A Guerra dos Drones e a resposta Antidrone: Autonomia, Defesa Integrada e a Transformação da Doutrina Militar

Por Ricardo Fan – Defesanet

A disseminação acelerada de drones militares e civis militarizados alterou de forma estrutural o ambiente operacional contemporâneo. O que antes era um vetor auxiliar de vigilância tornou-se um instrumento central de combate, reconhecimento, saturação defensiva e coerção estratégica.

Em resposta, forças armadas ao redor do mundo vêm desenvolvendo capacidades antidrone (C-UAS¹) em múltiplos domínios — naval, terrestre e aéreo — ao mesmo tempo em que avançam no emprego de plataformas não tripuladas com níveis crescentes de autonomia.

Os recentes episódios envolvendo exercícios da OTAN, modernizações de forças terrestres asiáticas, cooperação tecnológica no Mediterrâneo e testes de interceptação aérea totalmente autônoma ilustram, em conjunto, uma mudança doutrinária profunda, cujo impacto ultrapassa o campo tático e alcança a segurança estratégica global.

Do mar à terra: a normalização da ameaça drone

No domínio naval, a defesa contra drones deixou de ser uma hipótese futura para tornar-se requisito imediato de sobrevivência. O exercício conduzido no Reino Unido, no qual uma fragata holandesa neutralizou múltiplos drones durante atividade da OTAN, demonstra que navios de superfície passaram a enfrentar ameaças persistentes de baixa assinatura, baixo custo e alto potencial disruptivo.

O aspecto mais relevante não é o sucesso pontual do engajamento, mas a constatação de que plataformas navais modernas precisam operar continuamente em modo C-UAS, integrando sensores, radares, sistemas eletro-ópticos, guerra eletrônica e armamento convencional em um mesmo ciclo de decisão.

Isso sinaliza uma mudança estrutural: a defesa naval deixa de priorizar exclusivamente mísseis antinavio e aeronaves tripuladas, passando a lidar com enxames, vetores improvisados e ataques de saturação assimétrica.

Esse mesmo fenômeno manifesta-se no ambiente terrestre. A decisão do Japão de incorporar sistemas de proteção antidrone ao Type 16 reflete o reconhecimento de que a infantaria e os blindados operam permanentemente sob observação aérea hostil.

No campo de batalha contemporâneo, não existem mais retaguardas totalmente seguras: áreas de apoio, bases, instalações logísticas e meios concentrados tornam-se alvos potenciais de drones de reconhecimento e de ataque de precisão.

Do ponto de vista doutrinário, essa adaptação indica que capacidades C-UAS passam a integrar o núcleo da sobrevivência tática, ao lado de blindagem, mobilidade e comunicações.

A proteção antidrone deixa de ser uma função exclusiva de escalões superiores e passa a ser orgânica às unidades de manobra, alterando profundamente a organização e o emprego das forças terrestres.

Defesa antidrone como ativo estratégico e político

A proliferação de drones também redefiniu o valor estratégico da cooperação internacional. A decisão da Grécia de aprofundar a cooperação com Israel em sistemas antidrone e segurança cibernética evidencia que o C-UAS não é apenas uma capacidade militar, mas um elemento central de alianças, dissuasão regional e soberania tecnológica.

Esse movimento revela um entendimento crescente: não existe defesa antidrone eficaz sem proteção cibernética e domínio do espectro eletromagnético. Drones dependem de enlaces de dados, software, satélites e redes — todos potenciais vetores de ataque.

Assim, a integração entre C-UAS e ciberdefesa torna-se imperativa, especialmente em regiões sensíveis como o Mediterrâneo Oriental, onde disputas territoriais, energia e poder aéreo se sobrepõem.

Nesse contexto, capacidades antidrone passam a desempenhar papel semelhante ao da defesa aérea clássica durante a Guerra Fria: instrumentos de estabilidade, dissuasão e sinalização estratégica, cuja posse e interoperabilidade influenciam diretamente o equilíbrio regional.

Autonomia e a ruptura do ciclo decisório

Se a defesa antidrone redefine a proteção das forças, a autonomia redefine o próprio conceito de combate. O teste conduzido com o MQ-20 Avenger, no qual a plataforma realizou uma interceptação aérea simulada em voo totalmente autônomo, representa uma inflexão histórica na doutrina militar.

A delegação do ciclo “detectar–decidir–engajar” a sistemas baseados em inteligência artificial reduz drasticamente o tempo de resposta e permite operações em ambientes degradados, contestados ou de alta intensidade. Ao mesmo tempo, desloca o papel do operador humano do nível tático para o nível de supervisão e autorização estratégica.

Do ponto de vista doutrinário, isso implica uma compressão extrema do ciclo OODA (Observe–Orient–Decide–Act), favorecendo quem detiver superioridade algorítmica, integração de sensores e capacidade de processamento em tempo real. Contudo, também introduz riscos relevantes: falhas de identificação, escalada não intencional e dilemas éticos e jurídicos ainda sem consenso internacional.

