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Orçamento
da Defesa pode subir para R$ 10 bi
País
corre risco de perder liderança militar na
região
Daniel
Rittner
O governo concluiu
um audacioso plano de reaparelhamento das Forças
Armadas em que prevê investimentos de até
R$ 16 bilhões para a aquisição
e modernização de equipamentos militares.
O plano pressupõe a ampliação
do orçamento anual do Ministério da
Defesa para R$ 10 bilhões - o que inclui
despesas de custeio - e define prioridades na compra
de armamentos.
Está prevista, por exemplo, a retomada do
Projeto
F-X, de aquisição de novos
caças para a Aeronáutica, com despesa
de US$ 1,1 bilhão entre 2008 e 2012. Trata-se
de um investimento superior aos US$ 700 milhões
estimados anteriormente para a compra dos aviões,
que foi interrompida oficialmente em fevereiro de
2005.
Excluindo despesas com pessoal, o ministério
recebeu R$ 6,6 bilhões para gastar neste
ano, somando custeio e investimentos, mas a verba
diminuiu para R$ 5,3 bilhões após
o contingenciamento. Ou seja, a recomendação
é praticamente dobrar o orçamento
da Defesa. Após quase dez meses de discussões,
porém, o grupo de trabalho formado para discutir
o assunto chegou a um impasse: o Ministério
do Planejamento e a Casa Civil deram sinal verde,
mas a Fazenda discordou do aumento dos recursos
para R$ 10 bilhões por ano. Com a exposição
da divergência no relatório final do
grupo, o assunto será decidido em breve pelos
ministros.
Cada comando militar definiu suas prioridades, explicitando
uma ordem de importância a cada projeto, e
submeteu-as à avaliação do
grupo. O relatório final prevê R$ 7,7
bilhões para atender às prioridades
da Aeronáutica
até 2012, R$ 4,3 bilhões para a Marinha
até 2011 e R$ 4 bilhões para o Exército
até 2009. Como o grupo trabalhava com a hipótese
de início dos gastos ainda em 2006, quando
promoveu suas discussões, o cronograma teria
que passar agora por leve ajuste.
A defasagem tecnológica e a necessidade de
reaparelhamento das Forças Armadas tiveram
ênfase nos discursos de posse dos novos comandantes
militares, nas últimas semanas. O almirante
Júlio
Soares de Moura Neto, que tomou posse no
dia 1º de março, afirmou que a Marinha
está "perdendo a capacidade operacional"
e descreveu a situação como "insustentável".
Ao transmitir o cargo para o general Enzo Peri,
o ex-comandante do Exército, Francisco Albuquerque,
também tocou no assunto. "No presente
período, os recursos à disposição
da Força não foram, é óbvio,
suficientes para superar o desgaste de décadas",
disse Albuquerque.
O
tenente-brigadeiro Juniti Saito, que assumiu
a Aeronáutica no fim de fevereiro, sinalizou
com a retomada do processo de compra de novos caças,
conhecido como Projeto F-X. Foi aberta uma concorrência
internacional em 2001, com valor estimado de US$
700 milhões, que trouxe ao Brasil promessas
de transferência de tecnologia e fortes lobbies.
Na licitação, quatro grupos chegaram
à fase final do processo: o consórcio
franco-brasileiro Embraer-Dassault, a americana
Lockheed, o grupo anglo-sueco Saab e o russo Sukhoi.
Na análise técnica-operacional da
Força Aérea Brasileira (FAB), o Sukhoi-35
despontou como favorito, mas a concorrência
foi colocada na geladeira pelo presidente Luiz Inácio
Lula da Silva na sua primeira semana de governo
e encerrada formalmente em 2005.
Agora, o F-X deverá ser retomado, sem a necessidade
de uma licitação formal. Os russos
continuam com alguma chance, mas uma nova geração
de caças ganhou escala industrial nos últimos
anos e tornou defasadas a maioria dos aviões
oferecidos anteriormente. O preferido de boa parte
da cúpula da Aeronáutica é
o francês Rafale, da Dassault, cujas unidades
de série só começaram a ser
entregues em 2004. Hoje custam em torno de US$ 70
milhões por avião. Uma alternativa
ao Rafale, também considerada pela FAB mas
com menos entusiasmo, é o Eurofighter Typhoon,
fabricado por um consórcio europeu - Reino
Unido, Alemanha, Itália e Espanha.
