No ar e na terra, mais de
40 males
Falta
de comando, de gestão, de infra-estrutura,
de prioridade de
investimentos, e até bichos atravessam o
setor aéreo no Brasil
Érica
Ribeiro
Os dez meses que
separam os dois piores momentos da aviação
brasileira - o acidente com o avião da Gol,
em setembro do ano passado, e a explosão
do avião da TAM, após um choque, anteontem
ocorrido na terça-feira - deixaram à
mostra uma série de problemas antes desconhecidos
dos que eram apenas usuários do transporte
aéreo. Entre eles, a falta de equipamentos
modernos para o controle do tráfego, problema
que trouxe à tona a queda de braço
dos controladores de vôo sobre a desmilitarização
do setor e melhores condições de trabalho.
O caos se instalou com atrasos e cancelamentos de
vôos, que se tornaram rotina. Sem contar os
já antigos problemas de infra-estrutura,
que não se restringem aos aeroportos de maior
movimento. Acrescidos da falta de preparo de quem
está à frente dos principais órgãos
ligados ao setor, as promessas não cumpridas
pelo governo e a incapacidade de gerenciar a crise
têm como reflexos aeroportos que chegaram
no limite, como é o caso de Congonhas, e
que tumultuam a operação em todo o
país. Tantos problemas e ainda surgem situações
inusitadas como um cachorro na pista para engrossar
a lista dos males da aviação no Brasil.
APARELHAMENTO:
A Aeronáutica foi gradativamente alijada
do controle do tráfego, substituída
por aparelhamento na Infraero e na Anac. A Infraero
deveria repassar grande parte dos cerca de R$2 bilhões
que arrecada para uso na segurança do vôo
e dos aeroportos, mas não o faz.
RADARES:
Todos os radares dos aeroportos e dos pontos estratégicos
viraram sucata. O Brasil imita a Nigéria
em segurança aérea. Na ausência
dos radares, os aviões têm que voar
como há trinta anos, separados pela distância
e usando rádio farol. Impossível fazer
muitos aviões voarem deste jeito.
SIVAM:
O Sistema de Vigilância Aérea da Amazônia,
que nem foi completado por falta de verba, está
sucateado. Voar na Amazônia é uma aventura,
segundo depoimento de pilotos.
POLÍTICAS
PÚBLICAS: Faltam políticas
públicas para o setor de aviação.
CONGONHAS:
Congonhas só deveria ter vôos de ponte-aérea
e regionais. No máximo, para Brasília.
Por pressão das companhias, virou o principal
hub (ponto de distribuição) aéreo
do país e centro de conexões, mesmo
de vôos internacionais, embora os turistas
estrangeiros tenham como objetivo, em 2/3 dos casos,
visitar o Rio.
GALEÃO/TOM
JOBIM: Os dois aeroportos do Rio operam
abaixo de sua capacidade e seriam uma alternativa
sem custos para desafogar Congonhas. Analistas dizem
que o Galeão tem capacidade para absorver
as conexões de Congonhas. Por que a Anac
liberou tantos vôos em Congonhas, que opera
acima de sua capacidade, com quase 19 milhões
de passageiros por ano?
ANAC:
Qual a qualificação profissional de
Milton Zuanazzi para presidir o órgão
que regula todo o tráfego aéreo do
país?
DEFESA:
Por que Lula não afastou o ministro da Defesa,
Waldir Pires, apesar de ter ficado clara a sua falta
de preparo para o posto?
CASA CIVIL:
Por que a ministra Dilma Rousseff foi encarregada
por Lula, no início da crise dos controladores,
para resolver o problema e depois nunca mais lidou
com o problema?
AMPLIAÇÃO:
Por que o Santos Dumont foi ampliado, virou uma
espécie de shopping center, e o terminal
antigo do Galeão, muito mais importante,
pois recebe vôos de turistas estrangeiros,
está caindo aos pedaços? Por que o
Santos Dumont foi liberado antes de as obras estarem
prontas?
CONGONHAS-CIDADE:
A cidade de São Paulo "engoliu"
o aeroporto de Congonhas. Sucessivas administrações
municipais permitiram isso, de forma que a segurança
da operação aérea no local
ficou gravemente comprometida.
ACIDENTES:
O aeroporto de Congonhas passou por outro grave
acidente, também com um avião da TAM.
