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Brasília, 19 de janeiro de 2026
A conjuntura atual da segurança pública no Estado do Ceará transcende, há muito, a classificação convencional de crise de criminalidade urbana para configurar-se, tecnicamente, como um cenário de insurgência criminal consolidada, onde a soberania do Estado é sistematicamente mitigada, quando não anulada, pela governança paralela imposta por organizações criminosas de alta capilaridade e poder bélico. Ao analisar o teatro de operações cearense sob a ótica da polemologia e da estratégia de defesa, observa-se que a dinâmica de violência não é mais difusa, mas sim orientada por uma lógica de domínio territorial estrito, protagonizada principalmente pelo Comando Vermelho (CV), originário do Rio de Janeiro, e pela facção local Guardiões do Estado (GDE), além da presença estratégica do Primeiro Comando da Capital (PCC) e da massa carcerária neutra.
Estes grupos não operam apenas no varejo de entorpecentes; eles estabeleceram microestados dentro da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF) e no interior, impondo um regime de controle social armado que regula desde o comércio local até a mobilidade urbana, desafiando o monopólio da força que, por definição weberiana, deveria pertencer exclusivamente ao aparato estatal. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) indicam flutuações nas taxas de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI) que, embora apresentem variações sazonais, mantêm o Ceará consistentemente entre as unidades federativas com maior índice de violência do país, refletindo não apenas conflitos interpessoais, mas uma guerra assimétrica contínua por hegemonia geográfica.
Neste contexto de degradação institucional, fenômenos como os “tribunais do crime” e a expulsão compulsória de moradores tornaram-se vetores sintomáticos da falência operacional do Estado. A prática, que consiste na expropriação forçada de residências por ordem das lideranças do tráfico — muitas vezes emanadas de dentro do sistema prisional —, atingiu níveis alarmantes, gerando uma categoria de refugiados urbanos invisibilizada pelas estatísticas oficiais. A resposta do Governo do Estado, sob a gestão do governador Elmano de Freitas, tem se revelado, do ponto de vista tático-estratégico, não apenas insuficiente, mas contraproducente e simbolicamente desastrosa. Observa-se uma postura de fragilidade decisória, onde a ausência de um “pulso firme” e de uma doutrina de enfrentamento direto resulta em operações que priorizam a gestão das consequências em detrimento da neutralização das causas.
O exemplo mais gritante desta inversão lógica é o emprego de viaturas da Polícia Militar e caminhões de apoio para realizar a escolta de famílias expulsas de suas casas. Ao alocar recursos de segurança pública — viaturas táticas, efetivo armado e combustível — para facilitar a logística de retirada das vítimas, o Estado valida, ainda que involuntariamente, a ordem de despejo emitida pelo crime organizado. Sob a ótica da dissuasão e da psicologia do conflito, essa manobra é interpretada pelas facções não como um ato humanitário, mas como uma capitulação operacional e um reconhecimento tácito da autoridade do tráfico sobre aquele território. O Estado, neste cenário, reduz-se a um facilitador logístico das determinações criminosas, sinalizando à população que é incapaz de garantir o direito constitucional à propriedade e à moradia, e ao criminoso, que sua ordem é soberana e será cumprida com o auxílio da própria polícia.
A crítica deve aprofundar-se na análise comparativa da complexidade operacional, desconstruindo a narrativa de que a dificuldade de retomada territorial no Ceará se deve a fatores geográficos intransponíveis. Ao contrastar, por exemplo, o bairro do Pirambu, na zona costeira de Fortaleza, com os grandes complexos de favelas do Rio de Janeiro, como a Rocinha, o Complexo do Alemão ou a Maré, a ineficiência do modelo cearense torna-se matematicamente injustificável. O Pirambu, embora apresente alta densidade demográfica, caracteriza-se por um relevo majoritariamente plano, uma malha viária relativamente ortogonal e uma extensão territorial significativamente menor do que os complexos cariocas.
