De encouraçados do século XIX à nova Fragata “Tamandaré”, Marinha resgata quase 160 anos de tradição e inovação na proteção da Amazônia Azul
Por Primeiro-Tenente (RM2-T) Larissa Vieira
O nome de Tamandaré ecoa na história do Brasil. Patrono da Marinha, o Almirante Joaquim Marques Lisboa dedicou sua vida à defesa do País e de sua unidade territorial, inspirando Marinheiros até os dias atuais. Em homenagem a esse legado, quatro navios já receberam seu nome ao longo de quase 160 anos, cada um lançado em momentos estratégicos e representando avanços importantes da Força Naval do Brasil. Agora, com a chegada da nova Fragata “Tamandaré” (F200), essa tradição alcança a era da construção naval digital e reforça o compromisso com a proteção da Amazônia Azul.
Para a Segundo-Tenente da Reserva de 2ª Classe (RM2) Beatriz Telles Estrella, historiadora e Ajudante da Divisão de Pesquisa Histórica da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha (DPHDM), manter o nome Tamandaré na Esquadra brasileira vai além do reconhecimento formal como Patrono da Marinha.
Manter vivo, por quase 160 anos, o nome de Tamandaré na Esquadra Brasileira revela a importância, para a Força Naval, da consolidação de uma identidade vinculada à memória naval do País, capaz de articular passado, presente e futuro da Marinha e do Brasil”, destaca.
O primeiro navio a ostentar esse nome foi o Encouraçado “Tamandaré”, lançado em 1865 no Arsenal de Marinha da Corte. Primeiro encouraçado construído no Brasil, destacou-se na Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai. Sua construção representou um marco de modernização para a Armada Imperial, em um período decisivo para a história sul-americana.

Fonte: Agência Marinha de Notícias
Poucas décadas depois, em 1897, o nome ressurgiu no Cruzador Protegido “Almirante Tamandaré”, fruto de um ousado projeto de engenharia naval nacional. Incorporado à Marinha naquele ano, o navio refletia o desejo do País de fortalecer sua capacidade de construir embarcações e reduzir a dependência de meios estrangeiros.
Com propulsão mista e porte expressivo para a época, serviu principalmente como plataforma de apoio institucional, abrigando Guardas-Marinha, escolas profissionais e a Escola de Grumetes. Também teve papel singular durante a Revolta da Armada, quando foi incorporado pelos revolucionários. Embora suas limitações técnicas tenham restringido a atuação operacional, marcou presença na história naval até sua baixa em 1915.
Para a historiadora, a sucessão de navios batizados como “Tamandaré” funciona como um verdadeiro fio condutor da História Naval brasileira. “O nome permanece, mas o significado operacional de cada ‘Tamandaré’ se transforma conforme as necessidades estratégicas e as capacidades tecnológicas da Marinha em cada período histórico”, explica.

Fonte: Agência Marinha de Notícias
Em meados do século XX, a tradição ganhou novo fôlego com o Cruzador Ligeiro “Tamandaré”, transferido ao Brasil em 1952. Construído nos Estados Unidos como “USS Saint Louis” (CL-49), teve atuação notável no Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial, onde recebeu o apelido de “Lucky Lou” devido à resistência em combates intensos.
No Brasil, tornou-se um dos mais poderosos meios já operados pela Marinha, com avançada direção de tiro, grande autonomia e robusto conjunto de armamentos. Durante 23 anos de carreira, participou de operações UNITAS – exercício marítimo multinacional anual criado em 1960 – além de outros exercícios multinacionais, comissões no exterior e viagens de instrução, acumulando mais de 216 mil milhas navegadas e representando o País em relevantes compromissos internacionais.

Fonte: Agência Marinha de Notícias
A nova era: Fragata “Tamandaré” (F200)
O mais recente navio a receber o nome do Patrono da Marinha foi lançado em 9 de agosto de 2024 no TKMS Estaleiro Brasil Sul, em Itajaí (SC). A Fragata “Tamandaré” inaugura uma nova fase da construção naval militar no País. Primeiro navio do Programa Fragatas Classe Tamandaré (PFCT), tem cerca de 3.500 toneladas, convoo e hangar para helicóptero, além de sensores modernos que lhe permitem enfrentar ameaças de superfície, aéreas e submarinas na proteção dos mais de 5,7 milhões de km² da Amazônia Azul. Como navio-escolta, terá papel fundamental na defesa de unidades de maior valor, além de atuar em busca e salvamento, combate à poluição, repressão a ilícitos e missões internacionais.
De acordo com a Segundo-Tenente (RM2) Beatriz Estrella, a F200 representa a continuidade dessa linha evolutiva, agora voltada aos desafios do século XXI. “A nova Fragata ‘Tamandaré’ insere-se nessa trajetória como expressão dos desafios estratégicos contemporâneos, destacando-se tanto pelo salto tecnológico quanto pelo fortalecimento da Base Industrial de Defesa e pela transferência de tecnologia”, ressalta a historiadora.
Cerca de 130 militares e civis já recebem treinamento para operar o meio, participando dos testes de mar realizados desde agosto de 2025, quando foram avaliados sistemas de propulsão, navegação, geração de energia e serviços de bordo. A fragata superou a velocidade nominal prevista, atingindo mais de 27 nós (cerca de 50km/h) em mar aberto.
Dotada de sistema de combate integrado, sensores avançados e arquitetura compatível com padrões da OTAN, a “Tamandaré” incorpora alto índice de conteúdo nacional e transferência de tecnologia, fortalecendo a indústria naval brasileira. Os testes continuam, e a previsão é que o navio seja entregue ao setor operativo da Marinha no início de 2026.
Avanço contínuo do Programa Fragatas Classe “Tamandaré”
Conduzido pela Marinha, gerenciado pela EMGEPRON e executado pela Sociedade de Propósito Específico Águas Azuis (TKMS, Embraer e Atech) o PFCT representa o mais avançado projeto de construção naval militar já desenvolvido no Brasil. Além de incorporar tecnologias digitais e métodos de construção modular em blocos, o programa impulsiona a Base Industrial de Defesa, gera cerca de 2 mil empregos diretos e 6 mil indiretos e contribui para a retomada e ampliação da capacidade produtiva de Itajaí.
Em 2025, o cronograma seguiu em ritmo consistente. A segunda fragata, “Jerônimo de Albuquerque” (F201), batizada em 8 de agosto, passou pela operação de load out, que transfere o navio para um dique flutuante antes da imersão controlada até flutuação completa. No dia 26 do mesmo mês, a embarcação seguiu para o rio Itajaí-Açu, concluindo a etapa de lançamento. A terceira unidade, “Cunha Moreira” (F202), avançou com o batimento de quilha, realizado em junho deste ano. As primeiras quatro fragatas do PFCT têm entrega prevista de forma gradual entre 2025 e 2029.
Fonte: Agência Marinha de Notícias





















