COBERTURA ESPECIAL - Especial Leaks - Aviação

05 de Março, 2012 - 15:35 ( Brasília )

Assim não dá para negociar

E-mails revelados pelo WikiLeaks insinuam propinas e conchavos na escolha dos caças da FAB

Duda Teixeira

Fundada em 1996, a Stratfor é a principal agência privada de inteligência do mundo. Respeitada e com uma rede de milhares de informantes, ganhou o apelido de "Sombra da CIA", em referência ao serviço secreto americano. A companhia vende relatórios com análises geopolíticas e previsões. Também realiza investigações por encomenda de empresas e de entidades públicas. Na semana passada, os bastidores da relação da Stratfor com seus informantes e clientes foram expostos pelo sire WikiLeaks, comandado pelo australiano Julian Assange - aquele que espera extradição da Inglaterra para a Suécia por crimes sexuais. Em sua página de internet, Assange começou a publicar 5 milhões de mensagens de e-mail trocadas entre profissionais da Stratfor de julho de 2004 a dezembro de 2011.

Os arquivos teriam sido roubados pelo grupo hacker Anonymous, que admitiu ter invadido os computadores da Stratfor no fim do ano passado. Redigidas em linguagem mais informal que a dos telegramas escritos por diplomatas americanos divulgados em 2010 pelo site, as mensagens sugerem táticas ilícitas usadas pela Stratfor, como o suborno de militares e integrantes de serviços de inteligência estatais e o suposto caso de uma atraente analista que teria feito sexo para obter informações. George Friedman, fundador e diretor da Stratfor, disse que alguns e-mails tiveram o conteúdo alterado, mas recusou-se a comentar quais.

A mensagem mais controversa sobre o Brasil é de outubro de 2010 e versa sobre a compra de 36 caças para a Aeronáutica, uma decisão que pode chegar a 10 bilhões de reais e se arrasta desde 1998. O governo brasileiro ainda não se decidiu se opta pelo Rafale, da França, pelo F-18 Super Hornet, dos Estados Unidos, ou pelo Gripen, da Suécia. No e-mail em questão, o analista Marko Papic diz ter conversado com um diplomata americano responsável pela cooperação econômica com o Brasil sediado no Rio de Janeiro, e não identificado. A correspondência começa tratando da compra de submarinos nucleares franceses, anunciada pelo governo brasileiro em 2008, para só então chegar à trama central. "Olhe, a Marinha brasileira é uma m... O desejo de ter submarinos nucleares não faz sentido. O fato de eles quererem o Rafale e o Gripen é uma piada também. O F-18 é a melhor máquina", afirma o funcionário anônimo citado por Papic.

Um ano antes desse e-mail, o presidente Lula havia declarado, durante uma visita do presidente francês Nicolas Sarkozy, que o Brasil compraria os caças Rafale, fabricados pela Dassault. Alguns meses depois, a licitação brasileira referente aos caças ficaria embolada quando um relatório da Força Aérea Brasileira (FAB), feito após testes de voo e análises técnicas, declarou ser o Gripen, da Saab, a melhor escolha. Tanto para Lula quanto para a FAB, portanto, o F-18, da Boeing, seria preterido. O diplomata americano consultado pela Stratfor considerava que o Rafale, o mais caro entre todos os concorrentes, estava com o preço inflacionado.

E o Gripen, segundo ele, é um péssimo avião: "Você só compra Gripen se você é a Eslováquia". A escolha dos caças de combate rendeu tanta polêmica que foi adiada para o ano seguinte. A batata quente, então, voou para as mãos de Dilma Rousseff. Na semana passada, a suspensão da compra de aviões Super Tucano, da Embraer, pelos Estados Unidos complicou ainda mais a posição da Boeing na tentativa de vender seus caças ao Brasil.

