Na foto uma visualização da Rede de Satélites Starlink na direita a FAB assume o controle dos satélites de imagem SAR Lessonia (X39 e X43)
Nelson During
Editor Chefe – DefesaNet
Por que o Brasil Precisa de um Radar de Monitoramento de Objetos em Órbita Baixa
Introdução
O espaço exterior consolidou-se como um domínio estratégico essencial para a defesa nacional. Satélites em órbita baixa da Terra (Low Earth Orbit – LEO) sustentam comunicações militares, sistemas de inteligência, vigilância, reconhecimento, navegação e observação da Terra. A dependência crescente desses sistemas impõe uma nova realidade: quem não controla o ambiente espacial torna-se vulnerável no próprio território.
Nesse cenário, a necessidade de o Brasil dispor de uma capacidade própria de vigilância espacial, em especial por meio de um radar dedicado ao monitoramento de objetos em LEO, deve ser compreendida como parte indissociável do poder aeroespacial nacional e da soberania do Estado.
O Espaço como Extensão do Campo de Batalha
A órbita baixa encontra-se cada vez mais congestionada e contestada. Megaconstelações comerciais, satélites militares, plataformas de observação e uma quantidade crescente de detritos espaciais criam um ambiente dinâmico e potencialmente hostil. Paralelamente, grandes potências já incorporaram o espaço como domínio operacional, com doutrinas que preveem:
• Negação temporária ou permanente do uso do espaço;
• Ações cinéticas e não cinéticas contra satélites;
• Integração entre operações espaciais, cibernéticas e eletrônicas.
Nesse contexto, a ausência de consciência situacional espacial (Space Situational Awareness – SSA) equivale a operar às cegas em um domínio crítico.
A Vigilância Espacial como Função Estratégica da Força Aérea
A Força Aérea Brasileira é, por natureza, a força responsável pelo controle do espaço aéreo e pela defesa aeroespacial do País. A evolução desse conceito impõe a ampliação do foco para além da atmosfera, integrando o espaço exterior como continuidade lógica do domínio aéreo.
Um radar de vigilância espacial permitiria à FAB:
• Detectar, rastrear e catalogar objetos orbitais em LEO;
• Identificar aproximações perigosas e possíveis colisões;
• Monitorar comportamentos orbitais anômalos, inclusive de interesse militar;
• Reduzir a dependência de dados estrangeiros em situações de crise.
Sob a coordenação do Comando de Operações Aeroespaciais (COMAE), essa capacidade fortaleceria a arquitetura de defesa aeroespacial integrada, conectando sensores terrestres, aéreos e espaciais.

FAB assume o controle dos satélites de imagem SAR Lessonia (X39 e X43). O Centro de Operações Espaciais (COPE) do Comando de Operações Aeroespaciais (COMAE), em Brasília (DF), iniciou, no dia 14MAR2025, a operação autônoma do Sistema Espacial Lessonia-1, assumindo o controle total da obtenção de imagens de radar de abertura sintética (SAR) adquiridas por sistemas espaciais de observação da Terra. Foto FAB
Proteção de Ativos Estratégicos Nacionais
O Brasil já depende de satélites para funções críticas do Estado, incluindo comunicações governamentais seguras, monitoramento ambiental, controle de fronteiras e apoio a operações militares. A perda, degradação ou interferência nesses sistemas teria impacto direto sobre:
• A capacidade de comando e controle;
• A prontidão operacional das Forças Armadas;
• A resiliência do Estado em cenários de conflito ou coerção internacional.
Sem um radar nacional de vigilância espacial, a proteção desses ativos fica condicionada à boa vontade, disponibilidade e prioridades de potências estrangeiras — uma limitação incompatível com o conceito de soberania.

Representação do Sistema Stalink em órbita de 550km altura. A Starlink fez a primeira missão em 2018 (com dois satélites de teste), e o lançamento oficial da constelação começou em maio de 2019, com 60 satélites enviados ao espaço. Em Outubro de 2025 a empresa anunciou já ter lançado 10.000 satélites. Os planos são para mais 15.000 incluindo os futuros de 2ª geração. A Starlink opera na orbita de 550km. Novos lançamentos operarão 340 a 490 km de altura. A cada dia há uma queda de 2 a 3 satélites que são substituídos por novos. A vida útil de cada Starlink é de 5 anos. Os chineses também têm planos ambiciosos no espaço. Para comparação o Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC) está em uma órbita geoestacionária, a aproximadamente 36 mil quilômetros de altitude;
Dimensão Estratégica e Geopolítica
A posição geográfica do Brasil, especialmente no hemisfério sul, oferece vantagens únicas para a vigilância espacial global. Trata-se de uma região historicamente menos coberta por sensores terrestres de alta capacidade. Um sistema brasileiro de vigilância espacial:
• Eleva o peso estratégico do País em acordos e cooperações internacionais;
• Permite compartilhamento seletivo de dados, em bases mais equilibradas;
• Insere o Brasil como ator relevante na governança do espaço exterior.
Mais do que acompanhar tendências, o País passaria a influenciar normas, regimes e decisões relacionadas ao uso do espaço.
Impactos Industriais e Tecnológicos
O desenvolvimento ou aquisição de um radar de vigilância espacial representa também um vetor de fortalecimento da Base Industrial de Defesa. Envolve tecnologias sensíveis como:
• Radares de alta potência e grande alcance:
• Processamento avançado de sinais;
• Inteligência artificial aplicada à detecção e classificação de objetos;
• Integração de sistemas complexos.
Esses ganhos extrapolam o setor militar, com efeitos diretos sobre o ecossistema espacial e tecnológico nacional.
Conclusão
A implantação de um radar de vigilância espacial para monitoramento de objetos em órbita baixa não deve ser vista como um projeto isolado, mas como pilar estruturante da defesa aeroespacial brasileira. Em um ambiente internacional marcado pela competição estratégica e pela militarização do espaço, a ausência dessa capacidade representa vulnerabilidade crítica.
Para o Brasil, investir em vigilância espacial significa:
• Garantir autonomia informacional;
• Proteger ativos estratégicos;
• Reforçar a soberania nacional;
• Preparar-se para conflitos cada vez mais multidomínio.
No século XXI, defender o território nacional começa muito além da linha do horizonte — começa em órbita.





