No dia 31 de outubro de 1996, o Fokker 100 com 99
pessoas taxiava no pátio principal do aeroporto
com destino ao Rio. A duração do vôo
402 foi de apenas 24 segundos. O avião caiu
no bairro Jabaquara, zona sul de São Paulo
e todos a bordo morreram.
ACIDENTE
I:Em Guarulhos, o mais recente acidente
ocorreu em 14 de fevereiro de 2006 com um Boeing
737-300 da Varig que ia para Belo Horizonte. Uma
das peças de sua turbina desprendeu minutos
após a decolagem. A peça, de aproximadamente
um quilo, bateu na laje de uma casa em Guarulhos,
quebrou o telhado e caiu na cozinha. O piloto retornou
ao aeroporto e pousou sem problemas. No Galeão,
em 5 de maio de 2007, um Lockheed L1011-3(500) da
EuroAtlantic Airways, com destino a Montevidéu,
chocou-se com pássaros na decolagem. A tripulação
declarou emergência e retornou para o pouso.
ACIDENTES
II:No Aeroporto Internacional Hercílio
Luze, em Florianópolis, em novembro de 2003,
um Airbus da TAM saiu da pista ao aterrissar e os
122 passageiros deixaram a aeronave pela saída
de emergência. Um mês depois, um avião
da Gol com 136 passageiros deslizou por 120 metros
e bateu a lateral em um muro, mas no Aeroporto de
Navegantes, distante 111 quilômetros da capital.
Em outubro de 2005, um cargueiro 727 ? 2AI, da Variglog,
saiu da pista no Hercílio Luz e deixou o
aeroporto interditado durante quatro horas. Em 2004,
no Aeroporto Internacional Augusto Severo, em Natal,
um avião MD 11 da Varig não conseguiu
parar no final da pista, escorregadia por causa
da chuva. O avião tocou no solo além
do ponto e parou depois do asfalto.
ACIDENTES
III Em 1999, um Antonov 124, de fabricação
russa, sofreu pane no aeroporto dos Guararapes,
em Recife, e ficou atravessado no meio da faixa
de asfalto. O aeroporto ficou 48 horas sem operar.
Este mês, o vôo 3564 da TAM, vindo de
Brasília, teve que arremeter duas vezes no
Aeroporto de Aracaju por falta de teto. O vôo
teve que retornar a Salvador por não conseguir
aterrissar.
OVERBOOKING:Em
plena crise que se desencadeou com o acidente com
o avião da Gol e a série de paralisações
dos controladores de vôo, as companhias aéreas
venderam mais bilhetes do que a capacidade de seus
aviões, caracterizando a prática de
overbooking. A Anac só abriu a consulta pública
sobre o tema em 23 de maio. Não há
previsão para aplicar as novas regras, que
prevêem, por exemplo, compensação
em dinheiro entre R$300 e R$1.200.
ATENDIMENTO:
Consumidores reclamam da falta de informações
precisas sobre os problemas que provocam atrasos
e cancelamentos nos aeroportos brasileiros. A espera
para embarcar e a falta de atendimento tem levado
muitos passageiros a recorrer à Justiça.
RELAXA E
GOZA:Para enfrentar todo o transtorno nos
aeroportos, a ministra do Turismo Marta Suplicy
recomenda "relaxar e gozar".
AÇÕES
JUDICIAIS: Segundo o Idec, a TAM é
o principal alvo dos consumidores em ações
judiciais. O Instituto Brasileiro de Cidadania (Ibraci),
no Rio, acompanha 80 ações contra
companhias aéreas e 95% estão relacionadas
à TAM e à Gol. Das ações
no Tribunal de Justiça do Rio, desde junho,
117 são contra a Gol e 71 contra a TAM.
FORTALEZA:Inaugurado
em fevereiro de 1998, o Aeroporto Internacional
Pinto Martins já opera com a capacidade máxima
de passageiros, de até três milhões.
A pista de 2.485 metros passou por adequações,
mas é a mesma que servia ao antigo terminal.
A Infraero estuda a ampliação do aeroporto,
que duplicaria a capacidade de passageiros e aumentaria
de 14 para 18 o número de posições
de aeronaves no pátio. Diariamente são
feitos, em média, 105 vôos domésticos
e internacionais.
