COBERTURA ESPECIAL - Venezuela - Geopolítica

06 de Julho, 2017 - 11:30 ( Brasília )

Apoiadores do governo invadem Parlamento e ferem deputados na Venezuela

Grupo invade sede do Legislativo e entra em confronto com deputados e funcionários. Ao menos 12 pessoas ficam feridas, e um legislador fica inconsciente. Maduro condena violência.

Um grupo de cerca de cem simpatizantes do governo da Venezuela invadiu nesta quarta-feira (05/07) a Assembleia Nacional, cuja maioria é de oposição ao presidente Nicolás Maduro, e feriu vários deputados, funcionários e jornalistas que estavam no local.

Os manifestantes – muitos deles vestidos de vermelho e armados com paus e rojões – ficaram por horas reunidos em frente ao prédio e invadiram os jardins do Parlamento logo depois de uma sessão comemorativa dos 206 anos da independência da Venezuela, celebrada apenas pelos opositores.

O incidente foi precedido pelo lançamento de rojões nos jardins do Palácio Federal, a sede do Legislativo venezuelano. Em meio às explosões, os deputados se refugiaram na câmara, mas decidiram sair para enfrentar o grupo quando souberam que este havia entrado nos jardins.

Manifestantes e deputados entraram em confronto, do qual resultaram feridos ao menos cinco deputados e sete funcionários do Legislativo. O deputado Américo de Grazia foi levado inconsciente para a enfermaria do Parlamento, com ferimentos na cabeça. Há também relatos de jornalistas e invasores feridos. Repórteres foram atacados e tiveram seus equipamentos roubados. Ao menos um dos invasores portava uma arma. Os invasores chegaram a alcançar os corredores da Assembleia.

O grupo acabou sendo expulso pela Guarda Nacional (polícia militar), que é responsável pela segurança da sede legislativa, mas os deputados oposicionistas acusaram o comando da Guarda de permitir a invasão, que ocorreu sob os olhos dos seguranças. Depois de expulso, o grupo de manifestantes permaneceu do lado de fora da sede da Assembleia ainda por várias horas.

"Tudo isso aconteceu diante do olhar impassível da Guarda Nacional. Estes são fatos sumamente graves", afirmou o deputado opositor Henry Ramos Allup em entrevista no Parlamento. "Isso faz parte do assédio delinquencial das quadrilhas armadas do regime contra a Assembleia Nacional", disse.

Pela manhã, o vice-presidente Tareck El Aissami fizera uma visita inesperada à Assembleia Nacional, acompanhado de funcionários e militares do primeiro escalão, para um evento em comemoração ao Dia da Independência. Parado ao lado do documento de declaração de independência da Venezuela da Espanha, ele afirmou que potências mundiais tentam mais uma vez subjugar os venezuelanos. Depois que ele foi embora, um grupo de apoiadores do governo fez um piquete do lado de fora do prédio, que, mais tarde, acabou invadindo.

Maduro condenou o ataque ao Parlamento e pediu que ele seja investigado. "Condeno absolutamente estes fatos. Jamais serei cúmplice de atos de violência. Eu os condeno e ordenei que sejam investigados e que se faça Justiça", afirmou o chefe de Estado, que, no momento da invasão, participava de um desfile cívico militar em outro ponto de Caracas em comemoração ao Dia da Independência.

Um tapa na cara da democracia¹

Numa democracia, o povo é o soberano. E o Parlamento, eleito livremente, é a expressão de sua vontade. Para democratas, a sede parlamentar é uma catedral da liberdade.

Na Venezuela, brigadas paramilitares chavistas invadiram a Assembleia Nacional venezuelana no 206° aniversário da declaração de independência do país, ferindo deputados eleitos democraticamente e mantendo durante horas centenas de pessoas como reféns. Tudo isso aconteceu diante dos olhares impassíveis da Guarda Nacional (polícia militar) presidencial, pouco tempo depois que o vice-presidente do país falara no Parlamento sobre a "hora dos revolucionários", conclamando "as pessoas comuns" a entrar no plenário.

Mais claro que isso é impossível. O governo da Venezuela despreza a democracia e entrega seus representantes ao pelotão de fuzilamento. Ninguém pode agora acreditar que o presidente Maduro e seus chavistas estejam propensos a negociações sérias com a oposição, que detém quase maioria de dois terços na Assembleia Nacional.

O fato de Maduro ter condenado o ataque após o incidente violento não foi nada mais que um exercício obrigatório. Afinal, na semana passada, o mesmo presidente falou claramente: "O que não conseguirmos com votos, faremos com armas." Esse mesmo presidente anunciou há poucas semanas a distribuição de 500 mil armas de fogo a seus grupos paramilitares – os "colectivos" – e afirma agora não ser nenhum "cúmplice da violência".

Na Venezuela, a violência já é uma verdade há bastante tempo, ela reina nas ruas. Depois de 97 dias de protestos quase diários contra o governo, existe um número quase igual de vítimas, a maioria do lado dos manifestantes. As forças de segurança agem com resoluta brutalidade, os "colectivos" armados cuidam do resto. E quanto mais tempo durar essa luta desigual de poder, mais difícil será manter pacíficas as manifestações. Grupos utilizam cada vez mais os protestos para saques e depredações, os manifestantes também aderem à violência.

E a inflação ainda continua a subir mais rápido do que o presidente consegue aumentar o salário-mínimo; ainda há escassez de alimentos e remédios; a taxa de criminalidade no país ainda continua a ser uma das mais altas do mundo e ainda não há um fim, uma saída à vista.

Em três semanas, deverá ser realizada uma "eleição" para uma Assembleia Constituinte, preparada cuidadosamente para favorecer os chavistas e com a qual Maduro quer finalmente cimentar o seu poder. Duas semanas antes, a oposição pretende organizar, de forma unilateral, um contrarreferendo.

A resistência contra a abolição da separação de poderes continua inabalável, mas cresce o desespero. A comunidade internacional não dispõe mais de muito tempo para acalmar essa situação. Para que houvesse alguma mudança, há um ano e meio, a grande maioria dos venezuelanos votou na oposição que hoje predomina no Parlamento. O ataque de ontem significou um tapa na cara de cada um desses eleitores.


¹por Uta Thofern chefia departamento América Latina da DW

 

 

 


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