Por Ricardo Fan Defesanet – Análise Estratégica
A automação de sistemas de combate — parte central da chamada “dronização do campo de batalha” — segue avançando com rapidez, impulsionada por investimentos militares e por novas aplicações de inteligência artificial e autonomia robótica.
Três desenvolvimentos recentes exemplificam como tecnologias robotizadas estão sendo integradas às operações terrestres, desde desminagem até navegação autônoma em ambientes degradados.
1. DARPA conclui testes do Programa RACER: autonomia sem GPS
Nos Estados Unidos, a agência DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency) concluiu os testes do programa RACER (Robotic Autonomy in Complex Environments with Resiliency), um marco importante para veículos terrestres autônomos.
O RACER desenvolveu e demonstrou um conjunto de software e sensores que permitem a veículos não tripulados operarem autonomamente em terrenos irregulares e ambientes disputados sem dependência de GPS, um elemento crítico em conflitos modernos — especialmente onde sistemas de posicionamento podem ser degradados ou negados por adversários.
Essa autonomia robusta abre caminho para aplicações práticas, como reconhecimento de terreno hostil, suporte logístico em frentes avançadas e até integração com sistemas de desminagem ou engenharia pesada. A tecnologia está sendo transicionada para uso militar e comercial, sinalizando maturidade e potencial de adoção mais ampla.
2. Polônia testa Veículo Robótico de Combate em condições de inverno

A Polônia tem intensificado os testes de veículos terrestres robóticos adaptados a condições climáticas rigorosas, incluindo operações no inverno europeu.
Esses testes fazem parte de um programa mais amplo para treinar tropas e unidades especializadas em engenharia de combate com robôs terrestres e drones. Embora detalhes específicos do veículo denominado Kuna sejam escassos, relatos indicam que a intenção é validar desempenho e resiliência sob baixas temperaturas e terrenos complicados — um passo crítico para operações na Europa Oriental.
A iniciativa polonesa reflete uma tendência global: países aliados da OTAN estão buscando plataformas robóticas que possam reduzir o risco aos combatentes humanos em missões de reconhecimento avançado, apoio logístico ou combate direto, especialmente em cenários complexos como os do flanco leste europeu.
3. Reino Unido lança Plataforma Avançada para Desminagem: MineWolf MW370 Next Generation

O Reino Unido, por meio da empresa Pearson Engineering, lidera um avanço significativo no campo da robótica de desminagem com a introdução da plataforma MineWolf MW370 Next Generation. Este veículo terrestre não tripulado foi projetado para:
- Limpar campos minados (tanto minas antipessoal quanto antitanque de até 15 kg de explosivo).
- Operar remotamente com alcance de até 3.000 metros em linha de vista.
- Atingir taxas de desminagem de até 4.500 m² por hora.
- Proporcionar proteção reforçada e consciência situacional em tempo real por meio de sistemas de vídeo integrados.
Essa evolução tecnológica representa um exemplo claro de como a automação reduz a exposição de engenheiros e tropas a riscos extremos, ao mesmo tempo em que aumenta a velocidade e a eficiência de operações que tradicionalmente eram altamente perigosas e lentas.
Implicações estratégicas e futuro da Robótica Militar
Os três casos ilustram diferentes dimensões da dronização terrestre:
- Autonomia Avançada: A implementação de pacotes autônomos como o RACER indica um salto qualitativo — permitir que veículos percebam, naveguem e tomem decisões sem GPS e com mínima intervenção humana.
- Resiliência Operacional: O foco em operações no inverno e em terrenos severos (Polônia) mostra que robôs de combate estão sendo testados para atuar em ambientes que desafiam sensores, propulsão e decisões autônomas.
- Redução de Riscos Humanos: Plataformas como o MineWolf mostram que robôs podem realizar tarefas tradicionalmente mortais, como desminagem, com maior segurança e eficiência.
No agregado, esses desenvolvimentos mostram que a integração de veículos terrestres não tripulados — reais agentes “drones rover” — está deixando de ser um conceito futurista para se tornar um componente operacional em forças armadas modernas.
Isso influencia não apenas a tecnologia de combate, mas também doutrinas militares, logística e a própria ética de uso de sistemas autônomos em zonas de guerra.
O delay brasileiro na Dronização do Campo de Batalha
A comparação entre os avanços recentes em veículos terrestres não tripulados (UGVs), autonomia sem GPS e robótica de engenharia militar na Europa e nos Estados Unidos evidencia um gap estratégico relevante do Brasil.
Esse atraso não é apenas tecnológico; ele é doutrinário, institucional, industrial e orçamentário.
Embora esse atraso seja tecnicamente reversível, a velocidade da transformação observada nos exércitos da OTAN indica que a janela de oportunidade está se estreitando.
Permanecer fora desse ciclo de desenvolvimento implica aceitar, no futuro, uma posição de mero usuário de soluções estrangeiras — com impactos diretos sobre soberania tecnológica e liberdade estratégica.
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