Coronel Luciano Hickert
Entre os dias 20 e 25 de outubro de 2025, a 6ª Divisão de Exército (DE) desdobrou suas Brigadas em uma grande operação defensiva que recebeu o nome de Passo da Pátria. A manobra ocorreu na região de Butiá, e contou com mais de 300 viaturas e 2 mil militares, simulando combates na linha defensiva balizada pelo rio Jacuí.
Para a condução da atividade, que contou com tiros reais de artilharia no campo de instrução de Butiá, foram mobilizados meios da 6ª DE e recebidas tropas em reforço, sobretudo da Aviação do Exército, 3º Grupamento Logístico, 4º Grupamento de Engenharia, Artilharia Divisionária/3, 1º e 3º Batalhões de Comunicações, 3º Batalhão de Polícia do Exército e 1º Batalhão de Inteligência Militar. Assim, foi possível desenvolver ações em múltiplas dimensões do combate moderno, interagindo com as populações locais e simulando diversas atividades como ação retardadora, acolhimento, defesa de área, defesa móvel e contra-ataques.
As ações englobaram segurança de área de retaguarda, prisioneiros de guerra, apoio a refugiados, ressuprimentos e diversas ações logísticas, além de outras ações não cinéticas, simulando um combate simétrico entre nações. Foi possível interagir com diversas agências locais e com as comunidades da área, buscando que o apoio da população fosse mantido, tendo sido realizado, inclusive, uma ação cívico social.
Para desenvolver as múltiplas atividades simuladas foi necessário um profundo estudo da doutrina, e estabelecer um planejamento detalhado para exploração do terreno. Foi empregado o 8º Esquadrão de Cavalaria Mecanizado como força oponente, que representava o avanço de um país inimigo sobre a fronteira, com capacidades militares semelhantes às nossas. Dentre as diversas funções de combate, mereceram destaque as ações da função comando e controle, pois uma atividade nível divisão de exército é complexa, e as ações são muito descentralizadas.
As coordenações exigidas mostraram-se desafios para o comando e controle (C2) durante todo o exercício. O sistema de coordenação foi colocado constantemente à prova, tendo em vista que o posto de comando (PC) da divisão estava localizado conforme determina a doutrina, distante cerca de 10 km das GU, mais de 15 km da frente de combate, e cerca de 80 km da base logística terrestre. Diversas demandas de comunicações foram necessárias, sobretudo uma estrutura robusta de apoio e diferentes necessidades de proteção desta.
Os Grandes Comandos possuem uma estrutura variável, que não possui modelo de posto de comando definida. Pela grande demanda de atividades de comunicações, a 6ª DE possui um Batalhão de Comunicações, complementada por uma subunidade (SU) de comando, uma SU polícia e meios especializados de Coordenação de Fogos, Aviação, Engenharia, Logística e Inteligência. Além disso, pode receber outras capacidades especiais, como de Assuntos Civis, Operações Psicológicas e Operações Especiais, dividida em 10 células funcionais.
Diante das estruturas necessárias, um PC divisionário pode receber mais de 500 militares, realizando ações diversas de C2 e de apoio logístico. O desdobramento de antenas e meios de comunicações, cozinhas e outras estruturas de apoio para alojamento e alimentação, além do efetivo de segurança, podendo incluir ainda meios de defesa antiaérea, transforma a estrutura do PC em uma grande área de acampamento.
Para uma adequada dispersão, em local sem construções, é necessário o estabelecimento de uma grande estrutura, que ocupa uma área superior a dez campos de futebol, buscando empregar o máximo de camuflagem. Mesmo assim, as irradiações eletromagnéticas, as movimentações de pessoas e de viaturas tornam a segurança e discrição da área um grande desafio. Nesse mesmo sentido, as ameaças aéreas (inclusive aeronaves não tripuladas) são um desafio para a proteção de uma instalação tão robusta.
