| Mudança
na Caserna
Discurso de posse do ministro
da Defesa,
Nelson Jobim
Ministéio da Defesa,
26 de julho de 2007
Meu querido amigo
irmão Waldir Pires,
Excelentíssimo Senhor Comandante interino
da Marinha do Brasil, Almirante-de-Esquadra Julio
Saboya de Araújo Jorge,
Excelentíssimo Senhor Comandante do Exército,
General-de-Exército Enzo Martins
Peri,
Excelentíssimo Senhor Comandante da Aeronáutica,
Tenente-Brigadeiro-do-Ar Juniti Saito,
Excelentíssimos Senhores ministros do Supremo
Tribunal de Justiça, eminente ministro Carlos
Alberto Direito,
Excelentíssimos senhores oficiais secretários
deste Ministério,
minhas Senhoras, meus Senhores,
Adriene, Júlio.
Não é um momento, nesta situação,
de grandes comemorações. Nós
estamos vivendo o impacto e o lamento dos recentes
acontecimentos. Me refiro, explicitamente, ao acidente
ocorrido no aeroporto de Congonhas. Peço,
portanto, antes de prosseguir, que em homenagem
a estes personagens, façamos um minuto de
silêncio.
Seja, meus amigos,
esse minuto de silêncio com um duplo significado.
Seja, por um lado, a nossa solidariedade às
famílias dos vitimados. Seja, por outro lado,
também o nosso lamento com os sobreviventes.
Mas seja, também por outro lado, a alerta
de que a questão posta é estrutural,
que precisa exatamente da união de todos.
Nós precisamos identificar responsabilidades
do passado. Nós precisamos criar, em cima
das identificações das responsabilidades
do passado, soluções para o futuro.
Efetivamente, há aqueles que se satisfazem
da retaliação exclusiva com o passado,
e há outros que querem ajuste de contas com
o futuro. Senhores Oficiais-Generais, senhores Comandantes
das Forças, é exatamente este o nosso
tema. É exatamente esta a nossa destinação.
Perdoe-me que vá a historia.
Lembro algo que me parece absolutamente relevante,
e que hoje começa o Brasil a repensar a si
mesmo. Observem que a América Portuguesa
permaneceu unida, numa nação, o Brasil
Continental. E a América Espanhola dividiu-se
em “Ns” soberanias. Por quê? Porque
tivemos um personagem que começa hoje a reconquistar,
reconsiderado e reexaminado. Dom Pedro II. Que soube
exatamente nos atritos e conflitos políticos
do império, compreender a relação
que teria que se estabelecer entre as instituições
políticas do império e a própria
destinação do país. Refiro-me,
senhor general Enzo, ao conflito político
que se estabeleceu em 1868, entre o gabinete Liberal
de Zacarias Goes de Vasconcelos com Barão
de Caxias, considerando os conflitos da Guerra do
Paraguai. Dom Pedro soube superar o conflito, soube
integrar este processo a substituição
de Zacarias, e soube claramente dar respostas ao
extraordinário discurso de José Bonifácio,
na composição do famoso período
do Gabinete do Visconde de Itaboraí. Era
o Saquaremas, Waldir. Estavam atrás de nós
toda a revolução Pernambucana e o
Brasil soube chegar ao 15 de Novembro. 15 de novembro
este que começou a nascer em 1870 com a fundação
do Partido Republicano e, que, pelas intrigas introduzidas
pelo partido republicano riograndense, de Júlio
de Castilhos, trouxe aliança com os jovens
oficiais republicanos, liderados por Benjamim Constant
Botelho de Magalhães.
Senhores, não
há comparar aquele momento do final de império
com o momento posterior da república. Mas
há que se compreender de que esta integração
do Brasil deve-se à genialidade, então.
Lembra-se senhores oficiais, na minha Santa Maria
da Boca do Monte, não eram os Comandos Militares,
nunca foram de gaúchos, sempre foram de oficiais
vindos do Norte e do Centro do País, em especial
do Rio de Janeiro. Dom Pedro nunca permitiu, na
formação da nação brasileira,
que oficiais militares, da própria terra,
comandassem as Forças da própria terra.
Porque evitava, e assim evitou-se, meu caro Waldir,
as alianças possíveis das elites políticas
regionais com os comandos militares. E se passou
no império da Bahia, sabe a que me refiro.
