SARP (Sistema de Aeronave Remotamente Pilotada) é o termo utilizado pelas Forças Armadas Brasileiras para designar o conjunto completo de uma aeronave não tripulada, seus sensores, enlaces de comunicação, estação de controle e meios de operação, empregado em missões de vigilância, reconhecimento e apoio operacional.
Por General de Brigada André Luiz de Souza Dias
e Tenente-coronel Rômulo Torres Ramiro
Clausewitz¹ provou que a guerra é o “reino” das incertezas, com forças antagônicas agindo livremente e tentando impor, umas às outras, suas próprias vontades. Antes dele, Sun Tzu² profetizou que o conhecimento do inimigo e de si próprio representam a chave para a vitória.
Entendendo a importância destes aspectos, bem como o papel capital que jogam a geografia e a população no contexto das operações militares, o Exército Brasileiro, há tempos, incorporou na metodologia dos seus planejamentos o denominado Processo de Integração Terreno, Condições Meteorológicas, Inimigo e Considerações Civis (PITCIC).
John Boyd³, na segunda metade do século XX, concebeu uma teoria focada na velocidade e na eficácia do ciclo decisório, enfatizando que um contendor capaz de reagir mais rápido do que o seu adversário às evoluções do combate, decidindo antes e com acerto, reterá a iniciativa e imporá a ele reações desfavoráveis sucessivas, que somadas no tempo resultarão no seu total colapso.
Esta teoria, denominada Ciclo OODA (Observar-Orientar-Decidir-Agir), faz alusão a um tipo de processo ininterrupto, retroalimentado e francamente dependente da busca de dados.
Para suprir as necessidades do PITCIC e do próprio ciclo de decisão, os meios de coleta de dados hoje disponíveis devem ser utilizados sinergicamente e em sua totalidade.
O dinamismo e a fluidez do combate exigem um acompanhamento e análise da situação em tempo real. Neste escopo, o uso de vetores aéreos representa uma grande vantagem. Outrora, empregava-se balões aerostáticos, como na Guerra de Secessão norte-americana e, logo depois, na Guerra da Tríplice Aliança, por iniciativa do gênio militar de Caxias, Patrono do Exército Brasileiro.
Na atualidade, conforme observado na Guerra da Ucrânia, o uso multifuncional de drones tem transformado radicalmente a maneira de entender a dinâmica do combate, impulsionando-o a dimensões antes impensadas, cujos efeitos no amplo espectro afetam todos os níveis decisórios, do tático ao político.
Tendo em vista a busca por uma melhor preparação para as exigências dos desafios atuais, a 6ª Brigada de Infantaria Blindada – Brigada Niederauer implementou o uso de drones civis pelos seus escalões subordinados na Operação Punhos de Aço 2025.
O propósito da medida foi simplesmente permitir à tropa experimentar as possibilidades e limitações do uso desse tipo material em situação de adestramento, na execução das mais variadas tarefas atinentes às forças blindadas, com resultados bastante positivos.
A edição 2025 da Operação Punhos de Aço[4] consistiu em uma situação tática hipotética, na qual a Grande Unidade blindada realizou operações ofensivas. Primeiramente, foi ocupada a Zona de Reunião, para, em seguida, ter início a Marcha para o Combate Descoberta, cuja Vanguarda foi uma força-tarefa valor unidade.
Estabelecido o contato com o inimigo, em posições sumariamente organizadas, as outras três forças-tarefas
unidade, em um cenário de conduta, ultrapassaram a Vanguarda e realizam Ataques de Oportunidade a três objetivos estabelecidos pela Brigada. Fruto dessas ações, foram criadas as condições favoráveis para o início do Aproveitamento do Êxito, praticado apenas carta, em planejamento prévio à ida ao terreno.
No transcurso da Operação Punhos de Aço 2025, a Força-Terefa 29º Batalhão de Infantaria Blindado (FT 29º BIB) realizou a Marcha para o Combate como segundo escalão da Brigada. Ao ultrapassar a Vanguarda, atacou e conquistou o objetivo decisivo da Grande Unidade, contribuindo para o início do Aproveitamento do Êxito. Durante toda a atividade, a FT 29º BIB utilizou o drone civil DJI Mavic Mini 3 PRO, simulando o emprego de um Sistema Remotamente Pilotado (SARP), previsto na doutrina.
Para melhor contextualizar esta situação, faz-se necessário explicar o conceito de Posto de Comando Tático (PCT) e tecer breves considerações do ciclo de comando e controle.
O Manual EB70-MC-10.205, Comando e Controle (C2), assim define o PCT:
- é a instalação de C2 de constituição leve e com excepcional mobilidade aérea ou terrestre. É dotado de pouco pessoal e material, instalados em veículos apropriados ou em plataforma aérea. A sua missão é conduzir as operações em curso […] (BRASIL, 2023, p. 3-5)
Neste mesmo manual, o Ciclo de C2 é apresentado como um modelo adotado para a compreensão e avaliação de uma situação, com o objetivo de produzir uma tomada de decisão mais precisa e eficaz, buscando a paralisação do processo decisório do inimigo, segundo a teoria de John Boyd (Ciclo OODA).