Ainda, aumentando mais as dimensões da área utilizada, os PC da Artilharia Divisionária (AD/3) e Engenharia Divisionária (4º Grupamento de Engenharia) são desdobrados em área não muito distante da divisão, aumentando o trânsito de viaturas e de sinais, facilitando a localização dessas instalações críticas por forças adversas, tanto regulares como irregulares.
Nesse sentido, deve-se destacar que o PC divisionário possui uma estrutura recuada, mais vocacionada para a logística, e uma estrutura mais leve e flexível, normalmente toda embarcada, para que o comando possa avançar até suas grandes unidades e acompanhar as ações principais da batalha com maior proximidade. Essas estruturas devem proporcionar resiliência para o C2, de modo a facilitar a integração e consciência situacional.
Do exposto, e diante dos desafios do combate moderno, e tendo como referência alguns ensinamentos dos conflitos atuais, sugere-se que algumas variáveis devem nortear a decisão para a escolha das áreas de Posto de Comando, respeitando os princípios já consagrados nas doutrinas dos exércitos modernos:
1. Segurança: com a finalidade de melhor camuflar as instalações de comando operacional, devem ser buscadas instalações fixas, que ofereçam alojamentos, áreas de alimentação e apoio, preferencialmente em cidades. Tais áreas serão menos identificáveis pela inteligência inimiga, possibilitando maior discrição e limitação para os meios de busca diversos.
A dissimulação deve, inclusive, buscar camuflar as instalações emissoras de sinais junto às instalações civis, assim como proteger em subsolos as áreas críticas do comando. Ademais, instalações de apoio como segurança de polícia, antiaérea e outros meios de suporte devem primar pela discrição, evitando a circulação próxima aos postos de comando, buscando máxima dispersão.
2. Terreno: o terreno deve proporcionar instalações que ofereçam proteção para os postos de comando, e capacidade de ligação com as diferentes frentes da divisão. Uma área com população que apoia nossas forças facilita a contrainteligência e a proteção das áreas críticas.
3. Comunicações: a localidade escolhida deve proporcionar boas condições para que os sinais atinjam todas as forças envolvidas, à frente e retaguarda, e proporcionar boas condições para exploração dos diversos meios e aparelhos.
4. Situação tática: dentro das possibilidades, a localidade escolhida deve ser eixada com o esforço principal, de modo a facilitar as ações de Comando. Além disso, um PC divisionário deve ter condições de proporcionar flexibilidade, saindo de posição e sendo montado o mais rápido possível em outras posições, exigindo estruturas de computadores e infraestrutura portáteis e facilmente desmontáveis e transportáveis.

Segundo STRONG (2021), as demandas de segurança para os postos de comando dos EUA são um paradoxo para as grandes necessidades de controle de informações, exigindo uma estrutura dispersa e móvel, ao mesmo tempo capaz de resistir aos fogos cinéticos e não cinéticos de um conflito em larga escala. O ambiente complexo do combate moderno exige um trabalho integrado e um ambiente de múltiplas células, ao mesmo tempo que obrigam a formação de uma estrutura dispersa e redundante.
Cabe ressaltar que cada Teatro de Operações possui suas características específicas, e que em algumas situações não há estrutura próxima, implicando a necessidade de realizar o desdobramento do PC em área isolada, utilizando materiais para camuflar as posições ou mesmo proteger as principais posições do PC tático e principal.
Ademais, a era do conhecimento apresenta diversos óbices para a segurança dos dados, ao mesmo tempo que os operadores dos diversos níveis estão acostumados com meios de transmissão civis que são de fácil acesso e difusão. Contudo, os meios militares tendem a ser mais complexos, e sua operação exige um adestramento constante, obrigando um constante adestramento dos envolvidos.
Ainda na esfera da exploração dos recursos de comunicações, o Grande Comando percebeu a oportunidade de utilizar os processos de criptografia de modo mais automatizado, o que pode ser ainda mais aprimorado se for implantado um sistema de inteligência artificial, como o apresentado por TUNNELL, 2020, para facilitar a priorização das informações e acelerar o processo de tomada de decisões.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
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