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O
Horizonte é Verde Oliva
Augusto Nunes
Manaus Encarregado de buscar algum tipo de
ajuda para o combate a crônicas carências
que prejudicam o desempenho do 5º Batalhão
de Infantaria da Selva, o capitão do Exército
pousou em Brasília dias depois de ter deixado
São Gabriel da Cachoeira, no Alto Rio Negro.
Fica ali a sede da unidade que reúne 450
militares e monitora a movimentação
de outros 300 soldados distribuídos por meia
dúzia de destacamentos.
A esse pequeno contingente - menos de mil cidadãos
fardados - cumpre manter incorporada ao mapa do
Brasil a região da Cabeça do Cachorro,
uma vastidão territorial nas vizinhanças
da Colômbia e da Venezuela. Caso se limitassem
à vigilância das fronteiras, já
seriam poucos. Mas os homens e mulheres do 5º
BIS cuidam de muito mais.
O Ibama mantém na região dois funcionários.
Crachás do Incra e da Funai aparecem por
ali com a periodicidade dos cometas. A Polícia
Federal anda ocupada demais com metrópoles
conflagradas. Poupadas de sobressaltos, quadrilhas
internacionais usam o transporte fluvial para enriquecer
com o tráfico de drogas. Faltam hospitais,
médicos, remédios, escolas. O poder
público é o grande ausente naquele
mundo. Sobrou o Exército.
E sobra para o Exército. É nos quartéis
que procissões originárias de comunidades
ribeirinhas, aldeias indígenas ou da periferia
flagelada das cidades buscam assistência médica,
professores, comida, proteção contra
pastores da desordem e incendiários das matas.
Castigados por soldos raquíticos e verbas
mofinas, os militares fazem o que podem. Parece
pouco. É muito para para os mais aflitos.
Para alguns, é a vida.
Fosse mais sensato o país, seriam escancaradas
ao emissário do 5º BIS as portas de
todos os gabinetes da capital. Mas isto é
o Brasil. Do aeroporto, o capitão seguiu
para a conversa com um alto funcionário do
Ibama. Talvez conseguisse algum socorro.
A audiência fora combinada semanas antes.
O oficial teve de esperar duas horas até
ser recebido pela carranca atrás da mesa.
Com polidez, registrou que o atraso o impediria
de cumprir compromissos igualmente relevantes. O
anfitrião não gostou do que ouvira.
- Quando vocês mandavam no Brasil, não
falavam com ninguém - irritou-se. - Só
recebiam a gente na cadeia. O oficial reagiu serenamente
à provocação.
- Creio que o senhor está se referindo ao
período dos governos militares - certificou-se.
- Devo informar que tenho apenas 35 anos.
Tinha 15 quando a restauração democrática
devolveu aos civis o controle do país. Nos
anos de chumbo, não era sequer um brilho
nos olhos dos seus pais. Mas é hostilizado
com freqüência por veteranos da guerra
travada num país que não conheceu.
"Muitos homens do governo não conseguem
entender que as coisas mudaram", lastima um
general da reserva. "Prisioneiros do passado
não enxergam o que fazem os 25 mil militares
em serviço na Amazônia. Sem eles, o
presente seria bem pior. E talvez não houvesse
futuro".
Essa espécie de miopia não se manifesta
entre os habitantes do lugar. Ainda são poucos
para um território tão vasto, mas
bastam para sepultar o "deserto verde"
no mausoléu das velharias. Enquanto aprendem
a conviver com a maior floresta tropical do planeta,
esperam que o poder público descubra a Amazônia.
E esperam que emissários dos quartéis
recebam do governo o socorro negado na primavera
ao capitão do Rio Negro.
Multiplicação
dos quartéis
O coro pela ampliação
da rede de quartéis da Amazônia tem
sido engrossado por adesões surpreendentes.
A mais desconcertante foi recentemente formalizada
pela faixa estendida na fachada da casa em Manaus
onde mora o ex-senador petista Evandro Carreira,
que ganhou fama nos anos 80 como um dos chefes da
seita que acreditava na eternização
da floresta como santuário natural intocável.
Essa reprodução em escala reduzida
do Dia da Criação haveria de atravessar
os séculos. A inscrição na
faixa comunica a mudança: o ex-senador se
convenceu de que só a multiplicação
dos pontos assinalados em verde-oliva poderá
neutralizar a cobiça dos estrangeiros e impedir
que aquela imensidão seja amputada do mapa
do Brasil.
"O futuro está na ocupação
militar da Amazônia", proclama Carreira.
Isso é essencial para assegurar ao país
a posse da terra, ostensivamente contestada por
numerosas nações. Seria o marco zero
do caminho que conduz ao desenvolvimento sustentável,
à exploração racional dos recursos
da selva, ao fim dos desmatamentos criminosos, à
proteção das fronteiras.
A campanha pela proliferação de unidades
militares lembra também que o tesouro fluvial
requer mais cuidados e carinhos. Num mundo cada
vez mais sedento de água doce, corre a céu
aberto, nos esplêndidos rios do lugar, o verdadeiro
petróleo do futuro.
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