Guerra de atrito e limites operacionais: a real capacidade Russa na Ucrânia em 2026

À medida que o conflito na Ucrânia se aproxima de seu quarto ano, análises ocidentais têm convergido para a tese de que a Rússia, embora capaz de repor perdas humanas no curto prazo, enfrenta severas limitações para estabelecer reservas estratégicas ou operacionais capazes de sustentar ofensivas de grande envergadura.

Relatórios recentes do Institute for the Study of War (ISW), amparados em declarações do ex-chefe da inteligência militar ucraniana, Kyrylo Budanov, sustentam que esse fator deverá manter o conflito em um padrão de desgaste ao longo de 2026.

Entretanto, uma leitura estritamente baseada nessas fontes exige cautela. Em guerras prolongadas, a ausência momentânea de reservas formais não equivale, necessariamente, à incapacidade estrutural de adaptação, escalada ou reorganização do esforço militar.

Reposição de Perdas e a Ilusão da Reserva Estratégica

Segundo Budanov, Moscou teria mobilizado cerca de 403 mil homens para 2025 e manteria condições demográficas e financeiras para prolongar esse esforço por um período extenso.

Ainda assim, o ISW sustenta que o elevado ritmo de baixas impede a formação de uma reserva estratégica, obrigando o Kremlin a empregar continuamente tropas recém-incorporadas para manter a linha de frente.

Do ponto de vista doutrinário, o argumento é consistente: forças engajadas permanentemente em combate tendem a perder a capacidade de gerar reservas profundas. Contudo, essa análise parte de uma concepção clássica de reserva, pouco sensível à realidade de uma guerra de atrito industrializada, na qual a rotação contínua de unidades, a mobilização escalonada e a reposição gradual podem substituir, ao menos parcialmente, reservas formais concentradas.

Concentração de Forças e Riscos Operacionais

O ISW aponta corretamente que a Rússia enfrenta dificuldades para concentrar forças em setores específicos sem enfraquecer outros trechos da frente. Exemplos como ações ucranianas em Hulyaipole, Dobropillya e Kupyansk são apresentados como evidência de que a redistribuição russa cria vulnerabilidades exploráveis.

Ainda assim, esses episódios permanecem táticos e localizados, sem alteração decisiva do equilíbrio estratégico do teatro de operações. O deslocamento de forças, embora arriscado, é inerente a qualquer guerra de grande escala, e não constitui, por si só, prova de colapso operacional. A questão central não é a inexistência de riscos, mas a capacidade russa de aceitá-los dentro de uma lógica de desgaste calculado.

Guerra de Posição como Escolha Estratégica

O texto do ISW critica a opção russa por uma guerra de posição em detrimento da guerra de manobra. Essa crítica, contudo, ignora um elemento central: a guerra de atrito não é necessariamente um erro, mas uma escolha coerente com os recursos disponíveis, a profundidade estratégica e os objetivos políticos de Moscou.

Ao privilegiar o desgaste sistemático das forças ucranianas — humanas, industriais e logísticas — a Rússia busca compensar limitações táticas imediatas com vantagens estruturais de longo prazo, sobretudo em capacidade industrial, profundidade territorial e controle da escalada.

O Fator Externo: A Variável Ocidental

O próprio ISW admite que o ritmo atual do conflito tende a se manter apenas “caso o apoio à Ucrânia permaneça nos níveis atuais”. Trata-se de uma ressalva crucial. A sustentação do esforço ucraniano depende diretamente de decisões políticas nos Estados Unidos e na Europa, sujeitas a ciclos eleitorais, pressões econômicas e fadiga estratégica.

Ignorar essa variável equivale a assumir um cenário de estabilidade política no Ocidente que, historicamente, raramente se confirma em conflitos prolongados.

2026: Estagnação ou Reconfiguração?

A afirmação de que a Rússia será incapaz de alterar significativamente o ritmo da guerra em 2026 reflete mais uma projeção política do que uma conclusão militar definitiva. Embora enfrente restrições reais — sobretudo no plano humano e operacional — Moscou continua a demonstrar capacidade de adaptação, aprendizado e reorganização do esforço de guerra.

A ausência de uma grande reserva estratégica formal não impede:

  • escaladas localizadas;
  • intensificação do uso de fogos de longo alcance;
  • ampliação da guerra híbrida;
  • exploração de fissuras políticas no campo adversário.

Conclusão

O argumento central de que a Rússia não consegue formar reservas estratégicas e, portanto, estaria condenada a uma guerra de desgaste indefinida contém elementos válidos, mas é apresentado de forma excessivamente linear e dependente de fontes interessadas. A realidade aponta para um conflito caracterizado não por paralisia, mas por adaptação contínua e reequilíbrio dinâmico de capacidades.

Em 2026, a guerra na Ucrânia dificilmente será decidida por um colapso súbito de qualquer das partes. O mais provável é a continuidade de um confronto prolongado, no qual decisões políticas externas, capacidade industrial e resistência social pesarão tanto quanto manobras no campo de batalha. Como em toda guerra de atrito, vencerá não apenas quem combate melhor, mas quem suporta mais tempo o custo do conflito.

Fonte: ISW: Russian army unable to build reserves, struggles to expand offensive

Compartilhar:

Leia também
Últimas Notícias

Inscreva-se na nossa newsletter