O atual cenário geopolítico expõe as fissuras crescentes na arquitetura de segurança ocidental, com a Europa tentando equilibrar autonomia estratégica e a preservação da OTAN em meio a pressões internas e externas.
Dois acontecimentos recentes, ocorridos nos dias 15 e 16 de janeiro de 2026, ilustram vividamente essa tensão: o discurso do presidente francês Emmanuel Macron às Forças Armadas e o início do envio de tropas europeias para a Groenlândia em resposta às declarações de Donald Trump.
No dia 15 de janeiro, na Base Aérea de Istres, Macron proferiu seu tradicional discurso de Ano Novo às forças armadas. Com tom grave e realista, ele declarou: “Para permanecer livre, é preciso ser temido, e, para ser temido, é preciso ser poderoso. Para ser poderoso neste mundo tão brutal, é preciso fazer mais depressa e com mais força”.
O presidente francês detalhou prioridades claras: reforço dos estoques de munições, maior preparação operacional das tropas e soberania em domínios críticos. No campo orçamentário, confirmou um aumento expressivo — 36 bilhões de euros adicionais entre 2026 e 2030, com 3,5 bilhões já em 2026 — por meio da atualização da Lei de Programação Militar.
Macron também anunciou explicitamente o envio de tropas francesas à Groenlândia, afirmando que uma primeira equipe de 15 soldados já estava posicionada em Nuuk, a capital, e que seria reforçada nos próximos dias por meios terrestres, aéreos e marítimos — incluindo um navio de guerra e aeronaves. Essa decisão alinha-se diretamente ao contexto ártico e reforça o compromisso francês com aliados europeus.
No mesmo dia 15, vários países da OTAN — Dinamarca (soberana sobre a Groenlândia), França, Alemanha, Noruega, Suécia, Finlândia, Países Baixos e Reino Unido — iniciaram o envio de contingentes militares limitados à ilha.
Os números são modestos: França com 15 soldados inicialmente, Alemanha com 13 em missão de reconhecimento (de quinta a domingo), outros países entre 1 e 2 militares ou pequenas equipes. O objetivo declarado é preparar exercícios conjuntos com a Dinamarca, aumentar a vigilância e demonstrar a presença da OTAN no Ártico, em coordenação com Copenhague e Nuuk.

O pano de fundo é a escalada das declarações de Donald Trump, que classificou como “inaceitável” qualquer cenário em que a Groenlândia não esteja sob controle americano, citando razões de segurança nacional, sua importância vital para o “Domo de Ouro” (projeto de escudo antimíssil) e riscos de influência russa ou chinesa.
Trump reiterou que “faria algo na Groenlândia, quer eles gostem ou não”, pressionando a OTAN a apoiar a aquisição e afirmando que a aliança seria “muito mais formidável e eficaz” com a ilha em mãos dos EUA.
A Casa Branca minimizou o impacto das tropas europeias, afirmando que nada altera a posição americana. Já a Dinamarca e aliados veem nisso uma ameaça direta à soberania de um membro da OTAN, alertando para o risco de colapso da aliança.
A Rússia expressou preocupação com o aumento da presença da OTAN na região, acusando a movimentação de ser baseada em “falsas acusações de ameaça”.
Esses eventos revelam uma Europa que, após décadas de dependência estratégica dos EUA, reage com gestos concretos — ainda que simbólicos em escala — para marcar limites. Macron acerta ao enfatizar que liberdade exige poder real e dissuasão.
No entanto, o desafio vai além de mais euros ou soldados: trata-se de construir uma defesa europeia coesa que não desmonte a OTAN, mas também não a subordine a impulsos unilaterais de Washington.
A Groenlândia, com sua posição estratégica no Ártico em aquecimento, recursos minerais críticos e importância crescente para segurança e rotas marítimas, tornou-se o teste imediato.
O envio coordenado de tropas europeias sinaliza que a soberania de aliados não é negociável, mesmo quando o questionamento vem do principal pilar da aliança.
Resta saber se essa mobilização europeia será suficiente para dissuadir pressões externas — e, sobretudo, para gerenciar um aliado que ameaça agir por conta própria. Em um mundo brutal, como definiu Macron, a Europa precisa ser mais unida, mais rápida e mais forte.
Caso contrário, o risco não é apenas perder influência no Ártico, mas ver a própria OTAN se fragmentar de dentro para fora. O ano de 2026 começou com um alerta claro: a defesa da liberdade exige não só temor aos adversários, mas também clareza e coesão entre amigos.





















