| 1968
- A Ofensiva do TET
30 Janeiro a 23 Setembro 1968
4 ª Parte
- O
Tet e seus reflexos na guerra do Vietnam
Fernando
Diniz
A ofensiva do
Tet, em fevereiro de 1968, aumentou ainda mais o
desencanto do povo americano com a política
de guerra do presidente Lyndon Johnson, além
de provocar profundas mudanças no papel dos
Estados Unidos no Vietnam.
A partir desta decisiva ação militar
comunista, os programas de vietnamização
do conflito e de pacificação (submissão
dos elementos rebeldes) assumiram crucial importância
na estratégia norte-americana e de seu aliado,
o Vietnam do Sul.
A vietnamização implicava no processo
de redução da presença americana
no Vietnam do Sul, entregando bases e instalações
às tropas do AVN, além de intensivos
programas de treinamento e reequipamento, com o
fito de aumentar-lhes a responsabilidade de combate.
Complemento natural da vietnamização,
a pacificação teve como objetivo capacitar
o Vietnam do Sul a prover sua própria segurança,
usando sua polícia e suas forças armadas.
Embora o presidente Richard Nixon tenha recebido
o reconhecimento pela vietnamização,
o início desse processo remonta ao governo
anterior. Oficialmente, os Estados Unidos sempre
afirmaram estar apenas ajudando na defesa de um
país aliado, e que um dia os sul-vietnamitas
assumiriam esta responsabilidade.Mas, na prática,
o ARV foi ignorado por anos.
O general Westoreland, CO das tropas norte-americanas,
concentrou-se em bater o inimigo com suas próprias
tropas. O ARV- mal dirigido, mal treinado e equipado
e assolado por corrupção e deserções
– não lhe inspirava o mínimo
respeito. Mas no verão de 1967, com o crescente
aumento nos custos da guerra, e o aumento da insatisfação
popular “em casa”, o Presidente Johnson
passou a resistir aos pedidos de Westmoreland por
mais tropas. A idéia era melhorar o desempenho
do ARV e seu equipamento, fazendo-o assumir um papel
importante na condução da guerra.
A redução do numero de baixas norte-americanas
também era outro poderoso fator que pesava
contra o envio de mais soldados. O general Creighton
Abrams recebeu a missão de melhorar o desempenho
do ARV.
Foi criado o CORDS – Comando de Apoio a Operações
Civis e Desenvolvimento Revolucionário –
que era parte do comando militar americanos e incluía
pessoal da CIA e da AID – Agencia para o Desenvolvimento
Internacional.
Vietnamização
e pacificação
Com o apoio incondicional
do Embaixador dos Estados Unidos em Saigon, Ellsworth
Bunker, o CORDS organizou um serviço de informações,
atacou a presença política do NLF,
fortaleceu as forças de pacificação
do Vietnam do Sul e canalizou recursos para o desenvolvimento
das aldeias. Em março de 1968, os Estados
Unidos tomaram a decisão definitiva de não
aumentar suas tropas. Teve inicio então o
urgente aperfeiçoamento do ARV.
Acelerou-se a produção do M16, de
maneira que o ARV pudesse usar uma nova arma, mais
leve e fácil de manejar, e mais condizente
com o tipo físico dos sul-vietnamitas, que
até então ainda eram equipados com
os pesados Garand M1 da Segunda Guerra. Helicópteros,
blindados e artilharia foram fornecidos ao ARV em
crescentes quantidades. Em junho de 1968, o general
Abrams, já bastante envolvido no programa
de vietnamização, assumiu o lugar
de Westmoreland no comando das forças americanas
no Vietnam do Sul.
Ao mesmo tempo, o governo sul-vietnamita de Nguyen
Van Thieu aprovou em junho de 1968 a lei de mobilização
geral, que tornou obrigatória alguma forma
de prestação de serviço militar
para todos os cidadãos aptos do sexo masculino
entre os dezesseis e os cinqüenta anos. Além
disso, concordou em armar os camponeses, criando
a Força Popular de Autodefesa, milícia
treinada e equipada para proteger suas aldeias.
