Exército quer mudança na lei para
poder atuar no Rio
Forças Armadas podem ser empregadas durante
o Pan com as polícias só no patrulhamento
e em ´colaborações´.
Nada de subir morro, por enquanto
Tahiane
Stochero
SÃO PAULO
- O comandante do Exército, general Enzo
Martins Peri, diz que "é necessário
aperfeiçoar o ordenamento jurídico
vigente" para que os militares possam atuar
no Rio de Janeiro. Em outras palavras: se houver
base legal, o Exército está pronto
a subir os morros e atuar à sua maneira
para "pacificá-los", como foi
feito nas regiões mais violentas do Haiti.
"Estamos
sempre prontos a cumprir as missões legalmente
atribuídas a nós", afirmou
Peri em entrevista ao estadão.com.br.
Constitucionalmente,
os militares só podem ir às ruas
para a garantia da lei e da ordem, por determinação
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva,
ou quando o governador do Estado se declara incapaz
de combater o crime. Ou seja, trata-se de uma
decisão política.
O instrumento
jurídico se aplica à situação
do morro do Alemão hoje: as crianças
estão há um mês sem aulas,
não há recolhimento de lixo e as
ruas vivem às escuras devido aos confrontos
entre a Polícia Militar e os criminosos.
O tráfico vigora e o Estado não
entra.
Na manhã
desta quinta-feira, uma reunião no Rio
do chefe do Estado-Maior da Defesa, tenente-brigadeiro-do-ar
Cleonilson Nicácio Silva com o governador,
Sérgio Cabral, e o secretário de
segurança do Estado, José Mariano
Beltrame determina o futuro da atuação
das Forças Armadas. Militares devem ser
empregados no patrulhamento de vias expressas
e na segurança de instalações
utilizadas nos jogos, mas sem poder de polícia,
por causa da lei atual. Isso constrange os militares,
que não podem revistar, prender, fazer
buscas ou atuar à sua maneira. Somente
“passear” pela capital fluminense
dentro de um blindado.
Uma exceção
será os Forças Especiais: homens
treinados para atuar em qualquer missão,
em qualquer lugar, a qualquer hora e de qualquer
maneira. Eles são os homens de frente,
de inteligência e de precisão e estarão
de prontidão durante o Pan-Americano. Mas
só em caso de necessidade. Caso o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva decida que o
Exército deva subir o morro, serão
eles que, juntamente com oficiais e soldados que
já atuaram na missão da ONU no Haiti,
irão integrar a operação.
Durante os jogos,
Marinha, Exército e Aeronáutica
podem ceder seus hospitais para atendimento. As
Forças Armadas irão emprestar também
alojamentos, equipamentos e armamento para os
6 mil policiais que integram a Força Nacional
de Segurança e que devem chegar ao Rio
até o início dos jogos, dia 13 de
julho.
A Força
Nacional, criada em 2004, é integrada por
policiais de diversos Estados, com diferentes
treinamentos, equipamentos e salários,
não conhecendo o Rio e que muitas vezes
não tiveram treinamento unificado.O fato
de um órgão novo e sem experiência
ser responsável pela segurança de
um evento de repercussão internacional
preocupa o policial e deputado federal Willian
Woo (PSDB).
"Eu estou
preocupado e fiquei assustado com a demissão
de três coronéis que estavam preparando
havia três anos o programa de segurança
do Pan e 60 dias antes dos jogos foram demitidos
e não puderam passar seus ensinamentos.
Precisamos estar preparados para uma eventualidade,
como um ataque terrorista ou uma intervenção
na Baía de Guanabara. Eu tenho certeza
de que se algo ocorrer fora do cotidiano, teremos
problemas em resolver", diz Woo.
O deputado esteve
no Haiti em maio e defende a ação
do Exército no Rio, desde que com amparo
legal explícito. “Uma ação
do Exército no Rio com certeza teria sucesso.
Só precisa ter regras de conduta igual
tem na intervenção da ONU. O que
hoje pela nossa lei não é possível.
Precisamos de regras de conduta claras de o que
o militar deve fazer e como agir", diz.
Haiti
como modelo
O comandante
do Exército diz que a experiência
no Haiti mostra ser necessária a presença
"ostensiva e permanente das forças
de segurança", mas ela é insuficiente
sozinha. Segundo ele, são necessárias
também "ações em benefício
da população, como as desenvolvidas
pelos militares lá; tudo é feito
de acordo com as necessidades específicas
da comunidade”.
Ele lembra, contudo,
que há diferenças entre as duas
situações:
“A realidade
haitiana e o arcabouço legal que suporta
as ações da ONU lá são
diferentes das encontradas no Brasil. A solução
para o Rio não seria uma ação
apenas militar – como também não
é no Haiti – mas a integração
de esforços de toda uma gama de instituições:
do Estado, em suas várias esferas, municipal,
estadual e federal; de organizações
privadas e mesmo parcerias com empresas, em benefício
de programas continuados dirigidos à população
trabalhadora e honesta que vive nestas áreas
e, principalmente, visando afastar da juventude
o atrativo da criminalidade”, argumenta
o general.
Apesar de “topograficamente
haver semelhança entre as favelas de lá
e aqui”, as semelhanças param nas
táticas militares que seriam empregadas.
“No Haiti, fora do perímetro das
favelas ainda há a quase total ausência
do Estado, o que não ocorre nas grandes
cidades brasileiras. As favelas haitianas não
abrigam pontos significativos do tráfico
de drogas. Os contingentes operam no contexto
de uma missão da ONU, com regras de engajamento
perfeitamente definidas”, aponta o comandante
do Exército, lembrando que lá os
militares não moram ou têm famílias
em regiões próximas ao local de
combate, diferentemente do Brasil.