O mesmo e-mail especula por que os brasileiros insistiam no modelo da França, que na época cogitava fechar a linha de produção do caça por falta de clientes no exterior. "Nossa avaliação, e todos aqui no consulado e na comunidade diplomática mais ampla concordam com esse ponto de vista, é que há muito suborno acontecendo. O Brasil é um país incrivelmente corrupto", teria dito o diplomata americano. Em seguida, ele lamenta não poder corromper os brasileiros: "O Departamento do Tesouro nos proíbe de encher a carreira deles, como fazem os franceses". A frustração do diplomata então se volta para o presidente brasileiro: "Lula está provavelmente procurando dinheiro para se aposentar. Basta ver que a compra está perto do fim de seu mandato".

Ao divulgar e-mails em que um diplomata americano insinua que Lula esperava receber propina em troca da compra dos caças, estaria Assange querendo denegrir a imagem do ex-presidente? Nada disso. O que move Assange em sua cruzada para revelar segredos de estado e privados é o antiamericanismo e o ódio ideológico às grandes corporações. Ao divulgar documentos confidenciais em seu estado bruto, contudo, muitas vezes ele mira em um alvo e acaba acertando outro. As relações entre Lula e Sarkozy já haviam sido discutidas em telegramas da diplomacia dos Estados Unidos revelados pelo WikiLeaks em 2010. Em uma mensagem de novembro de 2009 escrita pela embaixada americana em Paris, por exemplo, os diplomatas falam de um "caso de amor" entre os dois.

O francês estaria fazendo "uma ofensiva de charme" para ganhar o coração do brasileiro. Não aparecem, contudo, insinuações de corrupção. Por ironia, Lula já defendeu o WikiLeaks publicamente em algumas ocasiões. No fim de 2010, ele se manifestou contra a prisão de Julian Assange na Inglaterra a pedido da Justiça da Suécia, onde o hacker é acusado de estupro e assédio sexual. Lula viu perseguição política na notícia. Assim ele definiu Assange: "Um rapaz que estava pondo a nu um trabalho menor que alguns embaixadores fizeram".

Evidentemente, o e-mail da Stratfor divulgado na semana passada não serve como prova de nenhuma irregularidade na escolha dos caças da FAB. Pode ser apenas um desabafo de um negociador vencido pela burocracia, por exemplo. O simples fato de que um dos concorrentes suspeita da lisura do negócio, porém, é de lamentar, pois demonstra a baixa credibilidade internacional do estado brasileiro. Não basta ser honesto, é preciso parecer honesto.

Se não compra, não vende

Com elevada capacidade de manobra e velocidade lenta, o avião Super Tucano, fabricado pela Embraer, é considerado o melhor na categoria de ataque leve. Com hélice, perde para os caças, a jato e mais rápidos, em enfrentamentos no ar, mas é ideal para localizar e combater bandos armados no solo. Em anos recentes, o Super Tucano provou sua eficiência ao destruir acampamentos das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Nos próximos anos, seria usado para perseguir combatentes do Talibã nos vales do Afeganistão. A expectativa foi frustrada na terça-feira passada, quando o governo americano suspendeu a compra de vinte aeronaves no valor total de 355 milhões de dólares. A alegação é que há problemas na documentação.

A decisão revoltou o Itamaraty, que publicou uma nota dois dias depois. "A medida não contribui para o aprofundamento das relações entre os dois países em matéria de defesa", diz o texto publicado no site. Foi um recado velado para dizer que, se não comprarem os Super Tucano, os americanos poderão ficar sem vender o caça F-18 à FAB. "As aquisições na área de defesa estão todas conectadas e são indissociáveis dos interesses nacionais", diz o engenheiro aeronáutico Richard Lucht, professor de ambiente de negócios em aviação do ITA e da ESPM.

Na Força Aérea dos Estados Unidos, raros são os aviões importados. As poucas exceções são os de países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). As compras de aviões no exterior sempre se arrastam por anos. Após perder a licitação para a Embraer, a companhia americana Hawker Beechcraft fez lobby afirmando que a compra dos Super Tucano exportaria empregos para o Brasil (na realidade, eles seriam produzidos na Flórida). A eleição presidencial, marcada para novembro, pode ter contribuído para a suspensão. Membros do governo americano apressaram-se em acalmar os ânimos dos brasileiros, afirmando que a Força Aérea ainda está interessada no Super Tucano. O jogo continua.



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