunidade internacional — resiste a qualquer solução que implique perda de soberania reconhecida internacionalmente.

Entre lama, gelo e aço, a guerra de atrito na Ucrânia expõe o custo humano e material de um conflito que se prolonga além das previsões, transformando cada blindado ucraniano em símbolo de resistência e desgaste estratégico.

Considerações finais

A guerra Rússia-Ucrânia não é apenas uma sequência de batalhas; é um evento que está remodelando a ordem de segurança europeia, expondo limites de projeção de poder convencionais e ressaltando a importância de estratégias assimétricas em conflitos contemporâneos.

A realidade de que uma potência militar supostamente superior não conseguiu alcançar uma vitória rápida ou decisiva, mesmo após quatro anos de guerra, expõe as limitações práticas das expectativas estratégicas iniciais e sublinha o custo humano e político desse confronto prolongado.

À medida que o mundo observa o conflito entrar em seu quarto ano, ele permanece um lembrete duro de que a guerra moderna é tão imprevisível quanto destrutiva — e que a força bruta, sem uma estratégia clara e adaptável, frequentemente acaba por se transformar em um prolongado impasse com consequências profundas para todos os envolvidos.

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