O PCT do Comandante da FT 29º BIB foi instalado em uma Viatura Blindada de Transporte de Pessoal M113 BR (VBTP M113 BR), que serviu também de ponto de decolagem e aterrissagem do drone. Na execução da Marcha para o Combate, houve incidentes que permitiram utilizar o drone de forma bastante proficiente, em auxílio ao
esclarecimento da mais distintas situações, fruto das evoluções do combate.
Ao ser recebida uma Ordem Fragmentária[5] do Escalão Superior, foi necessário reajustar rapidamente o planejamento inicial da FT 29º BIB. Naquele momento, o uso do drone mostrou-se outra vez efetivo e uma ágil decisão foi tomada. O Comandante da Força-Tarefa pode verificar, por exemplo: os melhores itinerários a utilizar; a localização das forças amigas nos seus flancos; as posições inimigas a atacar; as características do
terreno; e o desenvolvimento da manobra.
De maneira análoga, as imagens cedidas possibilitaram o ajuste do dispositivo no pós-ação com considerável precisão, protegendo a tropa e o objetivo conquistado de quaisquer ameaças.
Do exposto, constatou-se que a utilização do drone civil DJI Mavic Mini 3 PRO, simulando um SARP, contribuiu consideravelmente para o incremento da consciência situacional do Comandante da FT 29º BIB e a consequente rapidez de suas tomadas de decisão.
A aquisição de dados pelo drone complementou o uso de outros meios de busca existentes na Brigada. A VBTP M-113 BR mostrou-se adequada como ponto de decolagem e aterrissagem do material.
Verificou-se que o planejamento integrado do uso destes equipamentos é um objetivo futuro de grande interessante a ser alcançado. Neste sentido, visualiza-se a 6ª Bateria de Artilharia Antiaérea Autopropulsada (estrutura de defesa antiaérea da Brigada) como o elemento ideal para tal gerenciamento.
Talvez o maior ganho desta atividade tenha sido, de fato, proporcionar à tropa o contato com o drone em uma situação tática de adestramento avançado, percebendo, no terreno, suas possibilidades e limitações. Este tema representa um aspecto a ser incluído no rol de Conhecimentos de Interesse da Doutrina (CID), sugerindo-se, pois, a realização de outros estudos que ampliem e aprofundem o assunto, com fim de gerar produtos doutrinários úteis à Instituição, em sintonia com a realidade atual e futura dos conflitos.


REFERÊNCIA:
MINISTÉRIO DA DEFESA. EXÉRCITO BRASILEIRO. Estado-Maior do Exército. Manual de Campanha: Comando e Controle. Brasília, DF, 2023, 3-5 p. (EB20-MC-10.205).
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[1] Pensador e teórico da guerra prussiano, falecido em 1831, com vasta experiência prática em conflitos. Revolucionou o pensamento militar, por meio da obra “Da Guerra” (Vom Kriege, em alemão), de 1832.
[2] General e estrategista chinês, que viveu entre os séculos V e IV a.C., cuja principal obra é “A Arte da Guerra”.
[3] Coronel Aviador e piloto de caça da Força Aérea dos Estados Unidos da América, veterano das Guerras da Coreia e do Vietnã.
[4] Realizado em outubro, no Campo de Instrução Barão de São Borja (Saicã), em Rosário do Sul-RS
[5] São ordens que modificam o planejamento inicial e exigem novas decisões (condutas). São contingências, exploradas em alguma medida na preparação prévia da tropa para a ação, em uma fase denominada “Jogo da Guerra”. Neste momento, são simuladas ações, reações e contrarreações envolvendo todos os contendores, tendo por base a linha de ação escolhida para o cumprimento da missão
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Sobre os autores:
GENERAL DE BRIGADA ANDRÉ LUIZ DE SOUZA DIAS:
Formado em 1996, na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), é oriundo da Arma Infantaria. Atualmente, comanda a 6° Brigada de Infantaria Blindada, com sede em Santa Maria- RS. Nessa mesma Brigada, foi o Comandante da Companhiade Comando, em 2010-11, e do 29º Batalhão de Infantaria Blindado, no biênio 2019-20. Além do Curso de Comando e Estado-Maior do Exército Brasileiro, realizou o Curso de Estado-Maior das Forças Armadas da Espanha e o de Altos Estudos Nacionais da Bolívia. Possui os Mestrados Acadêmicos em Operações Militares e em Ciências Militares, ambos no Brasil, em Política de Defesa e Segurança Internacional, na Espanha, e em Segurança, Defesa e Desenvolvimento, na Bolívia. É membro da Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira (ANVFEB) e do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil (IGHMB).
TENENTE-CORONEL RÔMULO TORRES RAMIRO
O Tenente-Coronel Torres concluiu, no ano de 2002, na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), o Curso de Formação de Oficiais da Arma de Infantaria e o Bacharelado em Ciências Militares. Realizou, também, na Escola de Comando e Estado Maior do Exército (ECEME), o Curso de Comando e Estado-Maior. Foi Oficial de Doutrina e Lições Aprendidas do Comando Militar do Nordeste (CMNE), em 2021. Em 2022, participou da United Nations Interim Force in Lebanon (UNIFIL), como assessor da Brigada Espanhola para as operações correntes. Como instrutor da ECEME, foi relator da disciplina “Brigada” e formulador de doutrina, em 2023 e 2024. Atualmente, comanda o 29º Batalhão de Infantaria Blindado – Batalhão Cidade de Santa Maria, sediado na cidade de Santa Maria-RS.
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