| Brasil
se opõe a tratado para banir as bombas cluster
O governo brasileiro
está se opondo a uma iniciativa internacional
para banir as chamadas bombas "cluster"
(ou bombas cacho), um armamento já criticado
pela Organizações das Nações
Unidas e apontado como séria ameaça
a civis em áreas de conflito.
O Brasil é um dos poucos fabricantes da arma
em todo o mundo e alega que é contra a proibição
porque isso diminuiria o poder de dissuasão
das Forças Armadas nacionais. O país
é um dos quatro fabricantes de bombas cluster
nas Américas, ao lado de EUA, Argentina e
Chile. Desse grupo, só os dois últimos
apóiam a proibição.
O fim das bombas cluster vem sendo proposto há
alguns anos por entidades ligadas aos direitos humanos.
Em novembro do ano passado, o governo da Noruega
lançou a proposta de criar um novo tratado
internacional que proíba a fabricação,
a estocagem, o uso e a transferência desse
armamento Trinta países logo aderiram à
idéia. Em fevereiro, eles se reuniram em
Oslo para a primeira rodada de discussões.
Hoje 75 países - incluindo diversos produtores
das cluster - já integram o assim chamado
processo de Oslo. Em maio, o Peru sediou a segunda
reunião. Outras duas reuniões estão
previstas para este ano: na Costa Rica e na Áustria.
A meta é aprovar um tratado proibindo a arma
já em 2008.
As bombas cluster podem ser disparadas por terra
ou por ar e se abrem espalhando dezenas ou centenas
de submunições explosivas sobre extensas
áreas. A principal crítica ao armamento
é que um grande número dessas submunições
(ou bomblets) permanecem no solo sem explodir. Isso
significa que as áreas de combate se convertem
em campos minados, com os bomblets podendo ser detonados
quando pisados ou tocados inadvertidamente por civis.
É o que tem ocorrido, por exemplo, no Líbano
após a guerra de Israel contra o Hezbollah.
Mais de 30 civis, incluindo crianças, já
morreram por submunições não
detonadas na guerra. Segundo a ONU e grupos de direitos
humanos, Israel despejou 4 milhões de submunições
cluster em território libanês. Especialistas
da ONU dizem que até 1 milhão ficaram
sem explodir. No ano passado, o então secretário
da ONU, Kofi Annan, disse que essas bombas não
deveriam mais ser usadas em áreas civis e
populosas.
A Coalizão contra as Cluster Bombs (Cluster
Bombs Coalition, ou CMC), entidade guarda-chuva
que reúne 200 grupos pelo mundo e que é
a principal defensora do processo de Oslo, diz que
o Brasil está entre os 34 países fabricantes
de bombas cluster do mundo. Segundo a CMC, a Avibras,
a Britanite Indústrias Químicas e
a Target Engenharia produzem a arma. A Avibras confirmou
que a produz para as Forças Armadas, além
de exportá-la para Arábia Saudita,
Catar e Malásia, entre outros. A Britanite,
porém, negou a informação.
A reportagem não conseguiu localizar a Target,
que já teria fechado.
"A entrada do Brasil no processo seria um grande
incentivo a outros países da região",
disse ao Valor Thomas Nash, coordenador da CMC.
"O Brasil também seria chave para a
concretização da proposta de tornar
a América Latina a primeira região
do mundo livre das bombas cluster", disse,
referindo-se a uma proposta apresentada pelo Peru.
O Ministério da Defesa justificou a resistência
brasileira ao banimento da arma alegando que "as
munições 'cluster' conferem poder
de dissuasão a Forças Armadas de países
de menor poder econômico, como o Brasil. Por
esta razão o país é contra
a sua proibição."
Já o Ministério das Relações
Exteriores diz que o governo é contra um
novo tratado por considerar que "os atuais
compromissos já são suficientes e
equilibram os diversos aspectos da questão,
incluindo o da produção, e devem ser
adotados de forma completa" para minimizar
danos a civis. O Itamaraty apóia medidas
como maior troca de tecnologia entre países
para limpar áreas atacadas por submunições.
O compromisso ao qual se refere é a Convenção
sobre Certas Armas Convencionais que podem ser consideradas
nocivas demais ou geradoras de efeitos indiscriminados
(CCAC).
"A proposta de um novo tratado surgiu justamente
da ineficácia da CCAC, no qual os processos
são lentos e que reúne um número
menor de países do que os que estão
no processo de Oslo", rebate Cristian Wittmann,
representante da coalizão anti-cluster no
Brasil.
Para João Verdi, presidente da Avibras, o
banimento é desnecessário já
que hoje existe um sistema de auto-destruição
da cluster que é acionado minutos após
seu lançamento. "O ponto crítico
é ter ou não esse dispositivo, porque
sem ele o armamento se transforma numa mina terrestre",
disse.
Os governos da Alemanha e da França estão
entre os que querem que bombas cluster com esses
dispositivo não venham a ser banidas. A idéia
é questionada. "Há muitas evidências
que esses dispositivos simplesmente não funcionam
como deveriam. No Líbano, por exemplo, muitas
das bombas não detonadas tinham esse sistema
e ele não funcionou", diz Nash.
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