Eu creio que hoje, por circunstâncias conhecidas,
aceitei vir ao Ministério da Defesa. Mas
aceitei para vir ao Ministério da Defesa,
nas linhas determinadas pelo Presidente Lula, ou
seja, vamos exatamente, na linha do espírito
imperial e republicano, que as Forças Armadas
tiveram a inteligência de compor, principalmente,
a Primeira República. Vamos construir esta
integração destas instituições
efetivamente ao Estado Brasileiro. Porque, ao fim
e ao cabo, nós podemos mandar porque temos
que obedecer. E o nosso comandante é o povo
brasileiro. Ou seja, a legitimidade do mando, e
da ordem, e do comando vem exatamente de uma legitimidade
que se radica na cidadania. E que se estrutura exatamente
a partir de uma visão de futuro. E a compreensão
nítida de que nossas ações
são julgadas, não pelas nossas intenções,
mas pelos nossos resultados. A história não
registra e não grava boas intenções.
A história registra o que fazemos e o que
deixamos de fazer. Ela não aceita explicações.
Aliás, Ulisses, lembra-te Waldir: Doutor
Ulisses referia-se, claramente, quer na atividade
política, quer na gestão administrativa,
há uma regra, do primeiro ministro inglês
Disraeli. “Never complain, never explain,
never apologise”. Nunca se queixe, nunca se
explique, nunca se desculpe. Aja ou saia.
Faça ou vá embora. Exatamente por
isto, que este extraordinário corpo de oficiais
militares das Forças Armadas, herdeiros de
uma tradição que remonta a antes da
independência, tiveram, exatamente, dos corpos
iniciais, da presença de Dom João
VI. Veja-se o tribunal dos senhores, o Tribunal
Superior Militar, o mais antigo tribunal brasileiro.
Senhores, a nossa geração é
responsável para manter essa história,
manter esse futuro. Tenham a mim, senhores oficiais,
como aliado absolutamente transparente, aliado que
precisa ouvir não, e também sabe dizer
não. E não é possível
que tenhamos, nas assessorias, pessoas que saibam
a mesma coisa que nós, porque são
inúteis. Precisam saber mais do que nós.
Assessor que não conhece temas mais que o
assessorado não serve para assessoria.
Serve, isto sim, para bajulação. Serve,
isto sim, para proselitismo. E por isso, meus caros
amigos, meus caros Comandantes, senhores secretários,
oficiais generais, integro, e passo a integrar esse
ministério, com este objetivo. Da linguagem
tranqüila, que vamos enfrentar esses problemas
que estamos vivendo e enfrentá-los na perspectiva
de uma grande união nacional, para mostrar,
exatamente, ao País, ao povo brasileiro,
que é o nosso comandante, e ao mundo, que
o Brasil veio para ficar, e veio para ter voz. Venho
exatamente para definir prioridades e saber que
é uma grande Nação. Meus amigos,
resta agora lembrar as nossas necessidades. E essas
necessidades serão definidas em uma grande
mesa, que iremos sentar.
Uma grande mesa de integração, de
união, de definições e, fundamentalmente,
de resultados. Não podemos, não temos
tempo, para ouvir explicações. Precisamos
consumir o tempo do lamento para a construção
de soluções. Lembrem-se, e repito,
o tempo não perdoa o que a gente faz sem
ele. É a única coisa que não
recuperamos. E o nosso tempo é o tempo da
nossa história. Lembrem-se que não
se confunde esse tempo da nação brasileira,
o tempo histórico da Nação,
com o tempo da nossa geração. Nós
servimos em um tempo histórico muito mais
amplo. E o nosso tempo histórico é
um tempo curto, circunstancial, eventual, mas, fundamentalmente,
de compromissos com isto. Ou seja, com o tempo histórico
da Nação.
Agradeço a presença dos meus amigos.
Faço uma referência especialíssima
ao Osmar Terra, da grande Santa Maria, que é
Santa Rosa. Me refiro na imprensa a um personagem
só. Todos compreendam o porquê. Era
um velho distribuidor de jornal de esquerda, o Ilimar
Franco, que fazia aquilo que agora não faz
mais, porque agora ele faz parte da elite. E essa
elite não distribui mais jornais nas esquinas.
Quero dizer a todos que espero a compreensão,
a colaboração e, fundamentalmente,
a ação. A ação que só
se legitima pelos seus resultados.
Almirante: a memória nacional fica pelos
resultados, e não por aquilo que possamos
fazer. E lembrem-se, que nós temos que abandonar
por completo aquilo que tínhamos na infância,
na juventude. Nós nunca éramos culpados
de nada. Sempre alguém era culpado. Eu não
falo inglês porque meu professor de inglês
era péssimo. Tenho dificuldades em matemática,
porque a matemática me era dada por um padre
marista terrivelmente imbecil. Ah, tenho dificuldades
de fazer qualquer coisa porque a minha mãe,
a minha namorada, a minha amante, não deixava.
Lembrem-se que nós sempre encontramos alguém
que seja culpado, menos nós. Queremos ser
o herói do nosso tempo. Não somos
heróis do nosso tempo. Nós somos servidores
da Nação. Vamos ao trabalho meus caros
amigos.
Muito obrigado.
Nelson Jobim
|