Enquanto a Rocinha se estende por um relevo íngreme, com desníveis acentuados, becos labirínticos escavados na rocha e rotas de fuga tridimensionais que favorecem a guerrilha urbana e dificultam a progressão tática, o Pirambu oferece vetores de visada e linhas de tiro muito mais limpas, além de permitir o cerco tático com um efetivo proporcionalmente menor. O Complexo da Maré, com seus mais de 4 quilômetros quadrados e população superior a 130 mil habitantes, exige operações de envergadura militar para saturação; o Pirambu, com sua topografia de baixa complexidade, deveria ser, teoricamente, um território de fácil controle para uma força policial bem treinada e equipada. A persistência do domínio de facções nesta área de Fortaleza, portanto, não é uma imposição do terreno (orografia), mas uma escolha política e uma falha doutrinária. O Estado do Ceará não controla o Pirambu não porque não pode, mas porque optou por um modelo de policiamento que não ocupa, não permanece e não disputa o terreno metro a metro.
Análise comparativa de inteligência territorial. A tabela abaixo evidencia que o Grande Pirambu apresenta um índice de “hostilidade geográfica” significativamente inferior ao Complexo do Alemão (RJ). Tecnicamente, a incapacidade do Estado do Ceará em retomar o Pirambu não pode ser atribuída à dificuldade do terreno, mas sim a uma falha na doutrina de emprego da força e na fraqueza política, caracterizando o local como uma ‘Zona de Exclusão Autoinfligida’ pelo Governo do Ceará:
| Variável de análise tática | Complexo do Alemão (Rio de Janeiro) | Grande Pirambu (Fortaleza) | Diferencial operacional (impacto no emprego da força) |
| Geomorfologia e relevo | Altíssima complexidade: Terreno acidentado (morros), com variações de cota que favorecem o controle de “cristas” pelo crime. | Baixa complexidade: Terreno de planície costeira, majoritariamente plano, sem elevações naturais significativas. | Pirambu: Favorece a progressão de blindados e a visibilidade de longo alcance para o uso de caçador e/ou atirador de precisão policial |
| Arquitetura e verticalização | Verticalização informal densa: Edificações multifamiliares de até 6 andares em becos onde não passam veículos. | Horizontalidade predominante: Construções em sua maioria térreas ou de dois pavimentos, com raras exceções. | Pirambu: Facilita a vigilância aérea (drones/helicópteros) e diminui os pontos de emboscada vindos de “cimas”. |
| Malha Viária e acessibilidade | Labiríntica: Ruas estreitas, becos sem saída e escadarias que impedem o patrulhamento motorizado. | Razoavelmente ortogonal: Ruas retas e planas que permitem o tráfego de viaturas e cerco tático eficiente. | Pirambu: Permite o “congelamento” rápido de quadrantes inteiros por meio de bloqueios em esquinas estratégicas. |
| Contenção geográfica (Cerco) | Aberta e porosa: Vizinhança com matas e outros complexos de favelas, permitindo rotas de fuga diversas. | Confinada: Delimitada pelo Oceano Atlântico ao Norte e por avenidas arteriais (Leste-Oeste) ao Sul. | Pirambu: É uma “armadilha geográfica”. O mar atua como barreira natural, facilitando o encurralamento de alvos de interesse do Estado, caso quisesse retomar a região do tráfico. |
| Engajamento e balística | 360º e Multidimensional: Tiros podem vir de qualquer janela, beco ou clarabóia em diferentes níveis de altura. | Linear e bidimensional: Conflitos tendem a ocorrer no nível da rua ou de lajes baixas e previsíveis. | Pirambu: Exige menor efetivo para saturação do que o Alemão, permitindo o domínio por meio de patrulhas a pé coordenadas. |
Essa constatação conduz inevitavelmente à análise crítica do modus operandi da Polícia Militar do Ceará (PMCE). O modelo predominante de policiamento ostensivo baseia-se no patrulhamento motorizado dinâmico, onde guarnições, muitas vezes confinadas em viaturas com ar-condicionado e vidros fechados, deslocam-se entre pontos vetoriais a velocidades médias incompatíveis com a observação qualificada do ambiente. O deslocamento de uma viatura a 50 km/h ou 80 km/h em vias urbanas conflagradas gera uma “bolha de segurança” efêmera que dura apenas os segundos em que o veículo cruza determinado ponto, permitindo que a atividade criminosa cesse momentaneamente e retorne imediatamente após a passagem da guarnição.
Falta à doutrina operacional cearense a cultura da infantaria leve aplicada ao ambiente urbano: a progressão a pé com batalhões, a varredura sistemática de becos e vielas (o “limpa-trilho”), a incursão em áreas de difícil acesso veicular e a ocupação física de lajes e pontos de observação elevados. Sem a presença física do policial no solo (“boots on the ground“), não há coleta de inteligência humana, não há interação comunitária real e, fundamentalmente, não há negação de área ao oponente.
