Iraque
é exemplo de eficácia das velhas armas
(nota DEFESA@NET o título em inglês
é "We Still
Need the Big Guns"
o que não é o sentido adotado na tradução)
Charles J. Dunlap Jr.
*
A relativa calma
que as Forças Armadas dos EUA impuseram no
Iraque certamente é motivo para um otimismo
moderado. Mas também levanta algumas questões
óbvias: como isso foi alcançado e
o que significa para o futuro planejamento da estratégia
de defesa?
Compreensivelmente,
muitos analistas atribuem esse sucesso ao fato de
as tropas dos EUA seguirem os ditames do elogiado
novo manual de contra-insurgência do Exército.
Embora o manual seja bem melhor do que seus antecessores,
seria um enorme erro tomar isso como uma prova de
que - como tem feito a imprensa, a comunidade acadêmica
e organizações políticas independentes
- essa vitória sobre os insurgentes foi obtida
por qualquer outra tática que não
o uso de força militar tradicional.
Infelizmente, entusiastas
fascinados interpretaram mal o manual ao dizerem
que para derrotar uma insurgência é
preciso conquistar corações e mentes
com equipes de antropólogos, propagandistas
políticos e agentes graduados de assuntos
civis munidos de kits prontos de democracia. Eles
consideram ultrapassado matar ou capturar insurgentes.
(Nota DEFESA@NET: o texto original menciona "starry-eyed
enthusiasts" em referência ao General
Donn A. Starry,que foi o arquiteto da doutrina militar
do US Army nos anos 80. Um ataque indireto ao Gen
Petraeus, pois Starry também comandou o US
Army TRADOC)
Mas a realidade
é bem diferente. A lição do
Iraque é que forças tradicionais funcionam.
Acrescente 30 mil soldados da melhor infantaria
do mundo aos 135 mil soldados calejados pela batalha
que já estão lá, como foi feito,
e a insurgência em menor número estará
em séria encrenca. Detenha mais milhares
de iraquianos como ameaças à segurança,
e o potencial para a violência inevitavelmente
declina.
Notícias
veiculadas pela imprensa indicam que o número
de iraquianos presos dobrou no ano passado, de 15
mil para 30 mil. E embora o número de baixas
seja vago, militares disseram ao jornal USA Today
em setembro que o número de insurgentes mortos
era 25% mais alto do que em todo o ano de 2006.
Apesar de a nova
doutrina da contra-insurgência parecer antitecnológica
- desencolrajando o uso do poderio aéreo
-, comandantes no Iraque conseguiram bons resultados
no ano passado deixando de lado tais recomendações.
Poucos americanos sabem que os ataques aéreos
quintuplicaram em 2007, em relação
ao ano anterior, o que ocorreu paralelamente à
estratégia de reforço de tropas. Mais
uma vez, recorrer à alta tecnologia mostrou
ser um grande sucesso.
Dois outros fatos
desconfortáveis também ajudaram a
reduzir a violência. Primeiro, a população
iraquiana em grande parte segregou-se em feudos
sectários. Segundo, insurgentes supostamente
“regenerados” agora dominam a Província
de Anbar. Embora esses partidários sunitas
tenham por enquanto tomado o lado dos EUA, será
que podemos supor que eles incorporaram a idéia
de um Iraque verdadeiramente pluralista e democrático?
Admiradores do manual
de contra-insurgência usam-no como um porrete
contra as pessoas que planejam a estratégia
da próxima guerra em vez da atual. Segundo
essa linha de pensamento, a próxima guerra
será uma repetição do Iraque
e, assim, a maior parte das Forças Armadas
americanas deve estar estruturada para a contra-insurgência.
Mas isso não
leva em conta outras possíveis ameaças.
Será que devemos ignorar a crescente força
da China e os planos da Rússia para desenvolver
uma quinta geração de caças
que irá suplantar o jato americano top de
linha, o caça F-22?
Mais ainda: será
que alguém acredita que criar equipes de
altos funcionários dedicados a assuntos civis
irá deter a Coréia do Norte e o Irã?
Sim, há sempre
a possibilidade de que nos encontremos mais uma
vez combatendo uma insurgência e o manual
contém muitas boas idéias. Além
disso, a proposta de uma equipe de 20 mil consultores
para ajudar as forças locais iraquianas a
combater os insurgentes deve logo receber luz verde.
O problema surge
quando consideramos alocar excesso de recursos na
preparação para apenas um tipo de
conflito. Fazer isso colocaria os EUA numa situação
de verdadeiro perigo de perder a superioridade tecnológica
que tem mantido as ameaças muito mais perigosas
à distância. Por exemplo, deve-se considerar
que os aviões de guerra dos EUA têm
pelo menos 25 anos.
O enorme custo da
guerra no Iraque, sem falar na perda de vidas de
ambos os lados, deveria aconselhar contra a idéia
de uma operação semelhante em outro
lugar. Olhando para o futuro, os EUA precisam de
Forças Armadas preparadas não em ocupar
outro país mas em impedir que os adversários
em potencial tenham capacidade de atacar interesses
americanos. Essa não é uma tarefa
para contra-insurgentes, mas para Forças
Armadas de alta tecnologia que substituam os cadáveres
de jovens americanos por máquinas. TRADUÇÃO
DE MARIA DE LOURDES BOTELHO
* Charles
J. Dunlap Jr. é major-general USAF
(equivalente a brigadeiro-do-ar na FAB), autor do
livro Shortchanging de Joint Fight?,
uma avaliação do manual de contra-insurgência
do Exército. Ele escreveu este artigo para
‘The New York Times’
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