CURITIBA/INFRAESTRUTURA:O
Cindacta II, que monitora os vôos nas regiões
Sul, registra falhas sucessivas nos sistemas de
comunicação. O Aeroporto Afonso Pena,
no Paraná, é obrigado a diminuir o
fluxo de aeronaves que decolam e pousam, acarretando
transtornos em cadeia também em outros aeroportos.
A escassez de investimentos é outro problema.
"Faz pelo menos dez anos que a pista não
recebe recapeamento", disse o presidente da
Associação Nacional das Empresas de
Transporte de Cargas no Paraná, Walmor Weiss.
A informação não foi confirmada
pela Infraero. O aeroporto também não
tem equipamento moderno para permitir pouso quando
há neblina. De acordo com um engenheiro especialista
em aviação, enquanto Congonhas e Santos
Dumont estariam classificados entre os aeroportos
mais perigosos do país devido ao tráfego
intenso e à pista muito curta, Cumbica e
Afonso Pena sofrem com a falta de teto.
FLORIANÓPOLIS:
Em quatro anos, o Aeroporto Internacional Hercílio
Luz, em Florianópolis, registrou duas derrapagens
e saídas de pista de grandes aeronaves. Em
nenhuma delas, houve vítimas fatais. A partir
de 2008, informa a Infraero, a pista principal será
ampliada de 2.300 metros para 2.750 metros e serão
implantadas as ranhuras transversais - grooving
- para o escoamento da água.
PORTO ALEGRE:
O Aeroporto Salgado Filho tem hoje uma pista com
extensão de 2.280 metros, considerada curta
para o local. Está aprovada uma ampliação
na sua extensão para 3.280 metros. Há
duas vilas, com cerca de 1.300 famílias,
próximas a uma das extremidades da pista,
Vila Dique e Vila Nazaré. Para haver ampliação
da pista, é necessário primeiro a
remoção das vilas. A remoção
está atrasada por problemas burocráticos
na área municipal. As condições
climáticas do estado, principalmente no inverno,
aumentam o risco nas operações de
pouso e decolagem no aeroporto, exigindo mais dos
controladores vôo e dos equipamentos.
RECIFE/FALHAS:
Inaugurado há dois anos e tido como um dos
mais modernos do país - com movimento de
cerca de 4 milhões de passageiros por ano
- o Aeroporto Internacional dos Guararapes só
tem uma pista e uma única via de acesso ao
pátio de estacionamento de aeronaves. Uma
das reclamações é o excesso
de tratores no asfalto. A Infraero justificou que
o aeroporto - que fica em área muito urbanizada
- está comprimido entre o Morro Guararapes
e a Base Aérea, não havendo, portanto,
espaço para uma nova construção.
O Sindicato também denuncia a fragilidade
do escoamento de servidores e passageiros em caso
de emergência.
ARACAJU:
Por medida de segurança não é
permitido a construção de imóveis
com mais de quatro andares num raio de seis quilômetros
do Aeroporto de Aracaju, e entre seis e dez quilômetros
os imóveis não podem ter mais que
15 andares. Essa faixa integra o chamado cone aéreo
da cidade e as proibições estão
previstas na Lei Orgânica do Município
e no Código de Urbanismo. A pista tem 2,2
mil metros de cumprimento e 45 metros de largura.
Mas a administração do aeroporto diz
que são necessários mais 500 metros
de pista e ampliação da área
de estacionamento.
CAMPO GRANDE:
O aeroporto internacional de Campo Grande tem a
pista principal de 2.600 metros de comprimento e
aclives e declives de 10 metros nas cabeceiras.
Tanto a pista principal quanto a auxiliar não
têm "grooving". A justificativa
é que, dependendo do clima (principalmente
o volume de chuvas ao longo do ano), e dos aclives
e declives, a colocação do "grooving"
não é necessária.
INFRA-ESTRUTURA:
Enquanto o movimento de passageiros no país
cresceu em ritmo acelerado nos últimos três
anos - 19% só em 2005 - , o investimento
de R$3 bilhões para melhoria na infra-estrutura
aeroportuária previsto no PAC só atende
a demanda até 2010, quando o número
de passageiros vai passar dos atuais 118 milhões
para 158,3 milhões.
ZONAS CEGAS:
Depois do acidente da Gol, ficou claro que os radares
que fazem o controle aéreo e as comunicações
entre torres e aeronaves têm zonas cegas;
as comunicações por rádio falham.