O crime organizado, operando com olheiros e sistemas de comunicação via rádio ou aplicativos, monitora facilmente o deslocamento previsível das viaturas, adaptando sua logística de venda de drogas e movimentação de armas em tempo real. A ausência de operações de saturação, que consistem no congelamento de uma área e na busca minuciosa casa a casa, rua a rua, beco a beco, laje a laje, cria zonas de conforto onde as facções podem armazenar material bélico e consolidar seu poder sem o risco iminente de serem surpreendidas.
Adicionalmente, é imperativo dissecar, com franqueza brutal, o perfil psicossocial do capital humano que tem ingressado nas fileiras da segurança pública cearense na última década. Observa-se a consolidação de um quadro de pessoal moldado não pela vocação marcial ou pelo ethos do combatente, mas pela lógica do ‘concurseiro de oportunidade’. Em um cenário estadual marcado por restrições econômicas severas e escassas perspectivas de ascensão no mercado privado, a carreira policial converteu-se, para uma parcela significativa do efetivo, meramente em um refúgio de estabilidade financeira e um mecanismo de superação da vulnerabilidade social (a busca pela saída da linha da pobreza), despida de qualquer identificação intrínseca com a natureza beligerante e sacrificial da atividade policial.
O resultado é a formação de uma tropa com mentalidade estritamente burocrática e funcionalista, que encara o serviço ostensivo não como um sacerdócio de defesa da sociedade, mas como um expediente administrativo a ser cumprido sob a premissa do minimalismo operacional. Esse agente, cuja prioridade absoluta é a manutenção do status funcional e a integridade física sem exposição ao risco tático, tende a adotar uma postura de ‘presença passiva’, limitando-se ao confinamento no interior das viaturas e evitando proativamente o engajamento em zonas de conflito real. Cria-se, assim, uma assimetria motivacional letal: enquanto as facções recrutam criminosos dispostos a morrer e matar pelo domínio do território, o Estado recruta funcionários públicos civis fardados que desejam apenas cumprir a escala e retornar para casa, gerando uma força de trabalho que, embora numerosa, é operacionalmente inócua frente à agressividade do inimigo.
A inércia governamental e a insistência em soluções paliativas refletem uma incompreensão da natureza do conflito. O governador Elmano de Freitas, ao manter uma política de segurança que evita o confronto direto e necessário para a retomada da ordem, permite que a metástase criminal avance para o interior do estado e contamine as estruturas de poder local. A soberania não é um conceito abstrato; ela se exerce através do controle efetivo do espaço e da capacidade de impor a lei. Quando o Estado recua, o vácuo é imediatamente preenchido pela tirania das facções.
Estatisticamente, a densidade de policiais por quilômetro quadrado em áreas conflagradas de Fortaleza é insuficiente quando diluída em turnos e escalas que privilegiam a ostensividade visual em grandes avenidas em detrimento da penetração capilar nas comunidades. A insistência em não reconhecer o estado de guerra irregular resulta em um ciclo vicioso de violência, onde as taxas de letalidade oscilam, mas a sensação de insegurança e o poder fático das organizações criminosas permanecem inalterados e em expansão. Sem uma reformulação doutrinária que priorize a inteligência voltada para a ação, a ocupação territorial permanente (e não apenas Unidades de Segurança que funcionam como “bunkers” isolados) e a neutralização cirúrgica das lideranças, o Ceará caminha para um cenário de “mexicanização” irreversível, onde o poder público se torna um mero coadjuvante administrativo em um território gerido pelo crime.
Em suma, a situação da segurança pública no Ceará exige uma ruptura paradigmática. Não se trata apenas de “investir em equipamentos” ou “aumentar o efetivo” de forma genérica, mas de alterar a lógica de emprego da força. É imperativo que o comando político e operacional compreenda que a escolta de mudanças de moradores expulsos é a imagem definitiva da derrota estatal.
A única resposta compatível com a gravidade da ameaça é a reconquista do território, o desmantelamento da infraestrutura econômica e logística das facções e a imposição da autoridade estatal através de uma presença policial que não seja apenas de passagem, mas de permanência, controle e soberania. Enquanto a estratégia for reativa e focada em mitigar danos, a população cearense continuará refém de um poder paralelo que, hoje, dita quem pode viver, quem pode morar e quem governa de fato os territórios do Estado.




