O novo relatório do governo prevê dotação
orçamentária para a compra dos caças
e reserva US$ 10 milhões para o início
do pagamento, em 2008. Em 2009 a verba sobe para
US$ 157,9 milhões. Os recursos aumentariam
para US$ 300 milhões em cada um dos dois
anos seguintes. Em 2012 seria quitada a última
parcela do financiamento, com US$ 332,1 milhões.
O valor total da aquisição é
de US$ 1,1 bilhão - aproximadamente 50% mais
caro, portanto, que o F-X original.
Apesar da importância atribuída ao
projeto pela Aeronáutica, a compra dos novos
caças é a segunda prioridade na lista
de ações sugeridas pela Força.
A primeira
é o término do Plano de Recuperação
Operacional da FAB (Profab), com aquisições
já realizadas e modernizações
em andamento. Fazem parte do Profab, por exemplo,
a compra de aviões de transporte de tropas
e de cargas Casa-295 da Espanha, a aquisição
de caças Mirage
2000C usados da França e a modernização
dos
F-5 pela Embraer. Também está
na lista a ampliação da frota de turboélices
C-98 - o modelo Caravan utilizado pelo Correio aéreo
Nacional - para transporte de cargas leves e de
passageiros entre pequenas distâncias, principalmente
na Amazônia.
Originalmente previsto para terminar neste ano,
o Profab teve a sua conclusão estendida para
2012. A prioridade máxima dada ao programa
explica-se por causa do custo adicional que o refinanciamento
de dívidas teria se faltarem recursos para
o pagamento das compras realizadas.
Na segunda prioridade da Aeronáutica,
ao lado do F-X, está a aquisição
de mais 12 jatos para aumentar a frota
destinada ao transporte de autoridades.
O plano aponta a necessidade de compra de oito aeronaves
Phenom 300 e de quatro ERJ-135, ambas fabricadas
pela Embraer, mesmo após as críticas
feitas durante a campanha presidencial à
aquisição do Airbus
319 da Presidência da República
- o "AeroLula".
A terceira prioridade
da FAB é a execução do Projeto
CT-X, para fabricação de um
novo turboélice que substituirá os
Bandeirantes da frota atual. Com uma encomenda inicial
de pelo menos 50 aeronaves, o projeto tem um custo
estimado em US$ 300 milhões e pretende impulsionar
a indústria aeronáutica no país.
Bimotores simples e sem trem de pouso retrátil,
as aeronaves terão tecnologia estrangeira,
mas serão montadas com mão-de-obra
brasileira e incluirão peças nacionais,
tornando-se sucessoras do Bandeirante, com uso potencial,
inclusive, na aviação civil.
O Exército definiu
suas prioridades de maneira bem mais fragmentada,
com uma lista
que contempla a compra de blindados, viaturas
operacionais e sistemas de defesa anti-aérea.
Para atender à principal prioridade da Força,
o relatório diagnostica a necessidade de
alocar R$ 1,9 bilhões para investimentos
no período 2006-2009. As demais ações
previstas incluem, entre outras, a integração
dos sistemas de comunicação do Exército
e a aquisição de mais helicópteros.
Na Marinha, o programa de reaparelhamento
se concentra no período 2006-2011, mas prevê
ações complementares por mais 15 anos.
A maior prioridade é dada à compra
de seis submarinos convencionais, ao ritmo
de um por ano, bem como à modernização
dos cinco submarinos que já compõem
a frota da Marinha. No ano passado, a Força
anunciou a encomenda de um submarino U-214 para
o estaleiro alemão ThyssenKrupp Marine System.
Para sair do papel, o aumento
dos recursos para a Defesa e a viabilização
do programa de reaparelhamento das Forças
Armadas depende de um aval do presidente. Aguarda-se
para breve uma reunião ministerial para fechar
o assunto e levá-lo a Lula, embora o assunto
tenha ficado momentaneamente parado por três
fatores: o apagão aéreo, a troca de
comandantes militares (e provavelmente do ministro
da Defesa) e a formatação do Programa
de Aceleração do Crescimento (PAC).
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