Implicações Diretas para o Brasil e as Forças Armadas Brasileiras

Para as Forças Armadas Brasileiras, a consolidação da guerra de drones e das capacidades antidrone impõe decisões estratégicas inadiáveis. A proteção de infraestruturas críticas, fronteiras extensas e áreas sensíveis — da Amazônia Azul ao arco de fronteira terrestre — exige a incorporação de C-UAS em múltiplos escalões, integrados à guerra eletrônica e à ciberdefesa.

No âmbito do Exército Brasileiro, isso significa dotar brigadas e unidades de manobra com sensores, jammers e doutrina orgânica antidrone, em sinergia com programas como o SISFRON.

Para a Marinha do Brasil, a prioridade recai sobre a proteção de meios de superfície e instalações costeiras contra UAVs e USVs, reforçando a consciência situacional marítima e a defesa de ponto.

Já a Força Aérea Brasileira enfrenta o desafio de integrar drones autônomos e contramedidas no sistema de defesa aeroespacial, preservando o controle humano significativo.

Em termos industriais, a Base Industrial de Defesa nacional precisa ser estimulada a desenvolver soluções C-UAS, sensores e software de IA com interoperabilidade e soberania tecnológica.

Em síntese, para o Brasil, adaptar-se a esse novo paradigma não é opção: é condição para manter dissuasão, proteger o território e garantir relevância estratégica em um ambiente de segurança cada vez mais automatizado e contestado.

Conclusão prospectiva

A análise integrada desses desenvolvimentos demonstra que a guerra contemporânea caminha para um ambiente caracterizado por três vetores centrais:

  1. Onipresença de drones como instrumentos de vigilância, ataque e saturação;
  2. Centralidade das capacidades antidrone (C-UAS) como elemento estrutural da defesa em todos os domínios;
  3. Crescente autonomia dos sistemas de combate, com impactos diretos na doutrina, no comando e na estabilidade estratégica.

Nesse cenário, a vantagem militar não será definida apenas por plataformas ou efetivos, mas pela capacidade de integrar defesa antidrone, guerra eletrônica, cibersegurança e inteligência artificial em arquiteturas conjuntas e interoperáveis.

Estados que não internalizarem essa transformação correm o risco de ver suas forças neutralizadas por ameaças de baixo custo e alta eficiência.

A guerra dos drones, portanto, não é um fenômeno transitório, mas um novo paradigma operacional — e a forma como as nações se adaptarem a ele definirá o equilíbrio de poder nas próximas décadas.

Nota Analítica — A Operação “Teia de Aranha” e o Emprego Estratégico de Drones por Infiltração

A Operação “Teia de Aranha”, conduzida pela Ucrânia contra bases militares da Rússia, ilustra com clareza uma evolução crítica no emprego de sistemas não tripulados: o valor estratégico do drone não está necessariamente no alcance do vetor, mas na arquitetura da operação. Diferentemente de ataques baseados em drones de longo alcance lançados a partir de território amigo, a ação ucraniana teria se apoiado na infiltração prévia de meios logísticos, com drones lançados a partir de caminhões posicionados nas proximidades dos alvos.

Essa abordagem explorou de forma eficaz lacunas na segurança perimetral, na vigilância de baixa altitude e na defesa antidrone de ponto, contornando sistemas de defesa aérea concebidos prioritariamente para ameaças convencionais ou vetores de maior assinatura. O resultado foi a obtenção de efeitos operacionais e psicológicos desproporcionais, ao demonstrar que instalações situadas em profundidade estratégica permanecem vulneráveis quando a proteção se concentra apenas no espaço aéreo ampliado e negligencia o domínio terrestre imediato.

Do ponto de vista doutrinário, a operação reforça três lições centrais. Primeiro, a distinção entre frente, retaguarda e profundidade estratégica está progressivamente erodida, sobretudo em ambientes onde a circulação logística e civil pode ser explorada como vetor de aproximação.

Segundo, a defesa eficaz contra drones exige integração entre C-UAS, segurança de bases, contrainteligência e controle territorial, e não apenas sensores e interceptadores.

Terceiro, drones de curto ou médio alcance, quando empregados com planejamento, surpresa e inteligência, podem produzir efeitos estratégicos equivalentes aos de sistemas mais sofisticados e custosos.

Em síntese, a “Teia de Aranha” confirma que a guerra de drones entrou em uma fase em que a criatividade operacional, a infiltração e a exploração de vulnerabilidades sistêmicas são tão decisivas quanto a tecnologia embarcada. Para forças armadas estruturadas sob paradigmas convencionais de defesa em profundidade, o episódio funciona como alerta inequívoco: a proteção de bases e ativos críticos precisa ser repensada de forma integrada, contínua e multidomínio.

¹C-UAS (Counter-Unmanned Aircraft Systems): conjunto de sistemas, sensores, doutrina e procedimentos destinados a detectar, identificar e neutralizar drones hostis, por meios eletrônicos (soft-kill) ou físicos (hard-kill), protegendo forças, bases e infraestruturas críticas.

Leia também:

Compartilhar:

Leia também
Últimas Notícias

Inscreva-se na nossa newsletter