Apagão
Aéreo
Irritação na caserna
Decisão
de negociar com controladores partiu de Lula. Agora,
governo vive briga interna
Gustavo Krieger
Da equipe do Correio
Partiu do presidente Luiz Inácio Lula da Silva
a ordem para que o ministro da Defesa, Waldir Pires, resolvesse
de qualquer maneira a crise causada pelos
controladores de vôo. Foi também o presidente
quem decidiu envolver o ministro do Trabalho, Luiz Marinho,
nas conversas. O presidente estava irritado com a incapacidade
da Aeronáutica e da Infraero resolverem o impasse
que se arrastava há dias, com os aeroportos lotados
e imagens de filas e passageiros irritados em todos os
telejornais. A crise nos aeroportos teve seu ápice
no Dia de Finados, com longas filas de espera nas principais
capitais do país e congestionamento de aeronaves
nos pátios. Passageiros chegaram a esperar até
15 horas por vôos atrasados pela paralisação
dos controladores de tráfego aéreo.
Como
revelou o Correio na sexta-feira, por trás de toda
a confusão, há duas brigas internas no governo.
A primeira é salarial e por condições
de trabalho. Cerca de dois terços dos controladores
de vôo são militares. Eles recebem um salário
que, na média, chega à metade do que ganham
os controladores civis. Além disso, são
submetidos à rígida hierarquia militar,
enquanto os civis têm rotina de funcionários
públicos.
Todas
as tentativas desses controladores de obter aumentos salariais
ou gratificações esbarram na resistência
do Comando da Aeronáutica em criar diferenças
dentro da tropa. Tornou-se lugar comum entre os militares
da área dizer que o sargento que cuida da vida
de milhares de passageiros ganha o mesmo soldo do que
toca tuba na banda da Força Aérea.
A
segunda briga é a disputa por poder entre a Aeronáutica
e os dois órgãos civis que participam da
administração do setor aéreo no Brasil:
a Infraero e a Agência Nacional de Aviação
Civil (Anac). Os militares reagiram mal à criação
da agência e conseguiram adiar por meses a sua entrada
em funcionamento. Ao final de uma longa queda-de-braço,
conseguiram manter sob seu poder o controle aéreo.
A
briga continuou nos bastidores. Anac e Infraero defendem
a transferência de todo o controle aéreo
para o regime civil. Os militares resistem. Os civis argumentam
com a modernidade. Dizem que controle aéreo é
uma atividade civil nos países desenvolvidos.Os
militares rebatem com a tese da segurança nacional.
Coexistência
difícil
A
crise dos aeroportos acentuou e explicitou estas diferenças
e mostrou a inviabilidade de manter os dois regimes coexistindo.
A Aeronáutica convocou todos os controladores militares
ao trabalho sob ameaça de corte marcial. Os ministros
da Defesa e Trabalho abriram uma frente de negociação
sindical e prometeram atender às reivindicações
dos trabalhadores, inclusive os pleitos dos militares,
que não podiam estar oficialmente na mesa, por
conta da hierarquia da caserna. Na terça-feira,
a primeira reunião do grupo de trabalho para estudar
a reestruturação da carreira de operador
de vôo deve ser realizada em Brasília. Os
ministros da Defesa e do Trabalho vão discutir
o problema com os operadores de vôo. Os militares
foram excluídos.
O comandante
da Aeronáutica, brigadeiro Luiz Carlos Bueno, revoltou-se
e não fez a menor questão de esconder. Disse
a vários subordinados que pensou até em
renunciar ao cargo. Numa quebra de hierarquia, acusou
o chefe, o ministro Waldir Pires, de favorecer a quebra
de hierarquia ao negociar diretamente com sargentos que
exercem a função de controladores de vôo.
Quem
terá de resolver a disputa é Lula. De um
lado, encontrará o comando da Aeronáutica
em crise, exigindo a retomada dos canais hierárquicos.
De outro, pressões da Anac para que ele tome partido
e passe o controle de vôo para o regime civil por
medida provisória. Ao longo do primeiro mandato,
o presidente mostrou-se cuidadoso para não afrontar
os militares. Mas ele perdeu a paciência com a crise
dos aeroportos.