Durante o ano de 1968, o efetivo do ARV –
tanto regulares como Forças Regionais e Populares
– cresceu de 643.000 para 820.000 homens.
A retirada das tropas norte-americanas começou
em junho de 1969, quando os programas de treinamento
e reequipamento já começavam a atingir
um grau bem elevado de sucesso, principalmente entre
as unidades terrestres e aéreas. Também
houve uma aceleração na entrega de
novas armas: em abril de 1969 todas as tropas regulares
do ARV estavam já equipadas com M16. Em fevereiro
de 1970 a maior parte das Forças Regionais
e Populares também já haviam sido
reequipadas com armas modernas.
Pressão
sobre o ARV
Com o sucesso da
vietnamização e da pacificação,
cresceu a responsabilidade das Forças Armadas
do Vietnam do Sul. À medida que cresciam
as áreas seguras e a pacificação
se estendia às áreas antes disputadas
com o NLF, expandiam-se os deveres do ARV e das
forças territoriais na proteção
dos povoados. A retirada dos Estados Unidos levou
o ARV a assumir cada vez mais o encargo de combates
e suporte na guerra ao Exército do Vietnam
do Norte. Em conseqüência, as exigências
sobre as forças regionais e populares aumentaram.Deviam
agora garantir a segurança local sem o grau
de apoio das unidades regulares do ARV e dos EUA
a que estavam acostumadas.
O ARV acabou respondendo pelos combates terrestres
a partir do fim de 1970. Contando, em teoria, com
uma força de mais de um milhão de
homens, divididos de uma força quase uniforme
entre regulares e territoriais, e contando com o
que havia de mais moderno nos arsenais norte-americanos,
o ARV teria sido capaz de garantir a segurança
de seu país, sobretudo porque desde 1971
se calculava que menos de 5% do território
sul-vietnamita estava em mãos comunistas.
A dependência
dos Estados Unidos
A liderança
das Forças Armadas constituía uma
das questões mais críticas enfrentada
pelo Vietnam do Sul. Altas patentes e promoções
dependiam mais de acertos e conveniências
políticas do que da capacidade militar, de
liderança ou do desempenho. Assessores americanos
recomendavam o afastamento de um oficial ou político
incompetente que ocupasse posição-chave.O
governo sul-vietnamita acatava a sugestão,
mas poucos meses depois esse indivíduo aparecia
em outra unidade. Sem um corpo sólido de
oficiais trinados e capazes, as forças do
Vietnam do Sul teriam dificuldades em enfrentar
a ameaça militar do PAVN – o Exército
do Povo do Vietnam do Norte – cuja liderança
mostrava motivação, competência
e desempenho profissional.
Havia também pouca possibilidade do ARV de
sustentar-se sozinho. Seus oficiais estavam acostumados
ao estilo norte-americano de combate, uma dispendiosa
e às vezes exagerada combinação
de mobilidade e poder de fogo. Chegavam a surpreender
seus assessores na rapidez com que pediam apoio
aéreo e de artilharia, em ações
eminentemente de infantaria. Tinham, portanto uma
dependência total dos Estados Unidos em logística,
desde peças de reposição e
munição até equipamento pesado.
A economia local só permitia o fornecimento
de uniformes militares...Todo o resto vinha de fora.
O ARV tampouco podia prescindir do apoio aéreo
americano.
O êxito da pacificação também
estava sujeito a duvidas. O numero de localidades
sob controle do governo era maior do que nunca,
mas havia necessidade de manter esta situação.
O programa de reforma agrária e os conselhos
regionais pró-EUA logo seriam comprometidos
pela desconfiança e pela hostilidade do regime
de Saigon em relação aos camponeses.Cessara
a oposição ativa nas aldeias, mas
continuava não existindo apoio efetivo ao
presidente Thieu.
A única garantia para a sobrevivência
do Vietnam do Sul como Estado independente era o
compromisso do governo americano de continuar fornecendo
cobertura aérea, armas e dinheiro. De fato,
a vietnamização e a pacificação
apenas desempenharam papel de cobertura para a retirada
das tropas norte-americanas, sem admissão
de derrota ou desonra.
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