| Uma guerra
pela internet
O maior ciberataque
da história tira a
Estônia da rede. O suspeito é a Rússia
Duda Teixeira
Nas últimas
três semanas, a Estônia, um dos três
estados bálticos, sofreu três ondas
sucessivas de ataques cibernéticos, interrompendo
os serviços de internet e imobilizando o
governo. O país de 1,4 milhão de habitantes
e território com área equivalente
à do estado do Rio de Janeiro orgulha-se
da eficiência de seu estado on-line, sem a
burocracia dos papéis, e de ter realizado
as primeiras eleições nacionais pela
internet. Com seus serviços eletrônicos
abalados pelo ciberataque, a Estônia mergulhou
num caos equivalente apenas ao de 1991, quando o
colapso da União Soviética permitiu
a independência do país. Impossibilitadas
de ler e-mails, as autoridades tiveram de recorrer
aos velhos aparelhos de fax. Sites de notícias
saíram do ar e ninguém conseguia acessar
os serviços bancários on-line. Nunca
antes um estado havia sofrido um assalto cibernético
tão sistemático e devastador. As implicações
do ataque fizeram soar o alarme na Europa, e a Otan,
a aliança militar do Ocidente, da qual a
Estônia faz parte, enviou uma equipe de especialistas
para tentar erguer uma barreira de defesa tecnológica
e ajudar os estonianos a localizar os responsáveis
pelo vandalismo eletrônico. Numa reunião
na sexta-feira passada em Samara, na Rússia,
o presidente da Comissão Européia
advertiu que o bloco poderia sair em defesa da Estônia
na guerra pela internet.
Encontrar o culpado
é a parte fácil. Examinados os rastros
deixados pelos hackers, o primeiro-ministro Andrus
Ansip não teve dúvidas em culpar a
Rússia pela bagunça digital. O governo
russo negou formalmente envolvimento na ofensiva
cibernética – mas não existe
outro suspeito. Os primeiros ataques ocorreram em
27 de abril, dia em que o governo da Estônia
removeu a estátua de bronze de um soldado
soviético do centro da capital e a transportou
para um cemitério militar, fora da cidade.
Para os estonianos, o monumento era uma triste lembrança
das cinco décadas em que permaneceram sob
ocupação soviética. Para os
descendentes de russos, que representam um terço
da população, era um símbolo
da resistência contra o nazismo na II Guerra.
Nos dias seguintes, manifestantes russos entraram
em conflito com a polícia nas ruas de Talim,
a capital. Uma pessoa foi morta e mais de 150, feridas.
A Rússia entrou na polêmica com ameaças
de usar a força em defesa da minoria russa
na Estônia.
A guerra pela internet
foi uma forma evidente de retaliação
contra o governo estoniano. Os sites da Presidência
da República, do Parlamento, dos partidos
políticos e dos bancos foram invadidos para
que se colocassem no ar frases e fotos de soldados
soviéticos. Ainda mais grave foi o uso de
vírus para sobrecarregar os servidores da
Estônia, impedindo-os de funcionar. Para isso,
os hackers espalharam programas invasores em milhares
de computadores pelo mundo, que, com um simples
comando, entupiram com lixo eletrônico as
máquinas estonianas, que pifaram sem conseguir
atender à avalanche de informação.
Como os computadores possuem um número de
identificação, o IP, para acessar
a internet, foi possível descobrir de onde
partiram os ataques. A maioria vinha da Rússia
e de instituições do governo russo.
O Kremlin diz que isso não prova nada, pois
os números de IP podem ser facilmente falsificados.
"Os criminosos podem estar em qualquer lugar,
até na África do Sul ou no Brasil",
concorda Rogério de Campos Morais, diretor
da divisão de segurança da IBM, em
São Paulo.
Em se tratando da
Rússia, acusações, mesmo as
mais fantasiosas, podem ter fundamento. Que outro
país é suspeito de ter matado um dissidente
com polônio radioativo e envenenado um político
estrangeiro com uma substância que o deixou
desfigurado? Dezesseis anos após o fim da
Guerra Fria, o governo de Putin tenta restabelecer
a antiga influência do império soviético
na vizinhança. Ele retomou a linguagem do
passado para se opor ao plano americano de instalar
um sistema antimíssil na Europa Ocidental.
Na sexta-feira, uma reunião com a União
Européia acabou em desavença por causa
da falta de respeito pelos direitos humanos na Rússia.
Nos últimos meses, o país tem criado
sucessivas crises com países que, como a
Estônia, deixaram sua esfera de influência
para ingressar na União Européia ou
na Otan. Putin suspendeu importações
de carne da Polônia, cortou o fornecimento
de petróleo para a Lituânia e ameaça
não aceitar a independência de Kosovo,
hoje uma província da Sérvia. A guerra
cibernética pode ser sua nova arma para punir
desafetos
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