CINDACTAS:
No Brasil, optou-se nos anos 1970 por um sistema
único para controlar tanto a aviação
civil quanto a militar, ao contrário do que
acontece em outros países. Em Brasília,
fica o Cindacta 1; em Curitiba, o Cindacta 2; em
Recife, o Cindacta 3; e, em Manaus, o Cindacta 4,
baseado na estrutura do Sistema de Vigilância
da Amazônia (Sivam). A rede de controle aéreo
brasileira é frágil. Está sujeita
a problemas que começam na falta de manutenção
e atualização dos equipamentos e vão
até as recentes greves dos controladores
- cujo contingente é insuficiente. Por questões
de segurança os operadores afirmam que, depois
do acidente da Gol, operam no controle de 14 aviões
por pessoa (o que atende às normas internacionais).
Antes, a operação de controle chegava
a 25 aviões por pessoa.
INFRAERO:
O presidente da Infraero disse que são
necessários mais 600 controladores aéreos
no país. O governo disse que não tem
dinheiro para isso. Mas, em junho, o governo Lula
contratou 620 assessores para cargos burocráticos,
como o ministério de Longo Prazo entregue
a Mangabeira Unger, aliado do vice José Alencar.
RÁDIOS
PIRATAS: As rádios piratas invadem
as freqüências de comunicação
entre os aviões e a torre de controle e impedem
a comunicação com as torres nos pousos
e decolagens em aeroportos nas grandes cidades,
sobretudo em Congonhas.
BICHOS:
No Rio, a proximidade de um aterro sanitário
leva urubus a entrarem na rota dos aviões.
Os urubus já foram os maiores problemas de
pilotos que usavam o Aeroporto Internacional Augusto
Severo, em Parnamirim, em Natal. Havia um lixão
na cabeceira da pista que atraía os animais.
Infraero e Ibama fizeram operação
na qual capturaram quatro mil urubus, colocados
depois em uma área a 200 quilômetros
do local.
BICHOS NA
PISTA:Em março, um cachorro invadiu
a pista do aeroporto de Congonhas e foi retirado
pelos bombeiros. No mesmo mês, foi a vez de
um pombo morto impedir as operações
de vôo. O superintendente da Infraero Regional
Sudeste, Edgard Brandão Júnior, justificou,
dizendo que cada país tem seu tipo de pássaro.
"Aqui, nós temos as pombas".
RECURSOS:
Os recursos para o setor aéreo são
mal administrados, sobretudo porque a parte principal
não depende de recursos orçamentários.
As taxas de embarque pagas pelos passageiros nos
aeroportos chegaram, só em 2006, a 950 milhões
de reais. O Brasil tem a terceira tarifa aeroportuária
mais cara do mundo. Só que, por determinação
dos ministérios da Fazenda e do Planejamento,
a maior parte desse dinheiro fica retida nos fundos
Aeronáutico e Aeroviário, a fim de
aumentar o superávit primário nas
contas oficiais. Do Fundo Aeronáutico, que
acumulava até o fim de 2006 1,9 bilhão
de reais, somente 17% foram efetivamente usados.
VARIG: Em
julho do ano passado, a maior companhia aérea
do país foi comprada por um grupo de investidores
liderados por um fundo americano (Matlin Patterson)
e, um dia após a compra, o país praticamente
parou suas atividades, que ficaram temporariamente
concentradas na ponte aérea, causando transtornos
aos passageiros usuários da empresa em vôos
domésticos e internacionais. As concorrentes
não conseguiram absorver o fluxo de passageiros,
principalmente no mercado internacional. Hoje, a
Varig, nas mãos dos donos da Gol, tenta se
reerguer e reativar as rotas internacionais.
OBRAS:A
lista de obras de infra-estrutura da Infraero estão
concentradas, sobretudo, nos aeroportos com mais
problemas, em ampliação ou melhoria
no terminal de passageiros, deixando de lado as
áreas de movimentação de aeronaves,
como hangares e pistas. É o caso da reforma
e ampliação das salas de embarque
e desembarque do terminal de passageiros 1 de Guarulhos;
reforma, adequação e modernização
do terminal de passageiros em Congonhas. A obra
de melhoria da pista principal de Congonhas ainda
não foi finalizada mas, mesmo assim, foi
entregue para uso. O "grooving", ranhuras
na pista que auxiliam na aquaplanagem e na frenagem
dos aviões, ainda não foi feita.
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